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DEBATE ABERTO

Os dez indefinidos

Seja porque ganharam de um lado e perderam de outro ou seja porque tiveram vitórias não muito doces, esses personagens precisarão de tempo para saber se a sorte lhes sorriu ou não em 2006

Maurício Thuswohl

No terceiro e último texto com breves comentários sobre o efeito do resultado das urnas em trinta atores do primeiro time da política nacional, publico a lista com dez nomes sobre os quais eu acredito ser ainda impossível colar o rótulo de vitorioso ou fracassado nessas eleições. Seja porque ganharam de um lado e perderam de outro, seja porque tiveram vitórias não muito doces, esses personagens precisarão de tempo, e do desenrolar da disputa política, para avaliar com maior precisão se a sorte lhes sorriu ou não em 2006:

Heloísa Helena – Após encher de esperança uma valorosa parcela da esquerda brasileira que se tornou militante ou simpatizante do PSOL e esperava “criar uma alternativa pela esquerda” a Lula na campanha, HH decepcionou com uma postura denuncista e pouco definida programaticamente, o que acabou, de certa forma, fazendo o jogo tucano-pefelista, evidência acentuada com a opção pelo voto nulo no segundo turno (ela sequer foi votar). Mesmo perdendo o mandato de senadora, HH teve uma votação excelente para presidente e se tornou figura conhecida em todo o Brasil, fato que pode garantir seu futuro eleitoral. Mas, terá que ser muito mais hábil politicamente do que foi até agora para evitar que o multifacetado PSOL se desintegre. Se o partido desandar, seu nome pode acabar se transformando numa má lembrança para a esquerda brasileira.

Cristovam Buarque – Para o bem e para o mal, Cristovam sai das eleições muito mais à direita do que entrou, do ponto de vista político-eleitoral. Foi candidato pelo PDT sem ter nenhuma tradição no partido e, apesar de martelar o tema da educação tão caro aos pedetistas, provocou desagrado interno ao insistir em tornar público seu apoio a Geraldo Alckmin no segundo turno. É um bom senador, e poderá se manter em evidência nacional nos próximos anos. Seu espaço eleitoral, no entanto, parece hoje restrito à Brasília e ele deve concentrar esforços na disputa do governo em 2010. Quem sabe, pelo PSDB...

José Sarney – Se dependesse da vontade do povo do Maranhão, seria mais um oligarca da política nacional levado à aposentadoria pelas urnas, como Antônio Carlos Magalhães (um aposentado com mandato). Conseguiu, no entanto, se reeleger senador pelo Amapá, fato que equilibra a derrota sofrida em casa pela filha Roseana. A sólida relação política com o presidente Lula é outro fator que dá a Sarney a garantia de permanecer no governo nos próximos anos, mas seu poder nitidamente já não é mais aquele de outras épocas. Sua capacidade de influenciar de fato os rumos do PMDB será severamente colocada à prova já no início de 2007. Se for bem-sucedido, será o céu. Se for mal, sua “amizade” com Lula poderá subir no telhado.

Cesar Maia – Chegou a ser escolhido informalmente como candidato à Presidência da República pelo PFL, mas acabou sucumbindo ao acerto feito pelo partido em torno de Alckmin. Durante a campanha, adotou o estilo “morde-e-assopra” com o aliado, mas rompeu na prática quando o tucano selou acordo com Anthony Garotinho. Com Denise Frossard, o grupo político de Cesar perdeu a terceira eleição consecutiva para o Governo do Rio, fato que o faz sair das urnas mais fraco que entrou. Resta a Cesar fortalecer sua trincheira na Prefeitura do Rio de Janeiro e eleger seu sucessor em 2008. Dessa forma, poderá garantir o lugar de dirigente nacional do remodelado PFL que pretende ocupar e, se o partido voltar a crescer, tentar vôos mais altos no futuro.

Fernando Gabeira – Nunca teve tanto respaldo popular como agora e saiu consagrado das urnas como o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro. Mas, a que preço político? Ao adotar uma postura de cobrança ética radical em relação ao governo Lula e declarar voto em Alckmin no segundo turno, Gabeira ganhou muitos novos adeptos, mas perdeu capital político entre sua verdadeira base eleitoral, que é de esquerda e progressista. Além disso, o PV acentua sua crise de identidade política ao não conseguir cumprir a cláusula de barreira, o que torna indefinido o futuro do partido. Para onde irá Gabeira se decidir deixar o PV? Qual perfil dará a sua atuação parlamentar daqui pra frente? Só o tempo dirá se o deputado vai transformar em vitória o bom vento soprado pelas urnas.

Antonio Palocci – Acossado por denúncias que o fizeram deixar o governo, o ex-ministro se elegeu deputado e, ao menos em parte, deu a volta por cima. Ainda às voltas com a Justiça, afirma querer apenas ser um bom deputado e trabalhar para “o bem do Brasil”, mas sua presença na Câmara já é usada como argumento dentro e fora do PT por aqueles que desejam conter a onda desenvolvimentista que, ao que parece, vai mover o segundo mandato de Lula. Só com o decorrer dos próximos anos saberemos com clareza se Palocci voltou a ser uma figura de proa na política nacional ou se foi definitivamente relegado a um papel menor no jogo político.

Aloizio Mercadante – Mesmo que perdesse, como perdeu, as eleições para o Governo de São Paulo para o favorito José Serra, Mercadante era pule de dez para integrar o novo Ministério de Lula. Destacado quadro econômico da esquerda e dirigente do Campo Majoritário petista não atingido pelos sucessivos desvios éticos, parecia não ter nada a perder nessas eleições, mas acabou atingido em cheio pela frustrada tentativa de compra de um dossiê contra Serra feita pelos “aloprados” membros de sua coordenação de campanha. Perdeu espaço junto a Lula para Marta Suplicy, mas ainda pode dar a volta por cima se exercer com a competência habitual seu mandato no Senado.

Ana Júlia Carepa – Obteve magnífico triunfo nas urnas, destronando o PSDB do Governo do Pará após doze anos no poder. Sua maior vitória, no entanto, ainda está por construir, pois falta tornar realidade uma administração de ruptura com o modelo político-administrativo predatório que castiga há décadas um dos mais ricos e desiguais estados brasileiros, cenário de crimes pela posse da terra, injustiça social e destruição da floresta amazônica. Se interferir positivamente em questões como essas, Ana Júlia pode vir a representar muito mais para a história paraense do que somente a primeira mulher a governar o estado. Um bom começo será não repetir no governo as práticas históricas do neo-aliado petista Jader Barbalho.

Chico Alencar – O combativo deputado federal do PSOL carioca foi um dos três reeleitos pelo partido (ao lado de Luciana Genro e Ivan Valente), mas ainda terá que transformar essa grande vitória eleitoral em vitória política. Isso passará pela firme atuação nas discussões sobre o futuro do partido e por uma atuação na Câmara que saiba lidar sem rancores com o governo Lula, o PT e os demais partidos de esquerda que optaram por participar do governo. Se cumprir essa tarefa e exercer o mandato político com a habitual boa qualidade, pode se credenciar até mesmo para ser o candidato das esquerdas na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2008. Ao citar Chico, incluo nessa lista todos os demais bons parlamentares de esquerda que não participarão do governo, mas têm um importante papel a cumprir nos próximos quatro anos.

Roberto Jefferson – Cassado, marcado pela opinião pública como político associado à corrupção, apesar de ter denunciado o mensalão, Jefferson sequer elegeu a filha para a Câmara e pode ser considerado um personagem derrotado nessas eleições, certo? Talvez não. Ainda presidente do PTB, o ex-deputado vai controlar nos próximos anos uma verba que, só na parte relativa ao fundo partidário, representa um montante maior do que ele alega ter recebido do PT no famoso esquema. Assim sendo, é certo que terá voz ativa em qualquer acordo que o PTB venha a fazer pelo Brasil afora. Se tiver paciência, ainda é capaz de voltar por cima. O nome de Jefferson, encerrando a lista, representa outros políticos de peso em situação parecida com a sua. Serve também para lembrar que, na política brasileira, tudo pode acontecer e ninguém, jamais, pode ser considerado derrotado de vez.


Artigos anteriores:
Os dez mais < http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3388 >
Os dez menos < http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3384 >


Maurício Thuswohl é editor de Meio Ambiente e correspondente da Carta Maior no Rio de Janeiro.
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