Também lembrei isso, Zé.
   
  Upa, Neguinho
(Edu Lobo/Guarnieri)
Upa, neguinho na estrada
Upa, pra lá e pra cá
Virge, que coisa mais linda
Upa, neguinho, começando andar,
Começando a andar, 
E já começa a apanhar!
  Cresce neguinho e me abraça
Cresce e me ensina a cantar
Eu vim de tanta desgraça
Mas muito te posso ensinar
Capoeira, posso ensinar
Ziquizira, posso ensinar,
Valentia, posso emprestar
Mas liberdade só posso esperar!
   
  A Negra Angela que citaram do Neguinho não é propriamente uma criança. Mas o 
Neguinho tem sim um ou dois sambas sobre crianças negras. Acho que um era da 
época em que o Joãozinho Trinta lançou um projeto social lá na Beija.
   
  E acho, tô lembrando vagamente, de alguma coisa chamada Menino de pé no chão. 
Veja aí, Artur, se isso existe.
   
  Tem o Pivete e o Meu Guri, do Chico, e também o Gênesis e Tiro de 
Misericórdia, de João e Aldir, e Onze fitas e Mais uma boca, da Fátima Guedes, 
mas isso a gente só sabe que é criança negra pelo contexto. Porque essas letras 
em si não citam a cor das personagens.
  
Gênesis,
  João Bosco & Aldir Blanc 
  
Quando ele nasceu
foi no sufôco...
Tinha uma vaga, um burro e um louco
que recebeu seu sete...
Quando ele nasceu
foi de teimoso
com a manha e a baba do tinhoso.
Chovia canivete...
Quando ele nasceu
nasceu de birra...
Barro ao invés de incenso e mira,
cordão cortado com gilete...
Quando ele nasceu
sacaram o berro,
meteram faca, ergueram ferro...
Exu falou: ninguém se mete!
Quando ele nasceu
Tomaram cana,
um partideiro puxou samba...
Oxum falou: esse promete...
   
  Tiro de Misericórdia
  João Bosco & Aldir Blanc 

O menino cresceu entre a ronda e a cana
correndo nos becos que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, Juramento, Urubu, Catacumba,
nas rodas de samba, no eró da macumba.
Matriz, Querosene, Salgueiro, Turano,
Mangueira, São Carlos, menino mandando,
ídolo de poeira, marafo e farelo,
um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
imperador dos morros, reizinho nagô,
o corpo fechado por babalaôs.

Baixou Oxolufã com as espadas de prata,
com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou Cão-Xangô com o machado de asa,
com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E Oxossi com seu arco e flecha e seus galos
e suas abelhas na beira da mata.
E Oxum trouxe pedra e água da cachoeira
em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
e um batalhão de mil afogados.

Iansã trouxe as almas e os vendavais,
adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-Maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
lançando a doença pra seus inimigos.
E Nana-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.

Exus na capa da noite soltara a gargalhada
e avisaram a cilada pros Orixás.
Exus, Orixás, menino, lutaram como puderam
mas era muita matraca e pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do Pendura-Saia,
Zumbi menino Lumumba tomba da raia
mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
arcanjos velhos, coveiros do carnaval.

- Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
em cada cruz?

- Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus...

Grampearam o menino do corpo fechado
e barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
e a misericórdia no último tiro.

Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
num jogo cercado pelos sete lados. 
   
  Onze fitas
(Fátima Guedes)
  Por engano, vingança ou cortesia
Tava lá morto e posto, um desgarrado
Onze tiros fizeram a avaria
E o morto já tava conformado
Onze tiros e não sei porque tantos
Esses tempos não tão pra ninharia
Não fosse a vez daquele um outro ia
Deus o livre morrer assassinado
Pro seu santo não era um qualquer um
Três dias num terreno abandonado
Ostentando onze fitas de Ogum
Quantas vezes se leu só nesta semana
Essa história contada assim por cima
A verdade não rima
A verdade não rima
A verdade não rima... 

   
  Mais uma boca
  (Fátima Guedes)
  Quem de vocês se chama João?
Eu vim avisar, a mulher dele deu a luz
sozinha no barracão.
E bem antes que a dona adormecesse
o cansaço do seu menino
pediu que avisasse a um João
que bebe nesse bar,
me disse que aqui toda noite
é que ele se embriaga.
Quem de vocês se chama esse pai
que faz que não me escuta?
É o pai de mais uma boca,
o pai de mais uma boca.
Vai correndo ver como ela está feia,
vai ver como está cansada
e teve o seu filho sozinha sem chorar, porque
a dor maior o futuro é quem vai dar.
A dor maior o futuro é quem vai dar.
E pode tratar de ir subindo o morro
que se ela não teve socorro
quem sabe a sua presença
devolve a dona uma ponta de esperança.
Reze a Deus pelo bem dessa criança
pra que ela não acabe como os outros
pra que ela não acabe como todos
pra que ela não acabe como os meus
  
 
  Abs,
  Jorge

"Jose L. Vivas" <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
  Upa, Neguinho, de Edu Lobo e Giangrancesco Guarnieri.

JLV


>> At 01:48 a.m. 04/12/2006 -0200, Artur de Bem wrote:
>>
>>>Estou precisando de uma letra de samba, ou poema, ou qualquer coisa do
>>>gênero sobre criança negra...
>>>
>>>Procurei na minha discografia e não achei nada específico de criança
>>>negra... ou fala de criança ou de negro...
>>>
>>>Pensei até em ponto de umbanda, talvez tenha algo, mas tenho q expôr em
>>>sala de aula, teria que levar um atabaque e alguém que saiba tocar pra
>>>aula mas não creio que de muito certo isso...
>>>
>>>Alguém conhece algum samba ou poema que fale de criança negra?
>>>
>>>Obrigado.
>>>
>>>Felicidades, um forte abraço e um grande beijo.
>>>
>>>Artur de Bem Silva.
>>>http://www.arturdebem.blogspot.com
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>>>E o povo continua cantando: "Foi em Diamantina, onde naisceu JK, que a
>>>Princesa Leopoldina, arresolveu se casá..." (Sérgio Porto)
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