Apresso-me a explicar, antes que alguém
me acuse de fazer mero exercício futurológico irresponsável ou engajado, por
que razões sustento que Lula não é mais favorito, como era há dois anos, antes
do escândalo do mensalão, e há quatro meses, depois de ensaiar uma efêmera
recuperação. Aqui vão 20 razões para entender por que Lula deve perder a
eleição:
1. Hoje Lula vaga pelo sertão sem água
no cantil - é vitalmente dependente dos seus salvadores índices do Nordeste.
Segundo a última pesquisa Ibope, se considerarmos, por hipótese, apenas as
outras quatro regiões (sul, sudeste, norte e centro-oeste), Lula ganharia
apertado no primeiro turno por 37% a 32%, mas num segundo turno Alckmin
venceria por 46% a 41%. No Nordeste, Lula desafoga por 69% a 22%, mas é bom
lembrar que o nordeste representa apenas 27% dos votos brasileiros (São Paulo
sozinho representa mais de 22%).
2. A mesma pesquisa Ibope aponta que,
no segundo turno, Alckmin vence no sul (46% a 40%) e no sudeste (46% a 40%) e
empata no conjunto norte/centro-oeste (46% a 44% para Lula, com diferença
dentro da margem de erro). Por aí se vê que as quatro regiões parecem pender a
favor de Alckmin antes mesmo de começar o horário eleitoral gratuito, trunfo
maior do tucano, e num momento em que Alckmin ainda tem razoável índice de
desconhecimento.
3. Depender do Nordeste para ganhar uma
eleição presidencial é um risco enorme. Lá está o eleitorado mais
influenciável e mutante, em razão do baixo índice cultural e das más condições
sociais. Além de acostumado a absorver influências sulinas, o eleitor
nordestino é, por exemplo, o que mais muda o voto na última hora para sufragar
o candidato que, segundo as pesquisas, vai ganhar a eleição (lá, o índice
médio chega a 10%; nas outras regiões não passa de 3%).
4. Alckmin está mirando fixo no eleitor
nordestino. Desde que deixou o governo paulista, em 31 de março, já foi 14
vezes ao Nordeste; de lá são os senadores Tasso Jereissati (CE, presidente do
PSDB), Sérgio Guerra (PE, coordenador de campanha) e José Jorge (PE, vice).
Esta semana o ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que apóia Alckmin,
me revelou que está notando os primeiros sinais de quebra de resistência de
políticos do interior a fazerem campanha para Alckmin. Não faziam antes porque
achavam que ele não ganharia. Isso pode significar que Alckmin começa a
penetrar nos grotões.
5. De fato, a última pesquisa Ibope
mostra que Alckmin cresceu 14 pontos porcentuais no norte/centro-oeste, 4
pontos no Nordeste de Lula, 8 pontos no sul, 11 pontos nos municípios até 20
mil habitantes e 8 pontos no interior. Todos esses grupamentos -
principalmente as cidades com menos de 20 mil habitantes e o interiorzão -
englobam grotões. Já Lula ficou estável em todos eles e ainda caiu forte no
Sul (de 42% para 37%).
6. A aposta de Lula no Bolsa Família -
um contingente que não passou da 4ª série do ensino fundamental e cuja maior
concentração está no Nordeste - se explica pela mudança substancial do perfil
de voto recebido por ele ao longo das quatro eleições presidenciais a que
concorreu. Segundo estudo do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop), da
Unicamp, 67% dos que votaram em Lula em 1989 eram analfabetos ou tinham só o
1º grau; em 1994 esse número caiu para 59,4%; em 1998 se manteve estável em
59,9%; e em 2002 voltou a cair para 52,8%.
7. Está claro que, ao longo das
eleições, Lula perdeu uma parte importante do seu eleitorado preferencial. Em
1989, 2/3 dos seus votos estavam na classe menos instruída; 13 anos depois,
esse segmento contribuía apenas com a metade dos votos totais dele e a
composição do voto lulista foi engordada pela adesão da classe média. Agora,
ao perder segmentos importantes da classe média por conta dos escândalos de
corrupção, o presidente correu a compensar com o resgate dos votos perdidos
entre os pobres.
8. Na distribuição dos votos por
regiões, a situação é parecida. Em 1989, metade (49,4%) do eleitorado de Lula
estava no sudeste; em 1994, esse contingente reduziu-se a 41,8%; em 1998,
cresceu a 44,5%; em 2002 voltou a cair a 42,4%. Agora, em abril, as pesquisas
apontaram que esse índice estava em 33%. A presença do Nordeste na composição
do voto de Lula, que era de 31% em 1989, caiu para 28% em 1994, para 26,5% em
1998 e se alçou a 27,3% em 2002. Agora deu um salto espetacular para 41,3%.
Essa é a chave para entender a necessidade de Lula reconquistar as antigas
fontes do voto fácil: o voto dele está migrando fortemente do Sudeste para o
Nordeste; e o voto dos mais pobres volta a crescer na composição do voto
lulista.
9. Traduzindo em miúdos: a composição e
a distribuição dos votos potenciais de Lula são, neste momento, muito pouco
homogêneos. E eleições têm algumas regras sagradas. Da mesma forma que ninguém
(com exceção de Juscelino Kubitschek) se elegeu presidente sem vencer em São
Paulo (e Lula está perdendo), ninguém chega ao Planalto sem ostentar uma
distribuição de voto homogênea. Tanto mais grave se essa votação heterogênea
tiver prevalência de votos em regiões periféricas, influenciáveis pelos
grandes centros. Por uma ótica antropológica, é muito mais crível esperar que
o voto do sudeste influencie o voto do nordeste do que vice-versa.
10. Lula terá sérios problemas quando
começar a propaganda eleitoral gratuita dos candidatos. O primeiro deles é que
terá 7 minutos e 21 segundos diários contra 10 minutos e 22 segundos de
Alckmin. Considerando que os estrategistas tucanos - a GW - costumam exibir
alta eficiência na feitura dos programas políticos, é de esperar que o
programa de Alckmin tire ótimo proveito desse tempo mais amplo.
11. Lula terá a inevitabilidade de
enfrentar, na campanha de TV e rádio, o recrudescimento do tema da corrupção.
Os adversários certamente vão relembrar as tristes passagens das CPIs, as
denúncias chocantes, o cheque em branco, as explicações enroladíssimas, a
depuração dos infiéis na cúpula do PT, o escândalo tangenciando o Palácio do
Planalto. Dificilmente Lula escapará à sina de ter sua agenda comandada pelos
oponentes e será obrigado a perder precioso tempo tentando explicações
inúteis. E quanto mais ele falar nos escândalos, mais eles avivarão a memória
e suscitarão um posicionamento contrário do eleitor.
12. Mas não é só. Entre os principais
candidatos, além de Alckmin, Lula terá dois rivais dispostos a extrair-lhe o
fígado pela boca - os senadores Heloísa Helena, do PSOL, e Cristovam Buarque,
do PDT. E o mais complicado é que os dois vieram do próprio PT e, por isso,
têm credibilidade nos ataques e críticas.
13. Para recuperar índices razoáveis de
intenção de voto e da avaliação do governo, Lula gastou fortunas, no primeiro
semestre, numa das mais rechonchudas mídias oficiais já vistas no país. Mas
depois de apenas um mês sem propaganda, tanto sua intenção de voto quanto a
avaliação do governo começaram a cair. Essa dupla queda combinada é um péssimo
sinal - mostra que a ascensão anterior não teve lá grande consistência.
14. Do outro lado, Alckmin conseguiu
sair de um patamar baixo de intenção de voto sem precisar de muita exposição
pública. Ele cresceu em todas as regiões apenas com os programas do PSDB e
comerciais partidários distribuídos ao longo de junho, além da mídia editorial
- que ajuda pouco aos candidatos. Há quem diga que essa mínima visibilidade já
o entronizou no papel de anti-Lula. Se for verdade, se ele de fato conseguir
encarnar esse personagem, por si só, e se o personagem estiver sendo esperado
com a expectativa de um messias, como se diz, vai ser muito difícil Lula
ganhar.
15. Sem propaganda, em São Paulo,
estado que governou por 5 anos, Alckmin ganha de Lula por uma diferença quase
igual à de Lula no país inteiro. No país, segundo a última pesquisa Ibope,
Lula venceria no primeiro turno por 44% a 27%; Alckmin venceria em São Paulo
por 43% a 33%. No segundo turno, Lula venceria no país por 48% a 39% e o
tucano ganharia em São Paulo por 51% a 37%. A comparação é abstrata, dirão
contrariados lulistas, porque a eleição que vale é a nacional. Sem dúvida, mas
o fato de vencer bem em São Paulo, estado que governou, dá a Alckmin o direito
de usar ostensivamente no resto do país o argumento de que quem o conhece,
vota majoritariamente nele.
16. E não é só o argumento. A
quantidade de obras visíveis que Alckmin fez em São Paulo e vai mostrar na
televisão é impressionante. Lula vive falando em comparar seu governo com o de
Fernando Henrique; pois bem, o governo Lula será comparado com o governo
Alckmin. E, pelo conjunto da obra, o petista perde feio, vocês, de outros
estados, verão na televisão, a partir de 15 de agosto.
17. O estilo "pai dos pobres" de Lula,
o jeito informal e meio esculhambado, os erros de português, as gafes, a mania
de falar demais, no melhor estilo Fidel (ou seria Chávez?), a insistência de
palpitar em tudo (nem sempre de forma adequada), tudo isso já cansou. As
pessoas ainda não se deram conta disso porque não se constituiu, de forma
física e visível, a alternativa a Lula, a encarnação do anti-Lula. Quando o
eleitor se der conta - como parece que começou a dar-se - periga virar
hemorragia.
18. Com aquele seu jeito picolé de
chuchu, Alckmin parece anódino, sem sabor, sem carisma - mas funciona. Em 8
eleições, ganhou 7 e só perdeu 1, no olho mecânico. Ele tem a fórmula da
vitória e ela passa por operar uma campanha suave, educada, didática. Repete
pacientemente os argumentos. Explica mil vezes, de forma simples. No final, as
pessoas apreendem.
19. Alckmin vai usufruir, na campanha,
da credibilidade natural que têm os médicos, personagens mais importante para
as famílias, principalmente no interior. Para as pessoas, sua palavra funciona
como se fosse uma lei, uma variável que pode manter a vida ou redundar na
morte. Todos param para ouvir o que o médico tem a falar. Além disso, Alckmin
tem um arco de conhecimento técnico muito maior que o de Lula e um arco de
palpites jogados ao vento infinitamente menor.
20. Outro dia Serra reconheceu (e olhe
que para Serra reconhecer isso é porque deve ser verdade): "Alckmin é o melhor
de nós (tucanos) todos na televisão". Ou seja: não chega a ser um estouro de
carisma, mas é eficaz.
Cobrem-me o resultado final desse
exercício de probabilidades no final de outubro.
(*) Carlos Marchi é repórter político de O
Estado de S. Paulo