Oi carlinhos,
  Euzinha dando pitaco, concordo que poesia não é um segredo, tem que ser 
  dita aos sete ventos sempre.
   
  Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guarda-se o que se quer guardar.

(Antônio Cícero)
  

ccarloss <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
          Marco, 
   
  Podemos falar sobre isso. 
  Achei o texto não de todo ruim mas poderia ser melhor.
   
  Um abraço.
   
  Carlos Antônio.
   
  P.S. Sendo magnânimos vejamos também o que o Kleber tem a dizer já que ele se 
aventura  neste campo e ás vezes faz uma prosa poética ou mesmo um poema.
          
   

          
  

          São Paulo, sábado, 19 de maio de 2007 
            

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ANTONIO CÍCERO 

A poesia é um segredo dos deuses?   Conhecendo a poesia, conhecemos uma 
maravilha que nenhum deus é capaz de conhecer

NUMA MESA-REDONDA de que participei recentemente, no encontro de escritores que 
tem lugar anualmente em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, o tema proposto 
para discussão foi: "A poesia é um segredo dos deuses".
A propósito desse assunto, lembro que João Cabral dividia os poetas entre 
aqueles que tinham a poesia espontaneamente, como presente dos deuses, e 
aqueles -entre os quais ele mesmo se situava- que a obtinham após uma 
elaboração demorada, como conquista humana.
Ora, o tema da nossa mesa havia sido proposto tanto para deixar à vontade os 
poetas do primeiro grupo, isto é, os que acreditam na inspiração, quanto para 
provocar os do segundo, isto é, os que não acreditam nela, de maneira que uns e 
outros se sentissem livres para expor as suas poéticas divergentes.
Quanto a mim, não sinto que caiba inteiramente em nenhum desses dois grupos. 
Certamente considero uma tolice pensar que a poesia seja pura inspiração, pura 
dádiva dos deuses; mas penso que há também um quê daquela violência que os 
gregos chamavam de "húbris", um quê de insolência e arrogância na tese de que 
ela seja o resultado plenamente consciente e calculado do trabalho.
A inspiração é o nome que damos à contribuição indispensável do incalculável, 
do inconsciente, do acaso e mesmo do equívoco à elaboração do poema. Nenhum 
grande poeta -nem mesmo João Cabral- jamais pôde deixar de se fazer disponível 
e receptível à irrupção dessas gratas e imprevisíveis contribuições. "A arte 
ama o acaso", diz Aristóteles, com razão, "e o acaso, a arte". E o acaso e a 
arte se encontram inextricavelmente entrelaçados na feitura do poema.
A tal ponto isso me parece verdade que não acho muita graça nas boutades 
segundo as quais a poesia seria 10% inspiração e 90% transpiração. Por quê? 
Porque elas sugerem a idéia comum e equivocada de que o poeta tem, em primeiro 
lugar, a inspiração, para depois ter o trabalho de desenvolvê-la e poli-la.
Ora, penso que é justamente durante o trabalho, na busca de alternativas ao 
imediato e fácil, ou na tentativa de solucionar problemas criados pelo 
desenvolvimento do próprio poema, que a inspiração é mais solicitada e 
bem-vinda; e, por sua vez, a incorporação do impremeditado ao poema exige 
sempre uma nova elaboração, de modo que jamais se pode saber ao certo quanto do 
resultado final se deve à inspiração ou ao trabalho.
O fato é que a mim são muito simpáticos os deuses que representam as fontes de 
inspiração dos poetas, como Apolo e as Musas. A estas, aliás, já dediquei, em 
gratidão, pelo menos um dos poemas que fiz. Entretanto, dado que também 
reconheço o papel indispensável do trabalho consciente na produção dos poemas, 
não acho correto dizer que a poesia seja um presente delas.
E, por duas razões, parece-me claro que a poesia não pode ser um segredo dos 
deuses. A primeira é que a poesia é um fenômeno humano, demasiadamente humano. 
Longe de consistir numa atividade puramente racional, ela lida com o que é 
particular, finito, humano. Ela usa palavras particulares de línguas 
particulares, finitas, humanas. Ela lida com a morte, a paixão, a perda, a 
ilusão, a esperança, o medo, a imaginação, o cômico, o trágico etc., que são 
realidades particulares, finitas, humanas.
E a própria beleza da poesia é encarnada, sensual, particular, finita, humana. 
Os deuses -imortais, olímpicos, abençoados, oniscientes- não entenderiam tais 
coisas ou as desprezariam, pois se encontram muito acima delas. Conhecendo a 
poesia, o ser humano conhece uma maravilha que nenhum deus é capaz de conhecer.
Ademais, a poesia não pode ser um segredo, nem dos deuses, nem dos homens, nem 
mesmo do ponto de vista lógico. Por quê? Porque um segredo é algo que, em 
princípio, poderia ser revelado. Por exemplo, a fórmula de uma bomba ou a 
receita de um doce podem ser segredos, porque podem, em princípio, ser 
revelados. Se alguém diz que sabe um segredo, mas que não seria capaz de 
revelá-lo de modo nenhum, essa pessoa está mentindo.
Um segredo tem que ser conhecido ao menos por uma pessoa ou um deus. Ora, é 
possível fazer um bom poema, mas não é possível, nem em princípio, saber como 
deve ser um poema, para ser bom. Essa é, na verdade, uma das poucas certezas 
que um poeta pode ter: é absolutamente inconcebível que haja fórmulas, receitas 
ou segredos -divinos ou humanos- para a feitura de um bom poema. Logo, a poesia 
não é um segredo dos deuses.


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