*02-05-2006*
Sérgio Abranches
*PROBLEMA COM A BOLÍVIA É TÍPICO DA ADMINSTRAÇÃO LULA*
Se o governo não mudar ação diplomática, não haverá solução razoável na
Bolívia.
Estava claro que Evo Morales iria estatizar o petróleo e o gás bolivianos. O
governo brasileiro foi, inclusive, avisado disso, mais de uma vez. Tampouco
soube ler os sinais evidentes nas atitudes do novo presidente boliviano e de
seus assessores na área energética.
A Petrobras trocou a análise de risco pela análise ideológica.. Qualquer
manual de introdução ao risco político ensinaria que a estatização tinha
alta probabilidade e indicaria as medidas elementares de gestão de risco a
serem tomadas. Ao contrário, o presidente da Petrobras preferiu anunciar uma
escalada no investimento. Atitude temerária, que desconsiderou o risco e
presumiu que a Petrobras não seria confundida com as grandes petroleiras
mundiais, acusadas de rapina na Bolívia. Imaginou, ingenuamente, que por ser
estatal no Brasil, contaria, automaticamente com a boa vontade da esquerda
boliviana. É claro que ela é apenas grande e estrangeira para os
nacionalistas bolivianos. Quem controla seu capital não é exatamente uma
variável chave para eles.
O governo acreditou que controlaria Morales. Até hoje ainda não entendeu
qual a personalidade política do ex-líder cocalero. Evo Morales não é
esquerda. Ele nasce de um movimento social muito específico, com identidade
própria, de alta carga étnica. Seus interesses não têm nenhuma conexão com o
meio de onde Lula saiu, de trabalhadores metalúrgicos de elite, localizados
no maior e mais poderoso pólo industrial da América do Sul. Morales vem da
periferia de seu próprio país, que é periferia na América Latina e no mundo.
Não é irmão, nem companheiro dos petistas que controlam o governo
brasileiro. Tampouco pode ser considerado uma liderança de esquerda. É um
tipo novo de nacional-populismo que, ao contrário de se ancorar nos setores
populares urbanos, como fizeram o peronismo e o varguismo, firma-se na
associação direta com grupos étnicos despossuídos. Estes constituem um outro
tipo de "descamisados", com uma agenda muito diferente dos pobres urbanos.
Chávez, também, tem um componente desse novo populismo, mas tem uma conexão
do tipo "tenentista" que Vargas também tinha, com setores da média
oficialidade militar, que alçou ao topo da hierarquia. Mas essas diferenças
definem distintas espécies da família do nacional-populismo, da qual faz
parte também Ollanta Humala, do Peru.
A diplomacia brasileira trocou os manuais da profissão por receitas
ideológicas. Está entre o nacionalismo ressentido do grupo diplomático
liderado por Samuel Pinheiro Guimarães e Celso Amorim e o nacionalismo
socialista atrasado de Marco Aurélio Garcia. O assessor do presidente Lula
para assuntos externos é, na verdade, mais influente que o próprio ministro
Amorim, na conformação do pensamento e da ação diplomáticas hoje. Ele passou
todo o tempo defendendo, justificando e explicando as atitudes de Morales,
até elas explodirem no caixa da Petrobrás e na sala presidencial. Esteve por
trás da equivocada aliança com Chávez, da qual depois Lula se viu forçado a
afastar, pelos óbvios prejuízos aos interesses brasileiros. E dessas
atitudes em relação a Evo Morales que, não fosse a crença ideológica que as
alimentam, poderiam ser atribuídas à mais pueril ingenuidade analítica.
Agora, a questão com a Bolívia virou um problema econômico, em cima de um
impasse diplomático criado pelos erros do Itamaraty, da Petrobras e do
Planalto. O governo passou a pilotar uma crise política internacional e um
considerável problema econômico, que pode gerar uma crise de abastecimento
de gás em São Paulo e no Sul do país, com reflexos negativos em toda a
economia nacional. A Petrobras pagará o preço que não será pequeno por
ter desconsiderado o risco político óbvio e evidente, em sua estratégia na
Bolívia, desde o início do processo político que redundou na eleição de Evo
Morales.
Tudo típico da administração Lula que também é nacional-populista em todas
as suas dimensões, menos na macroeconômica.
Publicado em 02/05/2006.
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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.
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