Partica de todos governos
Lembram
da Guerra das MALVINAS que o governo militar argentinho procurava uma
sobrevida
De: [email protected]
[mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de ccarloss
Enviada em: Monday, May 15, 2006 10:01
PM
Para: [email protected]
Assunto: Re: [gl-L] Mario Sergio Conti -
Estética: escândalos e affaires
É uma prática comum o próprio
governo gerar um escândalo menor para desviar a atenção ou abafar os que
realmente interessam. Principalmente no
Brasil.
----- Original Message -----
Sent: Monday, May
15, 2006 5:55 AM
Subject: [gl-L]
Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e
affaires
Oi
Parece que vivemos disso, né?
É um
atrás do outro...
--
Beijins
Fa
----------------------------------------------------------------
"Quero
aproveitar a oportunidade para agradecer à Antártica as
"braminhas"
que eles nos mandaram para a comemoração da nossa
vitória." - Vicente
Matheus (Eterno presidente do
Corinthians)
----------------------------------------------------------------
Segunda-feira,
15 de maio de 2006
Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e
affaires
Um escândalo político gera toneladas de reportagens e editoriais,
ironias e indignação, e o fim é sempre o mesmo: não dá em nada. Mesmo os
escândalos, por assim dizer, clássicos, os que têm prólogo, enredo
claro, personagens bem definidos, choque e desenlace, não dão em nada. O
de Collor, por exemplo, levou à sua destituição. Num sentido mais amplo,
no entanto, também ele não deu em nada. Ao contrário do que se dizia, o
Brasil não foi passado a limpo. O país permaneceu sujo, se sujou ainda
mais. A corrupção continuou não só a existir como se fortificou. O
escândalo dos anões
do orçamento (alguém lembra?) provocou a cassação de
uma dúzia de de
parlamentares. Agora, com o escândalo das sanguessugas,
seria preciso cassar
um terço da Câmara dos Deputados. Ninguém tem
vontade e paciência para
tanto.
Os escândalos, pois, devem ser apreciados pela sua lógica, pela
sua
forma. Criticá-los é comentário estético. É avaliar desempenhos,
consistência interna, seus tênues laços com a vida social. Os escândalos
atraem atenção não porque se refiram à política. Sua dimensão verdadeira
é a da estética. Eles têm narrativa. Eles têm dramas, mistérios,
suspense, personagens em conflito, golpes de cena. Parece que se vai
descobrir algo importantíssimo. No fim, não dá em nada. Vida que segue.
Mas, enquanto durou, foi divertido.
***
Esse escândalo de
agora, o do mensalão, que já dura quase um ano, no
início tinha a forma de
um programa de tele-realidade. Com voyerismo,
contemplava-se os personagens,
à espera da eliminação paulatina de
todos. O que restasse, seria o vencedor.
A ser eliminado no escândalo
seguinte.
A forma tele-realidade se
esvaneceu porque, contra todas as evidências e
torcidas, os personagens não
foram eliminados. Os deputados mensaleiros,
ao contrário, foram absolvidos
em plenário. O eixo da trama se perdeu em
várias subtramas (dólares de Cuba,
a volta do caso Celso Daniel, a
roubalheira em Ribeirão Preto, as ligações
da Telemar com o filho do
presidente, a disputa dos Fundos de Pensão
com Daniel
Dantas etc.), que
deram origem a outras subtramas, que por sua vez
alimentaram mais
desdobramaentos (a conexão angolana, a Casa do Lobby, a
quebra do sigilo
do caseiro, a queda de Palocci, o envolvimento do ministro
da Justiça na
patranha). Aí vieram o guarda-roupa de Lu Alckmin, as ONGs
turbinadas de
Garotinho, a sua greve de fome, as Sanguessugas, o chilique de
Silvinho
Land Rover. Para piorar, Evo
Morales nacionalizou o gás. Embolou tudo. O
escândalo perdeu sua forma, se
bem que comporte epifenômenos
interessantes. O meu preferido foi a vaia que
José Dirceu, ex-líder
estudantil, levou de estudantes da PUC de
Minas.
Não é ruim que um escândalo perca sua forma, que descambe para a
chanchada aloprada. É um passo necessário para que ele acabe, na
prática, mas continue a ter uma existência retórica. Nessa categoria se
enquadram os dois maiores escândalos da adminsitração de Fernando
Henrique Cardoso, o das privatizações e o da compra de votos para a
emenda da reeleição. A existência retórica também um dia acabará. Hoje
ninguém lembra mais do maior escândalo do governo de José Sarney, o da
Ferrovia Norte-Sul.
***
O que aqui se chama de escândalo, na
França recebe o nome de affaire.
A mecânica é a mesma. O que muda é a sua
duração, o seu encadeamento, os
seus ritmos. Lá, escândalo bom é o que dura
mais de uma década, pelo
menos. O melhor de todos é laffaire des emplois
fictifs, que
completará daqui a pouco trinta anos. Ele é do tempo em que o
presidente
Jacques Chirac era prefeito de Paris. Não acaba nunca.
O
que está em cartaz no momento é laffaire Clearstream, que foi
alçado à
pretigiosa categoria de escândalo de Estado. Na verdade, ele
é a
transmutação de laffaire des fragates de Taiwan, que
começou há
quinze anos. O seu estopim foi a encomenda, com propinas e
corrupção, de
fragatas de Taiwan, e na sua atual encarnação envolve uma
sociedade
bancária do Principado de Luxemburgo, a Clearstream, onde teriam
conta
figurões da República. O caso, como se vê, é infernalmente complicado.
Ele
envolve governo, juízes, espionagem, parlamentares, banqueiros. Tem
até
denunciantes anônimos, que os franceses chamam de corvos.
Mas,
como convém a um
bom escândalo, subitamente ele ficou claríssimo.
Ou melhor, um detalhe
significativo ficou evidente: o presidente Jacques
Chirac e seu
primeiro-ministro, Dominique de Villepin, disseram a um
espião, o general
Philippe Rondot, que ele deveria descobrir que o
ministro Nicolas Sarkozy
tinha uma conta, secreta e bem fornida, na
Clearstream. Ou seja, manipularam
um serviço do Estado para prejudicar
um adversário político. Adversário que
integra o governo.
Esse é o cerne. Em torno dele se multiplicam figuras
impagáveis, a
começar pelo general Rondot. Ele é um espião maniáco pela
palavra
escrita. Ele teve a pachorra de anotar tudo o que Chirac e Villepin
lhe
diziam em
reuniões secretas. O desastre se produziu porque a Justiça
determinou que a polícia apreendesse seus papéis, computadores e
documentos. Apesar do processo correr em sigilo de Justiça, as
anotações
do general acabaram nas páginas do Le Monde. Mais uma vez,
como na
crise do Contrato Primeiro Emprego, se fala na queda certa de Villepin,
na renúncia de Chirac, na antecipação das eleições presidenciais do ano
que vem.
Um comentarista, Patrick Jarreau, notou que o affaire
Clearstream
lembra os romances de Alexandre Dumas. Há o rei (Chirac),
nobres que
disputam a sua sucessão (Villepin e Sarkozy), espiões, tipos
misteriosos
(os corvos), heróis que viram vilões (o juiz de instrução, um
ferrabrás
de escândalos anteriores, foi pego em atitude suspeita), vilões
que
viram heróis (um repórter doido, com delírio persecutório, que descobriu
coisas importantes), corrupção, golpes baixos etc. Um romance
rocambolesco, em suma. Que no plano estético mostraria a persistência do
antigo regime na política republicana. É bem achado.
***
Fica
a recomendação, portanto. Não percam o affaire Clearstream. No
momento,
ele é bem mais emocionante que o do mensalão. Tomara que
mantenha o pique
até a Copa.
Retirado de
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divirta-se.
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