O rombo da Petros nas costas do contribuinte

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Aos petroleiros, com carinho

Os brasileiros pagarão o valor de quatro
plataformas de petróleo para salvar 
o fundo de pensão da Petrobras 
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O economista Roberto Campos (1917-2001) referia-se à Petrobras como
"Petrossauro".  O apelido resumia com ironia e precisão o arcaísmo 
com que a empresa era administrada e o peso desse tiranossauro pú-
blico sobre as costas da economia brasileira. Protegida pelo mono-
pólio legal, a companhia era o símbolo da ineficiência estatal. 

A abertura do mercado energético em 1997 fez a empresa modernizar sua 
gestão, a produção petrolífera disparou e hoje o país festeja a auto-
suficiência petrolífera.  Mas um dos maiores vícios combatidos por 
Campos parece seguir imutável:  os régios privilégios do Petros, o 
fundo de pensão dos funcionários da estatal. 

Na semana passada,  a empresa confirmou sua intenção de cobrir in-
tegralmente um rombo de 9 bilhões de reais nas contas do Petros. É 
dinheiro suficiente para construir quatro plataformas marítimas de 
exploração de petróleo ou duas refinarias novinhas em folha, inves-
timentos que diminuiriam os gargalos produtivos do país e injetariam 
novo vigor à economia. Pela lei, o rombo teria de ser coberto meio a 
meio pela empresa e pelos trabalhadores. Mas a Petrobras decidiu ser 
generosa e pagar toda a conta. Para isso, vai usar recursos que per-
tencem a milhares de acionistas da empresa e aos contribuintes bra-
sileiros. 

É quase inexplicável o fato de a Petrobras ter permitido que um rombo 
contábil fosse criado num fundo do qual é patrocinadora. Mais escan-
daloso ainda, no entanto, é a empresa tê-lo deixado saltar para 9 
bilhões de reais e, ao fim dessa lambança, aliviar os funcionários 
da Petrobras de qualquer responsabilidade – e mandar a conta para os 
brasileiros que nada têm a ver com a lambança.  Não há retrato mais 
fiel do descaso com que o dinheiro público é gerido no Brasil.

Como isso pode ter acontecido? Por distorções históricas e espertezas 
atuais.  Deficitário e insustentável desde que foi criado, o Petros 
está entre as entidades de previdência mais generosas que há na 
praça.  Ele assegura que os aposentados ganhem 90% do salário que 
recebiam na ativa.  

Um trabalhador normal da iniciativa privada que tenha um salário de 
10.000 reais receberia no máximo 2.801,56 reais se se aposentasse 
hoje, o teto dos benefícios pagos pelo INSS.  Na Petrobras não 
funciona assim.  Quem ganhava 10.000 reais na ativa recebe uma gorda 
aposentadoria de 9.000 reais ao mês -- o Petros banca a diferença 
entre os 2.801,56 pagos pelo INSS e os 9.000.  

Esse tipo de sistema de previdência privada, chamado de "benefício 
definido", entrou em desuso porque cedo ou tarde as contas ficam 
desequilibradas -- os gastos com o pagamento de benefícios avançam 
num ritmo superior ao das contribuições pagas pelos empregados que 
ainda não se aposentaram.  Atualmente, os fundos utilizam o sistema 
de "contribuição definida", no qual os beneficiados recebem de acordo 
com o que contribuíram -- exatamente como nos planos de previdência 
privada vendidos pelos bancos.  Outros fundos de estatais também 
tinham as contas desajustadas, mas fizeram a migração de um sistema 
para o outro e agora operam no azul. No Petros o ajuste ficou no meio 
do caminho. 

A migração de planos teve início em 2002. Para estimular a troca, a 
estatal se dispôs a arcar com todo o déficit estimado na época, de 4 
bilhões de reais.  Além disso, reconheceu uma dívida de 5,5 bilhões 
de reais relativa aos benefícios dos funcionários que ingressaram na 
empresa antes de o Petros ser constituído, em 1970, e que nunca ha-
viam contribuído para o plano de previdência.  Há quatro anos, por-
tanto, foram injetados outros 9,5 bilhões de reais nas contas do 
fundo de pensão, que se tornou o segundo maior do país – são 30 
bilhões de reais de patrimônio hoje, contra 90 bilhões do líder 
Previ. 

Os sindicalistas da Federação Única dos Petroleiros (FUP) opuseram-se 
veementemente à troca de planos e entraram com ações na Justiça.  A 
maioria deles recebeu a bufunfa sem devolver o privilégio.  Isso 
significou que o rombo não foi estancado. Sobrou um déficit estimado 
em 1 bilhão de reais ao fim de 2002.  Agora, menos de quatro anos 
depois, o déficit já alcança 9 bilhões de reais. 

Com tanto desequilíbrio, como o Petros fazia para o rombo em seus 
balanços parecer menor?  O fundo operava com premissas atuariais (na 
melhor das hipóteses) muito pouco conservadoras.  Estimava, por exem-
plo, que a expectativa de vida dos petroleiros era menor do que a 
real.  Além disso, previa tantas novas contratações da Petrobras 
quantas fossem necessárias para inventar novas receitas para cobrir o 
rombo contábil.  Altamente questionável, a operação da semana passada 
tinha a oposição ferrenha do ex-secretário do Tesouro Joaquim Levy. 
Sua saída, em março, viabilizou a lambança. 

Há sete anos, Roberto Campos advertia que a Petrobras não trabalha 
para seus acionistas, mas para seus funcionários.  Muita coisa me-
lhorou na empresa desde então. Alguns graves vícios, como se vê, 
permanecem. 

  
[Veja]


















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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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