Achei em emails antigos... é de fevereiro/2010, mas vale a pena ler...
Das Kapital <http://blogs.estadao.com.br/daniel-piza/das-kapital/>

   - 21 de fevereiro de 2010


   - Por danielpiza

[image: Baptistão]

A crise internacional que causou a maior parada da indústria brasileira em
vinte anos causou também o ressurgimento de slogans estatizantes, por uma
mistura de conveniência e recalque. O PT e a autodenominada esquerda leram a
crise com a habitual lente de aumento dos países atrasados: ela teria
significado “a volta do Estado” depois de duas décadas de neoliberalismo. O
diagnóstico é conveniente porque serviria para justificar o aumento do
déficit fiscal e da dívida interna, movido muito mais pelo aumento de
servidores e despesas do que dos investimentos, e licenciar o aparelhamento
de bancos e fundos de pensão e as tentativas de nacionalização nas áreas de
telefonia, siderurgia e energia. E o diagnóstico é recalcado porque mostra
que, depois de quase oito anos de governo Lula, nem eles mesmos entenderam
os motivos de sua popularidade, já que praticou o contrário do que sempre
pregou.

Ironicamente, o debate mundo afora tem apontado para o outro lado. Sim, a
injeção de dinheiro público para cortar o ciclo recessivo foi fundamental,
seguindo não apenas a orientação de um Keynes (economista que, não custa
lembrar, sempre se declarou um liberal, só que heterodoxo), mas uma velha
prática do capitalismo moderno. Olhe os gráficos da participação da máquina
pública nas economias ao longo do século 20: em todas houve aumento em
média, não encolhimento. Mas, a certa altura, ficou claro que era preciso
reduzi-la por meio de cortes e privatizações, sobretudo em face de uma
realidade cada vez mais dinâmica e inovadora, a da Era Digital ou
pós-industrial. E agora nos deparamos de novo com o quê? EUA, Europa e Japão
às voltas com imensas dívidas públicas que paralisam seu crescimento. A
crise, enfim, é soma da desregulamentação financeira com o descontrole
fiscal; não à toa, na Grécia, a Goldman Sachs ajudou a maquiar a
contabilidade do governo.

Aqui, no entanto, vemos que só se olha para um lado do problema. A
plataforma do PT para a candidatura Dilma Rousseff propõe a retomada do
“desenvolvimentismo”, do Estado empresário, executor, forte, etc. É claro
que não se trata do que tivemos nos anos 50 a 70, porque hoje não se tolera
mais o subproduto trágico daquele período, a inflação. Mas a ilusão é
semelhante e ignora os efeitos nocivos da atualidade. Além disso, não
estamos numa sociedade desenvolvida, com instituições sadias e educação
séria. Como se tem visto no segundo mandato de Lula, a ordem é atropelar
“atrasadores de obras” como TCU, MP e Ibama, fingir que autarquias como a
Infraero não estão carcomidas pela corrupção e manter uma estrutura
tributária que pune a produtividade e os pobres; a carência de mão de obra
qualificada é agônica; e as contas externas vão mal, porque só sabemos
exportar produtos básicos, de pouca industrialização e tecnologia. Então,
como assim, “desenvolvimento”?

Mais irônico ainda é ler que o governo Dilma pretende montar uma “burocracia
de alta qualidade” com “critérios meritocráticos e republicanos” – tudo que
o governo Lula não fez, seguindo a praxe quase contínua de 500 anos de
Brasil. A velha guarda petista acha que o sucesso de Lula se deve quase todo
aos programas sociais como o Bolsa Família. Naturalmente, sabe o peso da
estabilidade econômica (nunca mais se ouviu, por exemplo, um Mercadante
dizer que não há nenhum problema numa inflação de dois dígitos), tanto é que
pinta José Serra como ameaça por suas opiniões esquisitas sobre política
cambial. Mas o foco é desdenhar as privatizações feitas no passado, como se
nada tivessem a ver com o vigor econômico dos últimos anos, e dizer que não
há inchaço da máquina, e sim reconstrução… Como os governos do regime
militar, o lulismo supõe que a eficiência do Estado se mede pelo tamanho das
obras. Pode-se dizer que sofre, acima de tudo, da doença infantil do
simplismo.

Essa mesma turma, que ainda não entendeu por que o muro de Berlim caiu,
dizia antigamente que a única maneira de reduzir a desigualdade social era
tirar dos ricos para dar aos pobres; ser de “esquerda” era defender um
Estado cada vez maior para fazer essa transferência de renda. A grande
contribuição do governo Lula, porém, foi mostrar que isso era bobagem: a
desigualdade continuou a cair e nenhum capitalista ou burguês perdeu um
centavo sequer desde 2003 – muito pelo contrário, como atestam os elogios de
Abílio Diniz, Eike Batista e outros bilionários. Já os privilégios que o
Estado concede a alguns setores, como empreiteiras, sindicatos e oligarquias
políticas, só se ampliaram. E quando se vê Marco Aurélio “top top” Garcia,
um dos conselheiros preferidos de Dilma, dizer que a TV a cabo impõe
“esterco” dos americanos, o olor que sobe é desagradavelmente sessentista.
Não há nada que um estatista odeie mais que a liberdade de expressão e
produção.


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FG

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