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Assis Valente: um esquecido clássico da música
Quarta, 28 de março de 2007, 08h10
Por: Paquito
Assis Valente e Dorival Caymmi são os compositores baianos mais importantes
da história da canção brasileira anterior à bossa nova. Caymmi,
justificadamente, tem sido sempre cantado e laureado ao longo dos anos.
Assis, por incrível que pareça, é pouco lembrado e, por apenas meia dúzia de
canções (Brasil pandeiro, Boas festas, Fez bobagem, Camisa listada, Alegria
e E o mundo não se acabou), todas clássicos da nossa música. João Gilberto
sempre cantou Assis em shows, mas nunca o gravou, passando a bola pros Novos
Baianos, que relançaram Brasil pandeiro no antológico Acabou chorare, de 72.
Caetano citou um trecho grande de Alegria (parceria com Durval Maia) em
Festa Imodesta, gravada por Chico Buarque em 75. Nara e Bethânia cantaram,
respectivamente, Fez bobagem e Camisa Listada e, juntas, Minha embaixada
chegou. E, mais recentemente, Adriana Calcanhoto reinterpretou E o mundo não
se acabou. É pouco pra o segundo compositor mais gravado por Carmem Miranda
(Ary Barroso é o primeiro), criador da canção junina (Cai cai balão)e autor
da mais bela música de Natal (Boas Festas). Ainda mais, quando se leva em
conta que Assis é um compositor originalíssimo, cuja obra não perdeu o vigor
com o passar do tempo.
Assis era um cronista sutil do Brasil das décadas de 30 e 40, fazendo
transparecer as tensões sociais através da leveza e do humor provocativo,
aproximando-se, nesse sentido, de Noel Rosa. Mas Assis não é um virtuose
verbal como Noel, é mais direto e sexualmente mais malicioso, como se pode
ver na estrofe final de E o mundo não se acabou, na qual o sujeito,
acreditando no boato de que o apocalipse estaria próximo, diz: "chamei um
gajo com quem não me dava/ e perdoei a sua ingratidão/ e festejando o
acontecimento/ gastei com ele mais quinhentão/ agora eu soube que o gajo
anda/ dizendo coisa que não se passou/ vai ter barulho e vai ter confusão/
por que o mundo não se acabou".
Comparando Assis a Ary Barroso, os dois fizeram sambas-exaltação, mas o
primeiro é desafiador em Brasil pandeiro, algo impensável no Ary de Aquarela
do Brasil. E, mais interessante, Assis Valente consegue ser ufanista e
crítico a um só tempo, no samba-choro Recenseamento, obra-prima gravada por
Carmem Miranda: "Em mil novecentos e quarenta/ lá no morro começaram o
recenseamento/ e o agente recenseador/ esmiuçou a minha vida que foi um
horror/ e quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança que no
chão dormia/ e perguntou se meu moreno era decente/ se era do batente ou era
da folia/ / obediente, sou a tudo que é da lei/ fiquei logo sossegada e
falei então/ o meu moreno é brasileiro, é fuzileiro/ e é quem sai com a
bandeira do seu batalhão/ a minha casa não tem nada de grandeza/ nós vivemos
na fartura sem dever nenhum tostão/ tem um pandeiro, tem cuíca e tamborim /
um reco-reco, um cavaquinho e um violão". Há nestes versos a descrição da
pobreza aliada à consciência do manancial de cultura de origem popular ¿ no
caso, a música - como seminal pra definir nossa identidade. Mais adiante, a
protagonista do samba passa do concreto (cavaquinho, violão etc) ao
simbólico na exibição de suas (nossas) riquezas: "Fiquei pensando e comecei
a descrever/ tudo tudo de valor que o meu Brasil me deu/ um céu azul, um pão
de açúcar sem farelo/ um pano verde e amarelo/ tudo isso é meu".
Em Elogio da raça, Assis é abusadamente baiano, quando diz que "autoridade
tem que dar/ carta branca para o nego vadiar" e justifica: "pois ele é um
cavalheiro/ e basta ser brasileiro/ pra saber se comportar". Ao contrário da
malandragem cantada pelos sambistas do Estácio e por Noel, a vadiagem em
Assis adquire status de bem cultural, sempre de baixo pra cima, subvertendo
a oficialidade.
Porém todo enaltecimento da alegria e da "gente bronzeada" deixam entrever
uma poética do dilaceramento, como em Alegria: "vou cantando/ fingindo
alegria/ para a humanidade não me ver chorar". Muito já se falou da
bissexualidade de Assis e da sua nebulosa origem familiar pra justificar o
sujeito dividido que transparece em suas canções, mas o que importa aqui é
demonstrar a pertinência estética da sua música, presente em canções menos
conhecidas, mas tão boas quanto seus clássicos. Lembro de uma conversa com
Caetano, na qual ele mostrava-se admirado ante à excelência da parte mais
obscura da obra de Assis Valente, que não se encontra em lps ou cds
comercializados.
Desta safra, em Foi pouco, a auto-ironia soa desconcertante: "meu amor me
desprezou/ me abandonou/ foi pouco/ estou ficando louco/ já perdi o jeito/
bem feito". Já em Deixa o passado, a eloqüência é a de um punk avant la
lettre, e para dar esse efeito, a interpretação intensa do Bando da Lua é
perfeita: "deixa o passado/ deixa o passado morrer/ sem ninguém ter piedade/
(...)se recordar é viver/ eu prefiro morrer/ para não recordar".
Mas Assis é muito mais. Assim como Lamartine Babo, de quem foi parceiro, é
pop-dadaísta em Uva de caminhão: "caiu o pano da cuíca em boas condições/
apareceu Branca de Neve com os sete anões/ e na pensão de Dona Estela foram
farrear/ quebra quebra gabiroba quero ver quebrar". Em É feio, mas é bom,
gravada por Almirante, é enfocado o preconceito de que a música popular tem
sido alvo, vista como algo menor, mas o viés aqui é o deboche: "É feio, mas
é bom/ deixa quem quiser falar/ a mulata quando samba/ de alegria fico
cheio/ a mulata se requebra/ eu acho bom mas acho feio".
Diante de uma sensibilidade tão afinada, nem uma biografia decente foi
escrita sobre esse baiano. Sobre o livro A jovialidade trágica de José de
Assis Valente, assim se refere Caetano Veloso com acuidade no encarte do
disco Tropicália 2: "Assis Valente não merecia aquele casal de biógrafos
espíritas que teimaram em tratar sua vida sexual no mesmo clima
obscurantista de dissimulação e subterfúgios que era a regra no tempo em que
ele viveu e que provavelmente contribuiu para levá-lo ao suicídio".
Por tudo isso, Assis Valente merece ser revisto, cantado, recontado e
redescoberto para o bem de quem quer que tenha acesso a uma obra tão rica e
reveladora. Por que as gravadoras detentoras dos fonogramas não lançam cds
com este Assis menos conhecido nas gravações originais? Provavelmente,
porque as gravadoras não devem ter as gravações originais. Então, que
recorram a colecionadores como Leon Barg, da Revivendo e a outros pra
revelar ao Brasil o Brasil de Assis.
Paquito é músico e produtor.
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