Caro Paulo, Temos discordado mais que concordado sobre vários temas. Eu não vi tanta inveja e rancor no texto do Cristaldo, mas uma opinião que é compartilhada por muitos. Eu não voto mesmo mas se o fizesse, nunca seria no Lula e nem no Alckmin. Aliás em nenhum dos candidatos da última eleição. Acho que faz um certo sentido ele dizer das oportunidades que o Lula teve e por preguiça, ou acomodação, ou por ter galgado o mais alto posto executivo do país sem necessidade de diplomas, mestrados, doutorados ou seja lá o que for, deixar de lado um pouco mais de conhecimento que o poupassem das constantes gafes que comete, e lhe dessem maior competência para exercer o cargo que exerce. Eu não considero o Lula inteligente. Ele é esperto e isto é muito diferente. E além do mais, nenhum outro candidato petista venceria uma eleição presidencial no país e o partido sabia disso. O metalúrgico Lula foi arquitetado nos meios sindicais, elevado a uma posição de liderança para falar a linguagem de quem votaria nele, e falsificado, como o PT, em esperança de modificações políticas num Brasil sofrido e espoliado por anos seguidos de corrupção, passando por um intervalo de 20 anos de ditadura massacrante e também corrupta, e voltando à corrupção desenfreada após a queda do regime militar. Aí deu-se o desastre. A esperança ficou apenas na vontade e tudo o que foi prometido esfumaçou-se na constatação que o projeto petista era de poder e não de governo. Estaria exagerando se dissesse que sou leitor assíduo do Cristaldo. E nem mesmo gosto de tudo que já li dele. Mas também não jogaria no lixo tudo o que ele escreveu. Volto a insistir que opiniões divergem e não faço das minhas, verdades absolutas. Elas valem para mim e respeito as contrárias mesmo não concordando com uma vírgula. Pelo que você disse, pareceu-me ser profundo conhecedor do Janer Cristaldo e não ter apenas chegado ao conceito que faz dele pelo texto postado. Eu mesmo discordo de certos trechos tanto que o subject é "para ler e pensar". Eu também não acho que a intimidade com a cultura e com autores do porte dos que você citou faça um homem melhor que outro. Vou além, refletindo com Thoreau: "When will the world learn that a million men are of no importance compared with one man?" E não tenho razão nenhuma para duvidar do que você diz, mas não baseado apenas neste texto sobre o qual falamos. Longe de mim querer corrigí-lo mas pode ter sido um pecadilho, um lapso ou uma falha ao digitar a sua citação do Eclesiastes sobre o nada das vaidades do mundo: "Vanitas vanitatum et omnia vanitas." Espero e sei que você entenderá que não há nisso nenhuma crítica. E sei também que as nossas divergências no campo político e em outros assuntos não passam de uma discussão salutar que só enriquece a nossa busca por caminhos melhores e mais humanizados.
Um abraço e bom domingo. Carlos Antônio. ----- Original Message ----- From: Paulo Sérgio Pinto To: [email protected] Sent: Saturday, March 17, 2007 9:38 PM Subject: Re: [gl-L] Fw: Pra ler e pensar quando sobrar tempo Caro Carlos, O autor é escritor, jornalista e, principalmente, um tremendo fracassado. Todo o texto destila inveja e rancor. Mas isso é muito comum entre as pessoas que têm o ego maior do que o bundão. Lembrei-me de um caso que aconteceu comigo. Um colega engenheiro, que fizera doutorado na Universidade de Stuttgart, queixava-se amargamente: - "O Brasil é mesmo um país de merda. Eu faço um doutorado brilhante na Alemanha, tendo a minha tese aprovada 'suma cum laude' e estou aqui pastando. Um português burro e analfabeto monta um boteco para vender cachaça e fica rico." Sei lá eu porque, estava em dia de muita franqueza. Disse-lhe: - "O português pode até ser analfabeto, mas é muito mais inteligente e esperto do que você. Antes de se propor a vender algo, preocupou-se com a existência de uma mercado para os seus produtos. Sua tese, tão brilhante, tem tanto valor quanto outra sobre a 'Reprodução Assexuada das Borboletas Chinesas na V dinastia Ming.' Você estudou exaustivamente assuntos que não têm valor prático e não interessam a ninguém e quer que o mercado caia em seus braços. Caia na real!" Obviamente, ele não ficou muito satisfeito com o que ouviu. Mas é como me sinto a respeito desse assunto até hoje. Imagino que deve ser muito triste já ter lido tantos livros, ter aprendido tantas línguas e ser apenas e tão-somente um Janer Cristaldo, de quem pouquíssimos já ouviram algum dia falar. Que essa gente pequena e crítica destile seu veneno, tudo bem. Só não me peça para concordar com ela. Elitismo, partindo de perdedores, é dose pra leão. Melhor faria se rapidamente aprendesse a enfiar o rabo entre as pernas. Gosto de James Joyce, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Eça de Queiroz e Machado de Assis, mas jamais cometeria o crasso erro de achar que o mundo deveria me premiar por conta dessa afinidade. Ou, principalmente, que isso me torna melhor do que um torneiro que não completou o primário. Vanitas, vanitatis, et omnia vanitas! Um abraço, Paulo Sérgio Pinto [EMAIL PROTECTED] ccarloss wrote: Se é que sobrará tempo para os tecnocratas que necessitam sempre de minuciosas informações para que decidam sair de cima do muro e tomar uma posição ou emitir uma opinião própria e confundem erudição com cultura e esta com inteligência. Na verdade eles costumam estar mais próximos do eruditismo. E não se dão conta que os seus relógios podem estar atrasados e são os homens e não a história que costumam perder a hora. Carlos Antônio. Repassando. Triste país este meu Texto de Janer Cristaldo em 31 de outubro de 2006 Sempre vivi em conflito com o Brasil. Em verdade, sou mais platino que brasileiro. Nasci na pampa, a mais ou menos um quilômetro da Linha Divisória entre Brasil e Uruguai. Com meus pais, falava português. Com minha ama, doña Catulina, falava espanhol. Na estrada, em frente a nosso rancho havia um desses marcos divisores de fronteira, em concreto. Meu pai costumava colocar-me nos ombros para que eu subisse até o topo do marco. Mandava que eu me virasse para o nascente e dizia: "fala para os homens do Uruguai, meu filho". Depois fazia virar-me para o poente: "Fala agora para os homens do Brasil". Nasci entre duas culturas e o primeiro grande poema de minha infância foi o Martín Fierro. Meu pai era camponês sem maiores luzes, mas conhecia de cor dezenas de sextilhas de Hernández. Pergunte hoje a um professor universitário quem foi José Hernández. Poucos saberão responder. Entender o mundo foi algo que sempre me fascinou. O aprendizado da leitura me absorveu a tal ponto que eu entrava noite adentro lendo à luz das brasas do fogão. As seleções do Reader's Digest, não sei como, chegavam até aqueles rincões. Não sei se algum leitor ainda lembra delas. Tinham o formato de um pequeno livro e o texto era disposto em seis colunas. Em minha sofreguidão, eu lia as linhas na horizontal, pulando de uma coluna para outra. Não era tarefa fácil, após a leitura, ordenar o texto todo. Fiz o primário em escola rural. Minha alegria de fim de ano era saber que no ano seguinte eu receberia novos livros. Desde pequeno, tive a intuição de que um homem vale pelo que conhece. No ginásio, me fascinou o estudo de inglês, francês e latim. Sentia-me como que travestido falando uma língua estrangeira. Não o espanhol, é claro, que nunca foi estrangeira para mim. Enquanto meus colegas e parentes se dedicavam a projetos mais práticos, como o de ganhar dinheiro e comprar coisas, eu me preocupava em ler mais para entender melhor o universo que me cercava. Um dos apelidos que me pespegaram em meus dias de Porto Alegre foi "Pra-que-dinheiro?". Eu não entendia muito bem para quê. Os livros foram minhas armas para enfrentar o mundo. Com eles enfrentei a arrogância dos padres, dos marxistas, dos acadêmicos. Nos dias em que estava abandonando a fé cristã, que me fora enfiada a machado na cabeça, um padre foi enviado à minha cidadezinha para reconduzir ao rebanho a ovelha prestes a perder-se. Conversamos um dia inteiro, esvaziando várias jarras de água. "Com que autoridade - me perguntava o padre Firmino - ousas contestar o que homens ilustres afirmaram?" Contesto, padre, com a autoridade da razão, da lógica e de minhas leituras. Eu teria 17 anos. Graças a meus livros, enfrentava com serenidade aquele Torquemada cinqüentão. A leitura me havia salvo do obscurantismo. O valor que mais cultivo é o conhecimento. Certa vez, em uma audiência judicial, um juiz me defendeu como me defenderia minha mãe. "Este homem nunca teve tempo de ganhar dinheiro, passou sua vida estudando". Estudando, continuo até hoje. Não tenho maior apreço por quem ostenta fortuna ou poder. Vivemos dias em que sucesso é um valor. Conheço pessoas de bom nível cultural que invejam o Supremo Apedeuta: "Ele teve sucesso". Tenha o sucesso que tiver, pessoa inculta para mim não vale um vintém. Respeito o analfabeto que não teve condições de alfabetizar-se. Não tenho respeito algum por quem, tendo a chance de educar-se, não se educou. Tenho mais respeito por minha faxineira, que surpreendi outro dia lendo Machado de Assis. Quem me acompanha sabe que abomino aquele carioquinha. Mas melhor ler Machado que não ler nada. Urge acabar com esse mito de que alguém vale alguma coisa só porque é presidente da República, bispo de Roma ou sabe chutar uma bola. Falava de meu conflito com o Brasil. Quando fugi para a Suécia, fugia de duas coisas: carnaval e futebol. Mas por mais que um homem fuja, sempre carrega nas costas seu passado. Os suecos me interrogavam sempre sobre ... carnaval e futebol. Em todas minhas viagens, a peste Brasil sempre viajou grudada à minha pele. Seja nas fronteiras políticas do mundo socialista, seja nas fronteiras hipotéticas do Saara, ao mostrar o passaporte verde nunca faltou um policial analfabeto que me dissesse: "Brassil? Pelê, cafê, sambá". Nunca tive razões para orgulhar-me de meu país. Tampouco encontro homens em sua história a quem possa conferir a comenda de herói. Tivemos alguns homens de visão, é verdade, Hipólito da Costa (que nasceu na Colônia do Sacramento, atual Uruguai), José Bonifácio, Silva Paranhos. É muito pouco para país tão grande. Santos Dumont? De acordo. Mas Dumont é fruto da cultura francesa, não da nossa. Meus heróis estão em outras culturas. Alexandre, Sócrates, Cervantes, Schliemann, Fernão de Magalhães, Nietzsche, Mozart, Pessoa, Hernández. Entre meus numes tutelares não há nenhum brasileiro. Viajando, aprendi a gostar deste país. Gosto de repetir uma frase de Chesterton: "não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela". Precisei sair para entender melhor a terra em que nasci. Se aqui existem mares de burrice, há também ilhas de inteligência. Se há miséria, há também riqueza. Se há feiúra, há também beleza. Todo país é lindo quando nele existe uma mulher a quem amamos. Essa mulher eu a tive e era daqui. Tivesse eu nascido no Congo ou em Ruanda, teria fortes razões para partir e não mais voltar. Mas ao Brasil dá pra voltar. Que o digam os exilados de 64, que nos cafés de Paris ou Berlim juravam só voltar de metralhadora em punho. Mal Figueiredo decretou a anistia, voltaram chorando a cântaros. Quando passamos muito tempo longe do Brasil, sempre dá um nó na garganta ao voltar. Se choramos ao voltar, é porque o país é viável. Sempre nos doem na alma as mazelas do país do qual gostamos. Gostar do Brasil é viver de alma machucada. Temos tudo para ser ricos e - ilhas à parte - vivemos atolados na miséria. Eleições são momentos em que brota, no peito de quem gosta de sua pátria, um raminho de esperança: quem sabe, desta vez saímos do barro. Esse raminho, em meu peito há muito murchou. Faz hoje dezesseis anos que não voto, por não conseguir vislumbrar candidato em quem confiar meu voto. Se por um lado não voto, por outro sempre espero apreensivo o resultado das urnas. Há quatro anos, foi eleito presidente da República um homem que se gaba de sua incultura. Parafraseando Lula: nunca houve na história deste país tamanho acinte à inteligência. Sua eleição gerou um clima funesto no país. Para "ter sucesso" não era mais necessário ter cultura. Analfabeto mesmo serve, desde que minta à vontade, conforme o gosto das gentes. Não bastassem suas demonstrações quase que diárias de analfabetismo, não bastasse a roubalheira institucionalizada de seu governo, não bastassem suas mentiras deslavadas e continuadas, candidatou-se novamente à Presidência da República. Nos tempos d'antanho, para justificar suas vontades, os poderosos costumavam dizer: Deus quer, Deus quis, em nome de Deus. O tal de Deus parece andar um tanto fora de moda. Hoje, os poderosos ou candidatos ao poder dizem: em nome do povo, o povo quer, o povo diz. Soaria um tanto obsoleto, tanto para Lula quanto para Alckmin, dizer: eu sou o candidato de Deus. Mas não têm maiores pudores em afirmar que são o candidato do povo. As duas palavrinhas - Deus e povo - continuam sendo de difícil definição e têm tantas acepções quanto as bocas dos que as pronunciam. Jamais vi ou li uma definição de povo que satisfizesse a todas as mentes. Mas uma coisa é certa. Passe numa segunda-feira de manhã em um parque público ou em uma praia. Você pode não saber o que é povo. Mas é óbvio que o povo passou por ali. Nesta segunda-feira, Lula acordou reeleito presidente da República. Ontem, o povo passou pelas urnas. Ainda na semana passada, o candidato derrotado dizia que o PT "está fazendo apologia da mentira. Os petistas podem mentir. Não, o brasileiro não gosta de mentiroso. Nada se sustenta em cima da mentira. Mentira é desvio". Santa ingenuidade tucana. Esta coisa informe que se chama povo parece ter-se indignado com as palavras de Alckmin. E correu às urnas para desmenti-lo: "somos brasileiros e gostamos de mentirosos, sim senhor. Quem disse que nada se sustenta em cima da mentira? Mentira não é desvio. Mentira é direito sagrado de todo cidadão". Em um sistema democrático, bem ou mal o presidente representa as aspirações da nação toda. Triste país este meu, que elege e reelege um bronco sindicalista. Disse certa vez um político inglês que a Inglaterra era bem sucedida porque seus cidadãos honestos tinham a mesma audácia que os canalhas. Claro que no Brasil existirão não poucos homens honestos. O problema é que carecem de audácia, virtude que nunca faltou aos canalhas. O autor é escritor e jornalista
