O Lulismo - Na prática, a teoria é outra

http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=5206

Em artigo recente na Novos Estudos
CEBRAP<http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=1356>(leiam
esse negócio), o André Singer (cientista político, ex-porta-voz do
Lula) apresenta uma análise sobre o “lulismo”, fenômeno que definiremos em
um instante. Esse é o tipo de artigo de que nós andamos precisando, uma
coisa um pouco mais distanciada da briga política mais imediata, mas que dá
mais consistência à discussão. Vamos aos argumentos.

1. Houve um descolamento muito grande de votos ocorrido entre 2002 e 2006.
Embora Lula tenha vencido Serra e Alckmin pelos mesmos 20 milhões de votos,
não são os mesmos 20 milhões de votos. Em 2002, embora Lula tenha tido muito
mais votos que na eleição anterior, repetiu o perfil que vinha desde 1989,
vencendo nas cidades maiores, e com mais votos entre eleitores com maior
nível educacional e maior renda.

[rápido esclarecimento: o Brasil é um país muito pobre, de modo que, nas
classificações utilizadas para pesquisa, o grupo de maior renda não é
milionário, não, é o pessoal que ganha mais de 4 ou 5 mil]

Em 2005, exatamente enquanto eclodia a crise do Mensalão, um deslocamento
tectônico acontece, e, ao mesmo tempo em que Lula começa a cair entre os
formadores de opinião, começa a disparar entre os eleitores muito pobres
(50% da população). O artigo traz um excelente resumo das políticas que
produziram esse resultado: BF, obviamente, Salário Mínimo, obviamente, mas
também crédito consignado, Luz para todos, o sucesso da política econômica,
etc.

Em 2006, Lula ganha com o voto desses pobres. Mas o que justifica falar em
lulismo é que o PT mantém exatamente o mesmo padrão anterior: continua
ganhando nas maiores cidades e perdendo nas menores.A grande contribuição do
artigo é mostrar esse deslocamento, que é algo raro.

Mas como devemos interpretar esse deslocamento? Nessa tarefa muito mais
difícil, o Singer se sai menos bem.

2.

Pesquisas do começo do ano 90 sugerem que o eleitorado muito pobre (50% do
eleitorado) tem perfil conservador. Por exemplo, entre os muito pobres havia
muita gente disposta a usar o exército para reprimir greves. E a
auto-identificação esquerda/direita em pesquisas brasileiras constantemente
dá que há muito mais direitistas que esquerdistas (nesse caso, as pesquisas
apresentadas são mais recentes).

No que se refere ao segundo ponto, se eu entendi direito a Tabela 5, os
eleitores de direita defendem mais a intervenção do Estado do que os de
esquerda. Na pesquisa de 2006, Lula vence disparado, com a mesma proporção,
na esquerda e na direita (tem menos votos no centro). E aí é que vale
lembrar que, nessas pesquisas sobre valores, é sempre importante tentar
entender o que é que as pessoas acham que está sendo perguntado.

Como nota o Singer, os mais pobres parecem estar fazendo o corte
esquerda/direita na linha de desordem/ordem, não na linha
igualitarismo/liberalismo. Assim, não lhes parece contraditório votar
entusiasmadamente em Lula, que agora é o presidente, uma figura da ordem,
que manteve a política econômica do FHC e não subverteu muita coisa, para
que ele distribua renda, algo que desejam fortemente, como seria de se
esperar.

O Lulismo, então, seria a combinação de uma aspiração por igualdade
associado à aversão à contestação mobilizada, característica da parcela da
população pobre “desorganizada” (fora de sindicatos, associações de bairro,
etc., o que não quer dizer que não tenham suas próprias formas de
solidariedade: lendo o Singer, pensei no sucesso do Lula entre setores
evangélicos, além, é claro, da tradicional base católica progressista).

O problema com esse procedimento, naturalmente, é que, quando você diz,
digamos, que 60% dos pobres votam no Lula, e 60% dos pobres torce pelo
Flamengo, você não sabe se são os mesmos 60%. Certamente há eleitores do
Lula que torcem pelo Flamengo, mas eles podem, inclusive, ser minoria. Em um
exemplo extremo, pode ser que os 40% dos malditos não-flamenguistas sejam
eleitores do Lula. Nesse caso, 2 em cada 3 dos Lulistas se decepcionarão
todo campeonato.

Há casos em que é fácil distinguir com bom senso (se 50% forem judeus, e 50%
anti-semitas, não é muito provável que haja muito *overlap*). Mas esse
talvez não seja um desses casos. Assim, embora a maioria dos pobres seja
conservadora, e a maioria dos pobres vote no Lula, nada prova que seja a
mesma metade nos dois casos. Eu apostaria, sim, que tem um overlap grande,
mas não sabemos o tamanho.

[Se não me falha a memória, o Gary King, fodão da balaxita em Harvard, tinha
um método qualquer para lidar com isso. Se alguém se interessar, dê uma
olhada]

3.

Suponhamos, com o Singer, que há um enorme contingente de pobres que apóiam
Lula com entusiasmo, mas não são de esquerda, nem votam no PT. Há,
naturalmente, algo de populismo nisso:

Árbitro acima das classes, o lulismo não precisa afirmar que o povo alcançou
o poder ou que “os dominados comandam a política”, como na formulação que
Oliveira foi buscar na África do Sul pós?apartheid.Ao incorporar tanto
pontos de vista conservadores, principalmente o de que a conquista da
igualdade não requer um movimento de classe auto-organizado que rompa a
ordem capitalista, como progressistas, a saber, o de que um Estado
fortalecido tem o dever de proteger os mais pobres, independentemente do
desejo do capital, ele achou em símbolos dos anos de 1950 a gramática
necessária. A noção antiga de que o conflito entre um Estado popular e
elites antipovo se sobrepunha a todos os outros poderá cair como uma luva
para o próximo período. Agora enunciada por um nordestino saído das
entranhas do subproletariado, ganha uma legitimidade que talvez não tenha
tido na boca de estancieiros gaúchos. Por isso, se a hipótese do
realinhamento se confirmar, o debate sobre o populismo ressurgirá das
camadas pré?sal anteriores a 1964, em que parecia destinado a dormir para
todo o sempre.

Essa tendência existe: vejam esse editorial da Carta Capital sobre discurso
do Lula elogiando
Vargas<http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5969>.
Resta saber se isso é Lula se rendendo ao Varguismo ou Lula reinterpretando
o Varguismo para dentro do discurso petista. No primeiro caso o PT passa a
ser só corrente de transmissão de Lula, no segundo o Lulismo, o mito
político Lula, abre caminho para uma expansão do voto no PT. Não sabemos
ainda para que lado isso vai.

Mas isso nos traz à última, e mais importante, dimensão do problema: o risco
de despolitização, abordado pelo Giannotti em artigo do Estadão de domingo
passado. Embora esse Lula tenha dado uma série de coisas aos mais pobres,
não lhes deu poder. Os mais pobres não estão mais organizados depois do
governo Lula.

Isso é importante, porque, a princípio, o deslocamento do voto da esquerda
para os mais pobres era o objetivo da esquerda desde o início, e é coerente
com o que se vê ao redor do mundo. Vejam esta citação de Lula em 1990, logo
no começo do artigo do Singer:

A minha briga é sempre esta: atingir o segmento da sociedade que ganha
salário mínimo. Tem uma parcela da sociedade que é ideologicamente contra
nós, e não há porque perder tempo com ela: não adianta tentar convencer um
empresário que é contra o Lula a ficar do lado do trabalhador. Nós temos que
ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam seduzir
pela promessa fácil de casa e comida16.

A questão, naturalmente, é que espera-se que a liderança entre os pobres
seja conquistada através da mobilização política, não de políticas públicas.
Esse bonapartismo lulista correria o risco de ser uma ressureição do
populismo, em que o caudilho paira como “pai dos pobres”, distribui
benesses, mas não lhes dá acesso ao poder, e reprime sua organização.

Bom, em primeiro lugar, essa análise abstrai fácil demais a diferença entre,
como diz o Singer, o retirante e o estancieiro que viram líderes populares.
O retirante virou líder popular através de um longo processo de luta
política altamente sindicalizado, inteiramente “de baixo para cima”. Embora
o PT tivesse bons resultados eleitorais nas áreas mais desenvolvidas (onde,
inclusive, havia um proletariado industrial mais forte), ele organizava os
de baixo.

Ainda é cedo para saber o efeito do lulismo sobre a organização popular.
Pode ser, por exemplo, que o voto no PT siga com atraso a mesma trajetória,
e, com o PT, chegue a cultura de mobilização que, muito antes de FHC, em São
Bernardo, acabou com a “Era Vargas”. Os sinais de indefinição política
observados pela pesquisa, como o número de pessoas que não sabe se definir
no espectro direita/esquerda, pode simplesmente refletir um iminente
realinhamento ideológico.

É desnecessário dizer que esse realinhamento deveria ser um dos principais
focos do PT no Pós-Lula. Mas eu tenho sérias dúvidas a respeito da
possibilidade de sucesso aqui. Porque o PT tem que entender que, em muitos
aspectos ele foi ultrapassado ideologicamente pela população mais pobre, que
está agora à sua frente nos debates. Se o PT resolver ser tucano com os mais
pobres, e achar simplesmente que não tem nada a aprender, o PT não serve
mais pra porra nenhuma.

E o que os “lulistas” têm a ensinar ao PT? Em primeiro lugar, que eles devem
ser prioridade para a política de esquerda, com o que quero dizer: não são
os funcionários públicos a prioridade, não são os estudantes universitários
a prioridade. Os funcionários públicos devem receber exatamente a mesma
atenção reservada aos demais trabalhadores, e, quando seus interesses
contrariarem os do conjunto dos trabalhadores, a escolha tem que ser fácil.
Os estudantes universitários que, por idealismo, quiserem apoiar a esquerda,
serão bem-vindos. Mas ninguém precisa deles como cartório.

Nenhum partido vai ser idiota de alienar os setores que o defendem com mais
vigor, e o PT tem uma forte base no funcionalismo público. Mas é preciso ter
visão, porque a base social do partido não pode se limitar a esses setores
altamente organizados. O PT deve ser o lugar da negociação entre os setores
organizados e desorganizados, deve se mover a passos lentos, mas a direção é
clara: ampliar a base do partido para além dos setores mais organizados,
organizando-os.

O caso mais difícil é o dos trabalhadores sindicalizados que,
indiscutivelmente, ainda são a base da esquerda em toda parte. Pois é
preciso enfrentar a questão da informalidade do trabalho, que, volta e meia,
gera conflitos entre os formalizados e os informalizados. O Mangabeira tinha
um esboço de proposta de desoneramento da folha de pagamento que poderia ser
um bom ponto de partida para esse diálogo.

E, finalmente, o ponto em que os lulistas estão milhas à nossa frente é em
aceitar a política econômica responsável. Não adianta você dar cinquenta
reais por mês de BF para o cara e deixar e inflação transformar em 30 em
três meses. Não adianta aumentar o mínimo em 10% ao ano se você deixar a
inflação ser mais que isso. É preciso dar atenção à reinvindicação de
estabilidade por parte dos mais pobres, inclusive no campo da segurança
pública.

Os muito pobres defendem a estabilidade porque eles são os caras na posição
mais frágil: qualquer sacudida no barco, eles vão pro fundo. O pessoal,
especialmente dentro do PT, que pede uma política com mais emoção, sei lá,
menos careta, antes tem que nos provar que não vai afundar essa galera.

PS: O Chico de Oliveira andou dizendo que o Lulismo é a hegemonia às
avessas: a classe trabalhadora exerce o poder, mas implanta o programa do
capital. Só vi citado, não li no original, mas, a princípio, Navalha de
Ockham: isso seria a glória suprema da hegemonia capitalista, não algo que
exija um novo conceito.

PSTU: citado no artigo do Singer, artigo de célebres blogueiros
brasileiros<http://lmonasterio-en.blogspot.com/2009/05/it-is-economy-companheiro-empirical.html>
!

PSTUdoB: vou deixar para comentar as reportagens sobre os 30 anos do PT na
Folha em outro post.

PSOL: com um sono miserável, não vai dar pra editar muito o post, não. Quem
achar erro, avise.


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FG

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