Oi Carlos
O pior de tudo é que tem tanta gente envolvida, tanta gente que se
protege, que parece não haver saída.
Nem a da violência.
Afinal teríamos que matar quantos para promover uma limpeza?
80% da população brasileira?
Temos mesmo que viver num país corrupto até os ossos?
Isso não vai explodir em algum momento?
--
Beijins
Fa
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"Meu computador está parecendo uma tartaruga com cãibra."
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ccarloss escreveu:
>
> Fa,
>
> Eu vou a Belém levar as msgs para você.
> E não precisa me receber de camiseta. Ela fica pra depois.
>
> Gabeira: Tudo o que ele disse é, infelizmente, verdade.
> O grande equívoco de alguns esquizóides de direita é misturar os que
> combatiam a ditadura por ideologia e por idealismo, com os
> aproveitadores que vieram depois.
> Havia a esquerda festiva sim, mas era pensante. Ficava no Garota de
> Ipanema ou no Amarelinho, porém com propostas libertárias e não de tomar
> o poder para dele usufruir e locupletar-se. A luta era por liberdade.
> Nada tem a ver com o PT, surgido muito depois do período mais crítico,
> com o Lula, vagabundo esperto, pinçado num movimento sindical e elevado
> a líder por espertalhões que
> ao mesmo tempo faziam o jogo da ditadura e posavam de oposição. O ideal
> daquela juventude nada tinha com o Zé Dirceu, com o Genoíno, com o
> Mercadante, manipuladores
> inescrupulosos que mostraram a verdadeira cara ao assumir o poder. E ao
> conseguirem o intento, aliaram-se aos que sempre estiveram bajulando o
> governo, fosse ele qual fosse. E oficializaram a roubalheira, tão antiga
> quanto a república mas não tão despudorada e safardana como é agora.
> O fato de eu ter participado de movimentos sérios contra o regime
> ditatorial, não impedia que eu tivesse amigos militares e que nunca
> compactuaram com os métodos empregados. Alguns já se foram e outros
> conservo até hoje
> para minha alegria.
> Com o Gabeira nunca tive muita proximidade naquela época. Mas depois da
> anistia, numa palestra que ele fazia na Faculdade de Filosofia Santa
> Dorotéia, em Friburgo, tivemos um atrito sério e quase quem sai preso
> fui eu, por vê-lo aproximar-se daqueles que pura e simplesmente
> aproveitaram-se e se estavam aproveitando mais ainda da abertura
> política apara atender os seus interesses.
> O resultado aí está.
> Já de algum tempo o Fernando começou a enxergar isso e hoje faz o
> lamento que fez por ver ir para o esgoto político que comanda o país os
> ideais que tínhamos de uma sociedade mais justa e equilibrada.
> Creia, Fa, não se pode misturar, nem de um lado e nem de outro, todos
> num mesmo balaio.
> Temos um Congresso que nos envergonha e envergonha os poucos que se pode
> excluir dele como pessoas de bem.
> Sobre o executivo, desnecessário falar. E o judiciário é também , em sua
> maioria, uma corja a serviço da ilegalidade e da impunidade.
> Por tudo isso o Gabeira reviu posições e desabafou. E o fez como um
> desafio a quem quer que seja a provar que não seja verdade tudo o que disse.
> E conclui de maneira irrefutável quando diz que o único modo de mudarmos
> o triste quadro que estamos vivendo é continuar o combate.
>
> Um beijão.
>
> Carlos Antônio.
>
> ----- Original Message -----
> *From:* Fatima Conti <mailto:[EMAIL PROTECTED]>
> *To:* goldenlist-L <mailto:[email protected]>
> *Sent:* Saturday, May 27, 2006 6:40 AM
> *Subject:* [gl-L] Fernando Gabeira - Os bandidos na mesa do café
>
>
> oi
>
> Ai, ai, fiz uma besteira aqui e perdi quase todas as msgs de ontem e
> hoje de madruga
>
> Se não respondi algo importsnte me mandem de novo, por favor.
>
> Enquanto isso, você viu as considerações de Gabeira sobre o "mundo ruindo"?
>
> --
> Beijins
> Fa
> ----------------------------------------------------------------
> "Quando os pais deixam de ser quadrados, a filha fica redonda."
> ----------------------------------------------------------------
>
>
> 20 de maio de 2006
>
> Fernando Gabeira - Os bandidos na mesa do café
>
>
> Depois de uma hora de braçadas tranqüilas, saio da piscina e subo numa
> arquibancada de madeira para tirar a toalha da mochila. Olho para uma
> edificação baixa de tijolos vermelhos, com uma placa: alameda Paissandu.
> Diante dela, mesas brancas, cadeiras. Numa delas dorme o gato Amaral. O
> sacana do Amaral, como o chamamos: gordo, castrado, sonolento, ainda
> assim faz das suas, encostando-se nas gatas, irritando a torcida do
> Flamengo, "precisamos acabar com esses gatos no clube".
>
> Nesses momentos de contemplação, nuvens desenhando anéis em torno da
> estátua do Cristo, sinto uma dor por ter dedicado tantos anos à
> política, com tão escassos resultados. Invade-me uma vontade de mudar de
> vida, fazer como o narrador do romance "O Enigma da Chegada" (de V.S.
> Naipaul), que se retira para o interior e passa apenas a observar e
> escrever o que está na sua frente.
>
> Segunda-feira, auge da crise de violência em São Paulo, parti para
> Brasília para fazer um discurso de solidariedade e propostas, pensado
> durante o fim de semana sangrento. Não pude realizá-lo até o fim, embora
> o plenário estivesse vazio. Minha palavra foi cortada por um presidente
> ocasional. Ele vem do Norte toda segunda-feira e assume a presidência
> porque não há ninguém para abrir as sessões. Dá a impressão aos seus
> eleitores de que é importante, embora já tenha sua prisão preventiva
> decretada e inúmeras processos. Limitei-me a dizer: "Vossa Excelência é
> um bandidaço", embora soubesse que até os insultos seriam usados por ele
> junto aos eleitores como sinal de importância. A um jornal de Brasília,
> declarou que aqueles que assistem à TV no seu Estado pensam que é o
> presidente da Câmara.
>
> Ele é desse numeroso e sórdido grupo com que, depois de tantos anos de
> lutas e sonhos, tenho de conviver no café da Câmara: contas fantasmas,
> entidades fantasmas, ambulâncias superfaturadas, desvios de verbas no
> hospital do câncer. A própria luz do Planalto atravessando as vidraças e
> banhando os flocos de poeira que flutuam nos torna também fantasmas, e
> você olha a mancha de iogurte na mesa do café, duvida se aquilo não é um
> ectoplasma desses putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das
> secretárias.
>
> Marcola, o líder do PCC, já leu mais livros do que todos eles juntos; os
> da minha geração, que tiveram uma base político-militar -não no sentido
> de terem feito ações armadas, mas por terem curiosidade em relação às
> leis da guerra-, esses praticamente saíram de cena.
>
> Fiquei surpreso ao perguntar por um grande nome do Partido Verde alemão,
> que surgiu nos anos 60, e soube que, ao deixar o governo, está quase
> aposentado. Lembrei de tantos outros que se voltaram para suas
> especialidades acadêmicas, dos que morreram, dos que simplesmente deram
> uma banana para a idéia de transformar o mundo.
>
> De uma certa maneira, foram poupados dessa humilhação que sinto todos os
> dias ao ver que os bandidos estão triunfando na vida pública, que não só
> tomaram conta de tudo mas também tomam café ao seu lado, riem para você,
> falam sobre o tempo e reclamam da dureza da vida política.
>
> É uma ilusão pensar que o mundo do crime ignora essas variáveis. Marcola
> já esteve aqui depondo e, nos poucos minutos que passei pela sala,
> olhou-me com muita freqüência, como se quisesse dizer: com esse tipo de
> gente me interrogando jamais sairá outra coisa, além do desprezo recíproco.
>
> O mundo que está ruindo aos meus pés é muito desconcertante, pois leva
> consigo toda uma forma de pensar a política que nos reduz ao ridículo de
> tentar trazer a guerra urbana de São Paulo para o parlamento e ser
> interrompido por um idiota que está posando de presidente para seus
> eleitores do Norte.
>
> O mundo que está ruindo nos impõe a humilhação de chamar de Congresso
> brasileiro um lugar onde os dirigentes da mesa estão mergulhados num
> escândalo e nem sequer pedem licença para serem investigados, um lugar
> onde o corregedor, num ano eleitoral, foi o primeiro a ser multado pela
> Justiça por fazer propaganda fora de tempo.
>
> Numa semana tão importante, talvez não devesse enfatizar minhas
> frustrações. Acontece que não estou sendo humilhado sozinho, nem o está
> a pequena parcela de deputados honestos.
>
> Enquanto não se desvendar o elo entre as quadrilhas que queimam ônibus,
> metralham policiais, fuzilam inocentes e os bandidos que nos cercam,
> poucos vão sentir a humilhação que sinto. E quando falo de vínculo não
> me refiro a advogados, emissários ou mesmo um ou outro deputado que
> possa estar ligado ao crime organizado. Refiro-me ao plano simbólico tão
> bem expresso na célebre frase carioca: está tudo dominado.
>
> O tudo dominado revela-se não apenas em números mas também em encenações
> falsas, pequenas omissões, um rígido controle da agenda para que venha à
> tona o debate dos verdadeiros problemas do país.
>
> Aqui as matracas, os "treisoitões", as bananas de dinamite
> transfiguram-se em questões de ordem, permita-me um aparte, regimentos
> internos. Aqui e ali, no Planalto, onde instalamos um governo destinado
> precisamente a mudar tudo isso e que, no fim das contas, apenas
> exacerbou o processo, degradando-se e nos degradando.
>
> Só penso em aposentadoria quando vejo o Amaral, gordo, castrado e
> sacana: divagações à beira da piscina. Não rolei tanto barranco para
> entregar o ouro aos bandidos. Se há uma boa maneira de viver os últimos
> dias, essa maneira ainda é o combate.
>
>
> Retirado de
> http://www.gabeira.com.br/blog/blog.asp?id=2235
>
---
Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.
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