pesquisa prum e-amigo sábado de gastrite : *VISÃO EM MERLEAU-PONTY *
* * *Luísa Carlos* * * Na reflexão de Merleau-Ponty (filósofo francês, 1908-1961) encontramos um esforço de retorno à fonte originária de onde brota a própria interrogação filosófica. Essa fonte originária reside naquilo a que Merleau-Ponty denomina de *fé perceptiva* e que, antecedendo a própria reflexão, é, portanto, de natureza pré-reflexiva e ante-judicativa. A tradição filosófica, ao distanciar-se dessa origem, deu lugar a cristalizações dicotómicas (sensível/inteligível, corpo/alma, *a priori*/*a posteriori*, sujeito/objecto...) que não nos permitem aceder à compreensão do permanente enraizamento da consciência no mundo. O retorno a este enraizamento, tentativa de radicalidade e aprofundamento, exige uma reabilitação do corpo e do sensível. Rejeitando, quer uma visão racionalista, quer uma visão empirista, o corpo de que este filósofo nos fala não é a *máquina* que um * cogito* desincarnado comandaria, nem as sensações são meros registos numa *folha de papel em branco*. O corpo não é, também, o corpo-objecto que a ciência disseca, mas sim *o corpo fenomenal*. É este corpo que realiza a síntese perceptiva e intersensorial: essa espécie de *sabedoria prévia* à reflexão, que está incrustada no mundo e a ele nos permite aceder. E tal acontece porque a percepção, realizada no e pelo corpo, está imbuída de * reversibilidade* e *entrecruzamento*: o corpo que sente é, também ele, sensível. O sensível e o sentinte não se situam, pois, face a face: no âmago da experiência perceptiva encontramos, entre o sentinte e o sensível, uma espécie de *unidade diferenciada*, marcada pela *comunhão*, pela * familiaridade*, ou seja, por *um mapa comum*. Este *mapa comum* ou *tecido*que une e separa o sensível e o sentinte, *dobrando-os *e *desdobrando-os* numa ontogénese sempre a re-fazer, são identificados por Merleau-Ponty, em *Le Visible et l'Invisible,* com o termo de *carne*. Esta *carne*, próxima do elemento unificador pré-socrático, não é a soma ou justaposição de todos os sensíveis/sentintes, mas um *protótipo do ser *que, numa renovação constante, arrasta consigo toda a sedimentação do passado. Ora, este *protótipo do ser* encontra no exercício da visão o seu modelo paradigmático. Efectivamente, a visão ocupa um lugar de destaque na *ontologia do sensível *de Merleau-Ponty, a ponto de podermos mesmo chamar-lhe uma *ontologia do visível*. Se todos os outros sentidos revelam e realizam a simultaneidade do enraizamento e abertura do homem no mundo e ao mundo, o sentido da visão é "(...) o meio que me é dado de estar ausente de mim mesmo, de assistir de dentro à fissão do Ser, no final da qual, somente, me fecho sobre mim mesmo." (*L'Oeil et l'Esprit*) No exercício dos outros sentidos, o sentinte experiencia o mundo ao mesmo tempo que se experiencia a si mesmo (a mão que o corpo toca é a mesma que por ele é tocada, os sons que transportam as palavras proferidas por alguém são as que os seus próprios ouvidos ouvem...). A visão é o sentido que abre o sentinte à total exterioridade: o olho que vê não é, simultaneamente, visto por si mesmo: "o olho realiza o prodígio de abrir à alma o que não é alma, o bem aventurado domínio das coisas (...)"(*L'Oeil et l'Esprit*). Tal não significa, contudo, que o vidente se encontre cindido ou desenraizado do visível: a condição que o torna vidente é, precisamente, a de, também ele, ser visível. Nem o vidente vê tudo de uma só vez, nem o visível *está aí* pronto a ser visto. A visão é um (re)nascimento contínuo, enigmático e ambíguo, à qual os pintores emprestam as suas mãos e o seu corpo, metamorfoseando-a num novo visível. A celebração da visão é, em Merleau-Ponty, sobretudo em *L'Oeil et l'Esprit*, também uma celebração da pintura. Se "a visão é o encontro, como numa encruzilhada de todos os aspectos do Ser", os pintores são aqueles que, privilegiadamente, realizam esse *encontro* e, através da sua arte, a ele nos permitem aceder. Além disso, se o esforço de Merleau-Ponty vai no sentido de retornar a esse sentir originário, anterior a qualquer distanciamento reflexivo e judicativo, serão as telas mudas, plenas de linhas e de cor, que nos permitirão (re)tomar esse caminho em direcção à raiz , pois "o pintor é o único a ter o direito de olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação." (*L'Oeil et l'Esprit*) E, se a tarefa da *verdadeira filosofia *é a de *reaprender a ver o mundo* (*Phénoménologie de la Perception)*, certamente que essa reaprendizagem passará pelos ensinamentos do silencioso exercício da visão e da pintura. [*Bibilografia: *La *Phénoménologie de la Perception*, Paris, Gallimard, 1945; *Le Visible et l'Invisible*, Paris, Gallimard, 1964; *O Olho e o Espírito*, trad. Luís Manuel Bernardo, Lisboa, Vega-Passagens, 2000; «Le Langage Indirect et les Voix du Silence»,* in Signes*, Paris, Gallimard, 1960 (Sobre Merleau-Ponty: BARBARAS, RENAUD, *Merleau-*Ponty, Paris, Ellipses, 1997; BARBARAS, RENAUD *De l'Être du Phénomène, sur l'ontologie de Merleau-*Ponty, Grenoble, Éditions Jérôme Millon, 2001; MATOS DIAS, I., *Uma Ontologia do Sensível, A aventura filosófica de Merleau-Ponty*, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 1999)] *LÉXICO <http://filosofiadaarte.no.sapo.pt/lexico.html>* 2006/12/16, Flávio Freitas <[EMAIL PROTECTED]>:
Carai! Adorei essas descricoes. Mas... um artista pensa nisso tudo quando faz a foto? Lamento decepciona-lo, porque a do disco EH casual. Acho que foi sorte de principiante. Mas vou seguir seu conselho e ousar mais. On 12/16/06, Marco Antonio Figueiredo <[EMAIL PROTECTED]> wrote: > > é das melhores, como a do anjo, literalmente PB > > usemos as duas para expor ( !) meu ponto de vista : > > a primeira aparentemente casual, é estudada, gráfica , circulo apoiado > em reta com perspectiva infinita foco de perdendo no ponto de fuga levando o > olhar a alternar de focos , o que vai e o que volta atrás inultimente, com > ele, pf . multiplos planos > > o Anjo, está posada é um monumento prá lá de superexposto, mas a luz, só > bca ( o fundo ) ou só Pta ( o objeto ) fazem uma apreensão rara do contraste > planoXplano, só dois planos, diedros distorcidos, dificil de fazer bonito, > talento e sorte. > > conteudos não importam > > contra-luz : estão muito estouradas as beiras tambem, aí o contraste > definidoX estourado pifa, acho que se a borda for melhor definida o efeito > visual fica melhor > > clássico : isto foi uma defesa não uma definição, não era necessário, > não ataquei, só descrevi, não se deixe apreender em vida, depois digam o > que quiserem. > > abçaõ > > 2006/12/16, Flávio Freitas <[EMAIL PROTECTED] >: > > > > MAF, nao se preocupe. Eu SOU classico. > > Eu posso ser criticado a vontade que eu nao ligo. > > Faco isso porque gosto e eh divertido. Nao quero me tornar um artista. > > A hora que cansar, a maquina vai para o fundo da gaveta, sem remorsos. > > > > > > Agora explica o numero 5, plisi. > > > > [][] > > Flavio > > PS: Nao sei bem o porque, mas achei que voce iria gostar da foto do > > disco quebrado. > > > > > > On 12/16/06, Marco Antonio Figueiredo < > > [EMAIL PROTECTED]> wrote: > > > > > > gostei da maioria ! conselhos estéticos para não serem seguidos, > > > ou não : > > > > > > 1) Esqueça a Arte ( a que dizem que é ) ! Ela é ficção e sonho, e > > > sobretudo, acaso mental buscado, intencional. > > > 2 ) animais e flores são melhores ao tambem acaso, posados são só > > > imagens bonitinhas, às vezes , como em algumas suas sem movimento. > > > 3) esqueça os enquadramentos clássicos e formais, todos fazem assim > > > e elas são indiferentes na autoria, vc é um , cadê voce ?, você é seu > > > estilo. Arrisque. > > > 4) fotografe o que vc gosta e portanto para voce, não tente fazer > > > uma boa foto que os outros vão gostar, voce só ouvirá elogios, e isto é > > > péssimo. > > > 5) contra-luz só exponha e se exponha se o sombreado não estourar > > > junto. > > > 6) nunca peça criticas, nem se substime, senão vc corre o risco de > > > um bbka como eu levar isto á sério. > > > > > > parabéns > > > > > > ps. ouse o erro. > > > > > > 2006/12/14, Flávio Freitas <[EMAIL PROTECTED]>: > > > > > > > > Aceito criticas construtivas, destrutivas, elogios, sugestões... > > > > > > > > http://www.flickr.com/photos/flaviofreitas > > > > > > > > [][] > > > > Flavio > > > > > > > > > > > > > > > > -- > > > Marco Antonio Figueiredo > > > Blog : http://marcofigueiredo.multiply.com/journal > > > > > > > > > > > -- > Marco Antonio Figueiredo > Blog : http://marcofigueiredo.multiply.com/journal > >
-- Marco Antonio Figueiredo Blog : http://marcofigueiredo.multiply.com/journal
