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Terça-feira, 28 de março de 2006

Reportagem

Somos cúmplices da corrupção


Luiz Antonio Ryff


Não é à toa que o escândalo do mensalão está acabando melancolicamente 
em pizza, ao som do samba atravessado da deputada petista Ângela 
Guadagnin, e sem provocar grandes comoções na sociedade. Uma pesquisa 
inédita revela que o eleitor brasileiro é conivente com a corrupção 
política e que a falta de ética não é um problema apenas da classe 
dirigente: 75% dos brasileiros acreditam que cometeriam um dos atos de 
corrupção listados na pesquisa se estivessem no lugar dos políticos 
denunciados. “Ao imaginar que poderia cometer um desses atos, o eleitor 
provavelmente é tolerante com o político que o fizer”, explica a 
cientista social Sílvia Cervellini, diretora de Atendimento do Ibope 
Opinião, responsável pelo trabalho.

Com o questionador título de “Corrupção na Política: Eleitor Vítima ou 
Cúmplice?”, o estudo foi apresentado no 2º Congresso Brasileiro de 
Pesquisa, realizado em São Paulo na semana passada. Os resultados da 
pesquisa realizada com 2.001 pessoas em janeiro respondem à pergunta. 
Fica claro que a maioria dos eleitores brasileiros tolera algum tipo de 
corrupção por parte de seus representantes ou governantes eleitos.

O estudo revela também que a transgressão de leis para obter benefícios 
materiais pessoais é praxe na sociedade. Essas infrações ocorrem na 
sociedade como um todo. “A pesquisa é provocativa”, admite Sílvia. “É 
importante deixar de demagogia e parar para pensar no que é preciso 
fazer para aumentar a ética no país”.

Cada um se acha melhor do que todos

Há alguns componentes interessantes. Apesar de amplamente disseminada na 
sociedade, a tolerância à corrupção é menor entre as mulheres, os mais 
velhos e os de menor escolaridade. Pessoas da região Norte ou 
Centro-Oeste são mais rígidas (não cometeriam qualquer irregularidade) 
do que as do Sudeste (um pouco mais tolerantes que a média).

A pesquisa listou 13 atos de corrupção política:

1) Escolher familiares ou pessoas conhecidas para cargos de confiança;
2) Mudar de partido em troca de dinheiro ou cargo/emprego para 
familiares/pessoas conhecidas;
3) Contratar, sem licitação, empresas de familiares para prestação de 
serviços públicos;
4) Pagar despesas pessoais não autorizadas (como compras no cartão de 
crédito ou combustível) com dinheiro público;
5) Aproveitar viagens oficiais para lazer próprio e de familiares;
6) Desviar recursos das áreas de saúde e educação para utilizar em 
outras áreas;
7) Aceitar gratificações ou comissões para escolher uma empresa que 
prestará serviços ou venderá produtos ao governo;
8) Usar “caixa 2” em campanhas eleitorais;
9) Superfaturar obras públicas e desviar o dinheiro para a campanha 
eleitoral do político;
10) Superfaturar obras públicas e desviar o dinheiro para o patrimônio 
pessoal/familiar do político;
11) Deputado ou Senador receber dinheiro de empresas privadas para fazer 
e/ou aprovar leis que as beneficiem;
12) O político contratar “funcionários fantasmas”, ou seja, pessoas que 
recebem salários do poder público sem trabalhar e ele ficar com esse 
dinheiro;
13) Trocar o voto a favor do governo por um cargo para familiar ou amigo;

Os entrevistados tinham de avaliar essas ilegalidades, indicando quais 
eram consideradas graves e inaceitáveis. Depois, tinham de analisar cada 
uma, revelando a percepção que têm da incidência da prática desses atos 
ilícitos por três categorias distintas: políticos ou governantes, pelos 
brasileiros e pelo próprio entrevistado.

Em cada caso, eram obrigados a classificar ainda o nível em que os atos 
seriam cometidos. As opções eram três:

1) “Por todos ou pela maioria”, “Sempre ou algumas vezes”;
2) “Por uma minoria” e “Só se não tivesse outro jeito”;
3) “Por nenhum” ou “Não faria de jeito nenhum”.

Quanto mais longe do entrevistado, maior a incidência de percepção de um 
comportamento corrupto. Ou seja, os pesquisados têm uma auto-imagem 
melhor do que têm dos brasileiros em geral. E políticos são vistos de 
forma extremamente negativa. “Mas isso é um fenômeno mundial”, alerta 
Sílvia. “E ocorre em qualquer tema. As pessoas tendem a se ver de forma 
mais positiva. É uma espécie de defesa psicológica”.

Para os entrevistados, 100% dos políticos e governantes cometeriam ao 
menos um dos 13 atos de corrupção. É o mesmo percentual para 
brasileiros. Mas 75% dos entrevistados transgrediriam algum dos 13 itens 
listados como atos de corrupção. Isso significa que apenas um em cada 
quatro brasileiros afirma que não cometeria a ilegalidade.

Tais dados, segundo o estudo, ilustram numericamente a percepção de que 
“todos os políticos brasileiros são corruptos, mas infelizmente também 
parecem indicar que a falta de ética não atinge de forma grave somente a 
classe política brasileira”.

Os entrevistados têm uma reação dúbia à corrupção. Ao mesmo tempo em que 
condenam as irregularidades, reconhecem que cometeriam atos ilícitos se 
tivessem oportunidade. Um exemplo: 78% consideram inaceitável aproveitar 
viagens oficiais para lazer próprio e de familiares. Mas o percentual 
dos que afirmam que não fariam isso é bem menor: apenas 57%.

Em geral, as transgressões ligadas a familiares e amigos são vistas com 
maior condescendência - 43% dos entrevistados não consideram grave 
escolher familiares para cargos de confiança. E quatro em cada dez 
entrevistados fariam isso se pudessem.

“Ao mesmo tempo em que dizem ter vergonha de seus representantes pela 
forma como tratam a coisa pública, alguns admitem que votariam em 
candidatos que lhe oferecessem vantagens pessoais”, diz o estudo. Como 
diria Rochefoucauld, a hipocrisia é uma homenagem que o vício paga à 
virtude.

Ilegalidades cotidianas

Antes de abordar a corrupção política, a pesquisa verificou a incidência 
de práticas de irregularidade no dia-a-dia da população. Era a maneira 
de ligar a ética cotidiana com a do ambiente político. Também foram 
usados 13 itens, e com recorte semelhante à outra parte do trabalho. O 
entrevistado dizia se já cometeu alguma das transgressões listadas, se 
“pessoas conhecidas” tinham praticado as mesmas ilicitudes e se achava 
que “os brasileiros em geral” praticam tais desvios.

As treze ilegalidades são as seguintes:

1) Quando tem oportunidade, tenta dar uma “caixinha” ou “gorjeta” para 
se livrar de uma multa;
2) Sonega impostos;
3) Recebe benefícios do governo, sabendo que não tem direito a eles;
4) Adquire documentos falsos ou falsifica documentos para obter algum 
tipo de vantagem (exemplo: identidade, carteira de motorista, 
carteirinha de estudante, diploma etc);
5) Quando tem uma oportunidade, pede mais de um recibo por um mesmo 
procedimento médico para obter mais reembolso do plano de saúde;
6) Compra produtos que copiam os originais de marcas famosas sabendo que 
são piratas ou falsificados;
7) Quando tem uma oportunidade, faz ligação clandestina ou “gato” de TV 
a cabo, ou seja, aproveita a instalação do vizinho;
8) Quando tem uma oportunidade, faz ligação clandestina ou “gato” de 
água ou luz;
9) Se tem chance, pega ou consome produtos em padarias, supermercados ou 
outros estabelecimentos comerciais sem pagar;
10) Apresenta atestados médicos falsos no trabalho ou na escola;
11) Se tem seguro de carro ou de qualquer outro tipo, quando tem uma 
oportunidade, frauda o seguro;
12) Compra algo sabendo que é roubado;
13) Falsifica atestado de saúde ou apresenta atestado de saúde 
falsificado para conseguir aposentadoria precoce;

Mais uma vez, o entrevistado acha que comete menos irregularidades do 
que as pessoas que lhe são próximas. E tem a visão de que os brasileiros 
em geral (ou seja, o “outro”, que não lhe é tão próximo) são bem mais 
transgressores. Um exemplo: 40% dos entrevistados nunca compraram 
produtos que copiam os originais de marcas famosas, mesmo sabendo que 
são falsificações. Mas eles dizem que apenas 11% dos seus conhecidos 
tiveram o mesmo comportamento. E acreditam que míseros 2% dos 
brasileiros nunca fizeram algo parecido.

Antes de iniciar o trabalho, havia uma suposição entre os pesquisadores 
de que a maioria dos brasileiros tinha algum tipo de desvio ético e 
tolerava a corrupção. O estudo confirmou isso. Embora se considere 
razoavelmente honesto, o eleitor pratica ou aceita uma diversidade de 
transgressões à lei no seu cotidiano. E é claro que, quanto mais 
ilegalidades o eleitor cometer ou aceitar no seu dia-a-dia, mais 
tolerante ele tende a ser com os atos de corrupção no Congresso.

Mídia paternaliza eleitores

Por isso, episódios como a dancinha da deputada petista Ângela 
Guadaligni no plenário da Câmara, comemorando a absolvição de um colega 
envolvido no esquema do mensalão, não devem chocar tanto o eleitor comum 
quanto chocou a imprensa.

Aliás, é curioso que a mídia, que cumpre um papel de mediador entre a 
classe dirigente e a sociedade, demonstre tanta indignação com casos de 
corrupção se, como mostra a pesquisa, os dois extremos dessa relação não 
lhe dão tanta importância.

Sílvia diz que a opinião pública aceita, e até espera, esse discurso por 
parte da mídia. Mas o comportamento é bem diferente. Ela acha que, 
embora a ética seja um valor absoluto, a maioria não vê dessa forma. As 
pessoas enxergam com gradações, em que é possível ser mais ou menos ético.

“Há uma tendência da mídia em paternalizar o eleitor”, diz Sílvia. Como 
se o cidadão fosse uma vítima da falta de ética de suas elites. Mas o 
estudo rejeita completamente essa vitimização do eleitor. Ele é cúmplice 
e se identifica com boa parte das transgressões cometidas.

Mesmo que a pesquisa trace um retrato bastante duro da classe política 
na ótica do eleitor. Entre os entrevistados (uma amostra nacional 
representativa do eleitorado):

82% acreditam que a classe política é desonesta;
73% acham que é preguiçosa;
87% acreditam que agem pensando somente em benefício próprio;
28% crêem que, após as CPIs, o Brasil será um país mais honesto (56% 
acham que continuará a mesma coisa).

Mas isso não deve fazer muita diferença na próxima eleição. Após a 
pesquisa, e com a experiência acumulada como diretora de um dos maiores 
institutos de opinião do país, Sílvia acredita que o escândalo do 
mensalão não afetará a forma de a população votar. A tendência é de que 
não ocorra uma grande renovação política. E a questão ética não será, 
naturalmente, o tema principal da campanha. “Pode até ser, mas será 
preciso um esforço muito grande de quem quiser usar isso.” No rescaldo 
do escândalo, ela avalia que o “timing” para fazer alguma mudança já 
passou. “A impressão é de que ficou o dito pelo não dito.”

Entre os motivos para isso, ela lista alguns. Acha que as 
responsabilidades ficaram difusas. Quem tinha uma prática diferente não 
mostrou isso. E, desta vez, a figura do presidente não ficou no centro 
da polêmica, como ocorreu com Fernando Collor. Além disso, ainda há uma 
identificação muito grande do eleitorado com Lula. “Certamente, seria 
mais difícil de perdoar outro político”, acredita Silvia.

Infelizmente, entre os mandatos dos dois presidentes, aumentou a 
desilusão com os rumos políticos. A esperança de que o Brasil se torne 
um país mais honesto diminuiu. Em 1992, no auge do processo contra 
Collor, 44% achavam que sairíamos melhor. Hoje, a despeito das inúmeras 
CPIs, esse índice é de 28%.

Até por isso, Silvia admite que é possível haver um aumento do voto nulo 
entre os eleitores de escolaridade mais alta e os formadores de opinião, 
até mesmo nas camadas mais populares. Seria um voto de protesto com a 
desilusão causada pelo comportamento do PT, que era visto por muitos 
como o último bastião de honestidade. “Afinal, se todos são iguais 
mesmo, o que fazer?”, questiona-se o eleitor.

Mas ela acha que o eleitor será pragmático. As razões do voto serão 
ditadas pelos benefícios que cada um poderá receber. E a visão do que é 
melhor para o país dependerá da ótica que cada um tem do Brasil e será 
filtrada pelos próprios interesses. “Seria utópico achar que as pessoas 
votam pensando no interesse coletivo.”



Retirado de
http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=54&textCode=21606&date=currentDate


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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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