O projeto cauã não implica em um intermediário entre o usuário e sua computação?
Não implica também em tratar software como serviço?
De fato, não é um projeto que retira o controle da computação do usuário, usando software livre e hardware aberto?

Faço essas provocações porque me parece que é um projeto onde se instala um servidor local, que oferta serviços aos usuários possuidores de um cliente, e que é administrado por terceiros (vejam: http://br-linux.org/2013/01/projeto-caua-jon-maddog-hall-quer-colocar-um-servidor-no-porao-de-cada-predio-de-sp-e-criar-2000000-de-empregos.html).



On 2016-01-11 11:50, anah...@anahuac.eu wrote:
Auto trolagem

Iniciei os caminhos do Software Livre em 1995, mas levei alguns anos
para entender, me livrar dos conceitos formados anteriormente e adotar
a filosofia GNU como norteamento profissional e social. Você pode até
achar que sou louco, mas na verdade todos fazem isso, de forma
consciente ou não. Qual rumo você vai dar a sua vida, qual caminho
escolher e quais formatos, métodos e valores vai adotar como forma de
vida. Alguns serão mais comerciais, outros mais religiosos, outros
mais ecológicos, outros mais engajados e outros, apesar de não se
definirem, serão levados a se definir pelo comportamento da maioria.

Faço parte do Movimento Software Livre brasileiro desde o seu
nascimento. Vi seus ídolos surgirem, passarem, mudarem e até se
antagonizarem ao próprio movimento. Fiz parte do grupo majoritário que
a partir de 2004 decidiu abraçar, também, os conceitos OSI para
facilitar a adoção do GNU+Linux no meio empresarial e governamental. O
objetivo de tornar o Software Livre mais palatável sempre foi o de
aumentar sua adoção. Se uma empresa ou governo adotassem o GNU+Linux
as pessoas seriam apresentadas ao fantástico sistema operacional e
suas vantagens técnicas e ideológicas. Isso provocaria uma reação em
cadeia que levaria as pessoas a adotar o GNU+Linux, também em casa e
eventualmente fazer pressão de mercado por dispositivos compatíveis e
obviamente, um revolução estaria em curso. Essa foi uma tendência
seguida por 9 entre 10 militantes e simpatizantes do Software Livre e
vem se arrastando até hoje.

Fomos absurdamente inocentes. Realmente acreditamos que jogaríamos
esse jogo, sob as regras do mercado, no campo do mercado e ainda assim
ganharíamos. Fomos cooptados como movimento e o Software Livre,
lentamente, foi convertido de um posicionamento filosófico, social e
político, em um modelo de produção mais eficiente. GNU+Linux virou
Linux, Livre virou Aberto (Free --> Open), Linus virou o "pop star" do
movimento enquanto Stallman foi escanteado e Software Livre virou FOSS
ou FLOSS, para poder apagar de vez qualquer dúvida do quanto eram
tecnicamente superiores e ideologicamente insignificantes.

Eu acordei desse encanto em 2012 quando me dei conta de que estava
completamente dependente das ferramentas do Google. Em um artigo
comuniquei que estava deixando de usá-las e até escrevi um HowTo de
como proceder. Foi nesse mesmo ano que a Canonical decidiu embutir um
spyware no Ubuntu, a distribuição que eu usava, e isso me fez ainda
mais atento aos detalhes do que eu estava chamando de Software Livre.

Desde então tenho me dedicado a alertar os militantes do Software
Livre sobre o encantamento no qual se encontram, implorando que
despertem e percebam que apesar de acharem que estão fazendo o bem,
estão ajudando a enganar as pessoas, estão distribuindo software não
livre e, consequentemente, matando o Movimento Software Livre.

É claro que eu não poderia sair incólume. Apontar os erros dos outros
é uma tarefa ingrata. Especialmente porque, estou me dirigindo a
pessoas com um intelecto privilegiado, capacidade avançada de
pensamento cognitivo e com muitos anos de militância na bagagem. Os
argumentos estão sedimentados e as meias-verdades estão sedimentadas
como verdades absolutas. E essa reação é tão forte, que os argumentos
chegam a beirar o surrealismo, como insistir em dizer que o Linux é
Software Livre.

Então, depois de anos recebendo criticas e toda sorte de acusações,
decidi fazer uma auto entrevista comigo mesmo - pleonasmos propositais
- para esclarecer algumas perguntas que sempre me fazem. Então se
preparem, a tarefa de auto trolagem não é nada bonita.

P: Quem você pensa que é para falar em nome do Software Livre? Você
não acha que seus 5 minutos de fama já acabaram?

Puxa vida! Eu não sou ninguém. Sempre repito isso, mas as pessoas
tendem a ignorar. Eu não faço parte da FSF ou nenhuma outra
organização formal. Não represento ninguém. Sou apenas um militante
ativo. Então eu não sou ninguém!

Não me acho melhor nem pior do que ninguém. Mas é interessante como os
criticos conseguem ser malvados. Eu nunca sofri tantos ataques de
caráter pessoal em toda minha vida. O mais triste é que eles vem de
pessoas supostamente esclarecidas, inteligentes e oriundas do próprio
Movimento Software Livre.

P: Você critica muito e fala muito, você contribuiu com algum projeto
de Software Livre?

Como disse antes eu sou um militante do Movimento Software Livre e
portanto, é inevitável que eu tenha feito e continue contribuindo. Sou
fundador do G/LUG-PB - Grupo de Usuários GNU/Linux da Paraíba, ajudei
a realizar alguns eventos, como o ENSOL - Encontro de Software Livre
da Paraíba, desenvolvi alguns Softwares Livres como o LESP, lesp-cel e
KyaPanel (antes chamado de JeguePanel), contribuí para diversos outros
projetos traduzindo e mandando pequenas contribuições e correções, e
sou mantenedor do primeiro POD (servidor) Diáspora no Brasil. Sei que
não é muito, mas tento fazer a minha parte.

P: Você sabe compilar um software?

Sei sim. Inclusive o kernel linux-libre :-)

P: Você acredita em Deus?

Não. Sou ateu desde criança.

Costumo dizer que sou ateu, materialista, dialético, graças a Deus! :-)

P: Você é comunista?

Sou socialista, que é o embasamento ideológico do comunismo. O
Comunismo é uma tentativa pragmática de aplicar o Socialismo. Mas se
você quiser saber eu sou Fidelista sim. Tenho família em Cuba e
conheço bem os problemas e méritos do sistema Cubano. Prefiro 1000x
uma sociedade igualitária e com os melhores índices sociais das
Américas às desigualdades mantidas propositadamente pelo capitalismo.

E antes que me mandem ir para Cuba, permita que lhes diga que eu já
tentei. E 1998 fui a Cuba a passeio e pedi para ficar. Não me
deixaram. Hoje não há mais espaço para uma mudança desse tipo,
constitui família e tenho uma carreira profissional. Mas não deixo de
lutar pelos meus ideais políticos aqui mesmo no Brasil. Sou Brasileiro
e não desisto nunca!

P: Você acha que o Movimento Software Livre tem viés de esquerda?

Acho que sim. Não foi algo pensado ou planejado. O próprio Stallman
diz que se trata de um movimento social e político que empodera o
usuário através do acesso ao código, para mudar a relação de poder
entre os usuários e os fornecedores de tecnologia. Hora, na minha
compreensão, todo movimento que empodera o cidadão em detrimento das
corporações é um movimento de cunho socialista. Além disso o próprio
caráter distributivo, igualitário e comunitário fazem do Software
Livre um movimento de esquerda.

P: Então se você é socialista você acha que não se deve ou não se pode
ganhar dinheiro com Software Livre?

Nada disso. Pode-se e deve-se gerar riqueza com Software Livre. Apenas
o modelo de como se faz isso é que deveria ser repensado. O modelo que
eu mais gosto é o de Cooperativa, nos moldes da COLIVRE, mas
respeitando as leis vigentes, respeitando às liberdades do software
segundo as definições da GPL e adotando uma abordagem mais humana de
fazer negócios (isso é possível?) então ta de boa ganhar grana com
Software Livre.

Se quiserem mais exemplos de como se faz isso, basta assistir as
dezenas de palestras do Jon "maddog" Hall. Inclusive ele está
empenhado em um agora mesmo: o Projeto Cauã.

P: Você critica muito o uso das redes sociais, inclusive às chama de
Redes Devassas, mas você tem uma conta no Twitter? Você não se sente
agindo de ma fé, algo como" faça o que eu digo, mas não o que faço"?

Sim, me sinto assim, mas não é algo verdadeiro. Eu não defendo, nem
cobro de ninguém 100% de uso de Softwares Livres. Acho que não é
possível neste momento. O meu objetivo é tirar as pessoas de sua zona
de conforto e fazer com que percebam que passaram, perigosamente, do
limite. Usar uma rede ou outra, um software não livre ou outro não é
um problema tão grave assim. Mas quando você perceber que quase tudo o
que faz no seu dia a dia, depende de uma rede devassa, de um serviço
on-line privativo ou de um software não livre, então é hora de
repensar. O mais grave é que tem gente que está nessa situação,
defende que deve ser assim mesmo e ainda se define como ativista do
Software Livre. Faz sentido?

Se eu quantificar o percentual de softwares não livres + redes
devassas que uso, em relação aos Softwares Livres e redes sociais
livres, seria algo me torno de 10%. Então usar o Twitter, com clientes
livres (Twidere e Hotot) para não me isolar do mundo, não me parece
uma falta de coerência tão grave assim. Não sou perfeito e não estou
pedindo que ninguém seja.

Mas usar Google, Gmail, Hangout, Skype, Steam, iPhone e ainda falar em
liberdade tecnológica e palestrar sobre Software Livre é meio
ridículo.

P: Você sempre indica que sejam usadas as distribuições Linux
recomendadas pela FSF, mas você mesmo usa openSuse. Porque?

Eu sou um profissional de TI. Sou consultor de Tecnologias Livres e
preciso me manter atualizado com as últimas novidades disponíveis em
Software Livre. Em 2012, depois da trairagem da Canonical com o seu
spyware eu deixei de usar o Ubuntu, que tinha sido meu sistema
operacional por 6 anos. Fui apresentado ao openSuse pela amiga e
também militante do Software Livre, Izabel Valverde e gostei muito, em
especial da versão Tumblebee considerada instável e que libera sempre
as últimas versões de tudo. Mas é claro que tomei o cuidado de
substituir o kernel que vem nele pelo linux-libre.

O meu problema pessoal com as distribuições recomendadas pela FSF é o
tempo de atualização. Esse é um problema para mim, mas não para a
maioria dos usuários comuns. Se a ideia é ter um sistema operacional
estável, seguro e realmente livre, opte por uma das sugeridas pela
FSF.

Apenas para esclarecer, já faz alguns meses que migrei para o Debian Sid :-)

P: E Android?

Uso sim. Não há outra opção viável no mercado. Até ensaiei um Firefox
OS, mas ele não é estável o suficiente e ai terminou que ele foi
descontinuado. Android não é 100% livre, até porque isso não é
possível nos aparelhos comercializados hoje em dia. O Replicant, a
tentativa de um Android 100% livre esbarra na falta de drivers livres
para fazer o wifi funcionar, por exemplo.

O que faço é não usar os aplicativos do Google. Assim optei por usar
uma ROM chamara OMNI e sempre sugiro que usem a CyanogenMOD ou outra,
que seja o mais limpa possível. Sem conta do Google e usando
repositórios alternativos como Aptoide.com e F-droid.org. Será que
ficou claro que eu prezo pela possibilidade?

P: Você usa Ubuntu de alguma forma? Alguns testes nos seus servidores
indicam que sim e claro que isso não pega bem para quem dissemina o
#semUbuntu

Não uso Ubuntu desde 2012 em nenhum lugar. Eu contratei uma hospedagem
compartilhada na DreamHost.com que tinha seus servidores rodando
RedHat. Como se sabe, nesses casos você não tem nenhuma autonomia
sobre a distribuição que é utilizada. Assim, um belo dia, eles
migraram os servidores de RedHat para Ubuntu e foi assim que eu
terminei usando Ubuntu sem saber por algum tempo. Quando fui alertado
do problema tomei medidas imediatas.

Eu mantenho dois servidores próprios: um para a minha página pessoal e
outro de um serviço de hospedagem de e-mail KyaHosting e ambos rodam
sobre Trisquel.

Trisquel é uma distribuição mantida por um coletivo espanhol que se
dedica a remover TUDO o que não é livre das versões LTS do Ubuntu. É
tão bem feito e tão confiável que ganhou homologação da FSF. Mas tem
um porém: quando eles percebem que não é necessário tocar em algum
pacote, eles não mudam nem mesmo as assinaturas. Então programas como
Nginx e PHP informam que se trata de um Ubuntu, quando na verdade é
Trisquel. É um caso típico de falso positivo.

P: Vai bem dizer que você num usa um "softwarezinho" privativo aqui e ali?

Uso sim. As vezes é inevitável ou desejável. Um excelente exemplo de
inevitabilidade são os aplicativos de banco. Simplesmente não há
alternativa. Então se submeter ao uso de algum software não livre é
aceitável até mesmo para um ativista, mas não pode ser somente isso. E
o problema, em geral, é exatamente saber qual é o limite?

Na minha opinião o limite é aquilo que pode ser substituído, ou seja,
se há uma opção livre ela deve ser usada, mesmo com menos recursos. No
fim a pressão pelo uso de software não livre vem do mercado, ou seja
da demanda. Como a maioria das pessoas não se importa com a liberdade
do software, então a oferta de determinadas soluções é mínima ou
inexistente. É o caso dos drivers de wifi para smartphones.

Acredito que se a maioria das pessoas desse a devida importância ao
Software Livre e se dedicasse a exigir de seus fornecedores que
liberassem o código de seus programas, inclusive os drivers do
hardware, o cenário do mercado seria completamente diferente. É como
ser um tanto ecologista ou "natureba". O preço dos alimentos orgânicos
é absurdo porque a demanda é baixa. O interessante é que ninguém,
deliberadamente, quer consumir agrotóxicos. É como se todo mundo
esperasse o outro fazer a diferença. É o famoso "deixa que eu deixo" e
a bola termina no chão com ponto para o adversário. Neste caso é um
processo de auto flagelo, estamos nos condenando a consumir mais
veneno, mais tecnologia privativa, etc.

É um paradoxo: quanto mais as pessoas exercem sua liberdade de
escolher usar tecnologia sem se importar se ela é livre ou não, menos
livres elas se tornam. Isso gera um padrão de mercado, que termina
forçando os que se importam com a liberdade do software a enfrentar
sérios dilemas cotidianos: usar ou não usar, distribuir ou não
distribuir, recomendar ou não recomendar alguns softwares não livres.

P: Você sempre repete que o Linux não é Software Livre. Imagino que
esteja se referindo aos  blobs. Considerando que estes não fazem parte
do kernel, você não está sendo desonesto, fazendo FUD?

Isso é algo extremamente sem sentido: quanto mais eu digo a verdade,
mais me acusam de estar mentindo. Parece um universo paralelo,
espelhado. O linux é o kernel mais popular do sistema operacional GNU.
Há outros, mas infelizmente não tão usáveis. Será que você já parou
para pensar porque?

Precisamos definir o que é um kernel usável. Se por uma parte é o fato
dele ser bem feito e permitir o gerenciamento adequado do hardware,
sem dúvida. Mas há outro quesito fundamental que precisa ser
considerado: suporte ao hardware existente. O que poucas pessoas
parecem entender é que desde 1994 o Linus optou pelo pragmatismo em
detrimento da filosofia libertária do Software Livre. Desde esse ano
ele se utiliza de uma carência legal da GPL 2 para embutir software
não livre no kernel. Sim, isso mesmo, desde 1994. Então o arquivo
fonte que você baixa em kernel.org está tão recheado de software não
livre que a liberdade 0 - aquela que diz que você deve poder fazer
qualquer coisa com o software - não é respeitada. Portanto não é
magia, nem mesmo competência o que tem feito o Linux ser cada vez mais
compatível com uma vasta gama de hardware do mercado, mas sim a
infecção progressiva do kernel com mais e mais drivers não livres.

O mais interessante é que desde então a quantidade de softwares não
livres só aumenta. Chegamos a um ponto em que um fork do Linux foi
criado: linux-libre. Nele todos os softwares não livres são removidos
e o resultado é um kernel realmente livre.

Então, nem o Linux é Software Livre e também não é Open Source. Vejam
que ironia, porque até mesmo os defensores de uma certa dose de
pragmatismo ideológico estão levando uma rasteira daquelas. E se o
Linux não é FLOSS então Tux não nos representa.

P: Você faz parte da iniciativa #semUbuntu e sugeriu que o FLISOL, por
exemplo, não instalasse mais essa distribuição. Você não acha melhor
migrar um usuário de Windows para Ubuntu, do que não migrar?

O #semUbuntu é uma provocação simplista para mentes simplistas. Se o
kernel distribuído não é livre, parte dos softwares distribuídos não é
livre, então o Ubuntu não é livre. Se o sistema operacional não é
livre por que o Festival Latinoamericano de Instalação de SOFTWARE
LIVRE instala ele? Talvez porque a maioria dos voluntários que
realizam o FLISOL são iniciantes entusiasmados que foram apresentados
ao Linux e ao Ubuntu como sendo Software Livre, quando não o são.
Esses foram enganados e, infelizmente, estão ajudando a espalhar o
engano.

Honestamente acho que migrar um usuário de Windows para Ubuntu é
melhor do que não migrá-lo, mas desde que ele saiba que o que ele está
usando não é Software Livre. O mesmo pode ser dito de um smartphone:
prefiro um que use Android do que iOS ou WinPhone, mas isso não
implica dizer que o Android é Software Livre. A provocação aqui é que
se deixe claro para o instalador e para o usuário que o sistema
operacional que está sendo instalado não é livre. Assim ambos não se
deixam enganar e não propagam mais a enganação.

Se todos os realizadores do FLISOL assumissem um compromisso com os
valores no evento e do Software Livre eles fariam isso. E então
ficaria muito estranho ter que explicar para as pessoas que
aparecessem que vão instalar um Linux que não é livre, pois o que
geralmente leva as pessoas ao FLISOL é exatamente experimentar a
liberdade.

Então se for para migrar um usuário de Windows para Ubuntu, dizendo
para ele que ele está usando Software Livre, é melhor não migrá-lo.
Uma vez revelado que o Ubuntu não é livre, não faz mais sentido
instalá-lo e ai as opções seriam as distribuições indicadas pela FSF.

P: Mas você não acha ridículo deixar um usuário novato sem sua Wifi
funcionando somente para não instalar alguns Kb de software privativo?

O que é verdadeiramente ridículo é alguém defender o uso desses poucos
Kb de softwares não livres sem contar isso para os usuários. Acho que
existem opções claras de resolver esse impasse: explique bem o
problema para a pessoa, assim ela terá o direito de ficar indignada
com o fabricante; troque a placa wifi por uma que funcione com drivers
livres. É fácil e barato; pressione o Linus a não embutir softwares
não livres no kernel. O que não pode ser feito é enganar os usuários
iniciantes.

P: Você não acha que é muito rude, grosseiro e duro nos seus artigos?

Honestamente não acho. Ser explícito e contundente com pessoas que
sabem exatamente o que você está dizendo não é grosseria, é respeito.
É como dizer que um Procurador está sendo pernóstico por usar uma
redação demasiadamente jurídica em suas peças para apreciação da
plenária. Meus artigos e textos não estão direcionados aos iniciantes
e leigos. Tenho me dirigido aos Movimentos de Software Livre
existentes, aos ativistas, organizadores de eventos, aos já iniciados
e aos dinossauros salafrários que se camuflam por trás da pecha de
liberdade, linux e Software Livre para enganar as pessoas em benefício
próprio. Inclusive esses são os que mais reagem.

P: Todos dizem que você é muito radical. Você se considera radical,
"xiita" ou terrorista?

Engraçado isso. Dependendo de quem me classifica assim, pode estar
exageradamente certo ou absolutamente equivocado. Permita-me explicar.

Se quem acha que eu sou extremista for uma pessoa que não entende bem
o que é Software Livre ou um defensor do software não livre, então,
apesar do exagero, desde o ponto de vista ignorante dele, eu sou sim
um extremista, um radical. Afinal de contas quero que todos os
softwares do mundo sejam livres.

Mas se quem me acusa é um OSIsta ou um pseudo ativista do Software
Livre, então o ataque é uma tentativa de me desqualificar. Como eu
defendo o conceito original do Software Livre estabelecido pelo
Stallman, e o que essas pessoas estão tentando fazer é mudar esse
conceito, me considero um conservador empedernido. Eu quero que o
conceito seja mantido e respeitado.

P: Você não acha que está prestando um desserviço à Comunidade?
Provocando brigas, rachas e mal estar?

Na verdade eu espero estar causando rachas e mal estar. O objetivo é
exatamente desestabilizar os oportunistas que continuam querendo
colocar Software Livre e Open Source no mesmo saco, tudo junto e
misturado porque assim se encaixa melhor com suas ideologias de
mercado, porque assim atendem melhor aos seus interesses comerciais,
por que assim podem manter a imagem de consultores, especialistas,
profissionais de Software Livre, porque assim podem manter seu
prestígio construído sobre os alicerces da filosofia GNU sem ter que
respeitá-la.

Quando gero o antagonismo e provoco o contraditório, as mascaras caem
e o verdadeiro posicionamento de cada um se revela. Tem sido assim com
blogueiros, líderes de comunidades, organizadores de eventos,
jornalistas e toda sorte de pseudo ativistas que se escondiam na
sombra da área cinza que se gera quando se usa o acrônimo FLOSS(FOSS).

O conflito leva à discussão, que abre espaço para a reflexão e permite
um posicionamento mais honesto frente aos outros e para si mesmo.
Alguns veteranos do Movimento Software Livre, depois de lerem alguns
dos meus artigos tem me confidenciado - e em alguns casos assumido
publicamente - que não são mais defensores ou ativistas do Software
Livre. Afinal de contas ninguém é obrigado a concordar, aceitar e
seguir os preceitos filosóficos do GNU. O que não é produtivo é tentar
deturpar o seu significado e suas diretrizes para que se encaixem na
sua própria visão. Isso é desonestidade.

Estas são as minhas opiniões. Todos somos, ou deveríamos ser, livres
para fazer suas próprias escolhas. Não condeno quem opta por seguir um
caminho ideológico ou prático. Mas posso discordar e exercer meu
direito humano de expressão. Meu embate é com os iludidos,
desatenciosos ou falsos e mal intencionados que defendem a
convivência, complacência e uso de softwares não livres e ainda dizem
que isso é Software Livre. Faça sua escolha, siga o seu caminho, mas
não se engane e muito menos iluda outros.

Esse questionário foi pensado por mim, inspirado em muitas das
agressões e provocações que tenho recebido. Se você quiser me
perguntar qualquer outra coisa, fique à vontade e pergunta. Só peço
que o faça com educação e sem grosseria. Quem sabe em breve sai um
capítulo 2 do Auto Trolagem.

Saudações Livres!

--
Anahuac de Paula Gil

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