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O texto é bom e retrata exatamente o emprego que
fazemos de expressões e palavras consideradas chulas.
Eu penso que palavrões nada mais são que certas
palavras assim rotuladas. Para mim não faz a menor diferença o seu uso ou não. E
há ocasiões em que nada exprime melhor o que queremos exatamente
dizer.
Só não posso afirmar que o autor seja mesmo o
Veríssimo.
Eu o leio constantemente e não li este. Pedi a quem
me enviou que citasse a fonte mas não recebi resposta. Pesquisei e não encontrei
a resposta.
Conservei o nome dele pois pode ser que a autoria
esteja correta. Se alguém tiver informação segura, por favor
esclareça.
Carlos Antônio.
PALAVRÕES TAMBÉM SÃO IMPORTANTES
(Luís Fernando Veríssimo) Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole. "Pra caralho", por exemplo.Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito,é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende? No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais abosoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!", assim como o
"Absolutamente Não" já soam sem nenhuma credibilidade. O "Nem
fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te
libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior
interesse em sua vida.
Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo
o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência.
Solte logo um definitivo : "- Pedrinho presta atenção, filho querido,
NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se
encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir
o CD do Caetano Veloso.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia, não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça. E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no meio do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no meio do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua
auto-estima. Desabotoa a camisa e sai à rua, vento batendo na
face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e
renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de
alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está
dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de
habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você
parar: O que você fala?
"Fodeu de vez!". Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda- se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e
Foda-se!
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