Jornal Folha de São Paulo, de 31.08.2007 (Sexta-Feira), Caderno ILUSTRADA.


Não tenho dúvida que os caras fazem um samba legal, mas essa história de só tocar sambas da antiga, renegando os bons sambistas da atualidade, tá me parecendo um "reamake", uma pseudo LAPA, sem a originalidade da primeira. E mais, os caras tem mais é que procurar sua própria sonoridade. :-(


Abraços. Sonia Palhares (BsB-DF)



Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3108200707.htm


Radicais do SAMBA


Terreiro Grande, formado por amadores, toca antigos sambas cariocas, com a sonoridade que se ouvia nas escolas entre as décadas de 30 e 50, e que hoje não existe mais


LUIZ FERNANDO VIANNA

EM SÃO PAULO

Como explicar que 15 amantes radicais de samba não gostem de Zeca Pagodinho? É porque eles são radicais, e aí estão a peculiaridade e a qualidade desse grupo.

Embora paulista, o Terreiro Grande toca apenas antigos sambas cariocas, com a sonoridade que se ouvia nas escolas de samba do Rio entre as décadas de 30 e 50, e que hoje não existe mais nem entre as velhas-guardas.

A opção não é capricho de jovens de classe média. O grupo é formado por 15 músicos amadores, moradores de bairros de classe média baixa de São Paulo, nenhum com curso superior (um porteiro, um metalúrgico, dois vendedores, um auxiliar administrativo, cinco desempregados...), e o que eles dizem menos querer é sucesso.

"Nosso coração não fica preocupado com carreira comercial. Queremos tocar o que a gente gosta, tomando umas [cervejas], numa união de amigos", diz Fernando Pellegrino, 28, o Tuco, bom cavaquinista e cantor que, já tendo sido bancário, hoje ganha a vida pondo anúncios em bancos de praça.

Eles não vêem contradição por estarem lançando agora o primeiro CD, "Cristina Buarque e Terreiro Grande ao Vivo", resultado de um show feito em 2006 no teatro Fecap - onde fazem nova temporada entre 13 e 16 de setembro.

O disco tem produção independente, distribuição da independente Tratore, quatro longas e anticomerciais faixas abrigando 37 músicas e foi feito da maneira que eles gostam (ou quase, pois tiveram que usar microfones): em clima de roda de samba, como as que fazem em pelo menos um domingo por mês no bar Patriota, vulgo bar do Alemão, no Tatuapé.

No último domingo, menos de cem pessoas ouviam no bar sambas de primeira linha bem tocados e cantados. Não há divulgação nem couvert, e os músicos pagam as (não poucas) cervejas que consomem ao longo da tarde. Mas o Terreiro Grande não é só hedonismo.

"Cuidamos da memória sem descuidar da revolução", afirma o representante comercial Roberto Didio, 32, responsável pelo surdo e por boa parte das idéias do grupo. Ele se diz socialista e "xiita".

Política e cultura

Em 2001, Didio, Tuco, Careca (percussionista de nome João Gilberto e filho de roqueiro), o violonista Alexandre Cardoso e outros criaram o Grêmio Recreativo Tradição e Pesquisa Morro das Pedras, em São Mateus (zona leste).

O objetivo político-cultural era transmitir a tradição carioca do samba de terreiro - como se chamavam as antigas quadras de escolas de samba- para pessoas da região, além de dar aulas de capoeira e oficinas diversas. Isso foi feito também na Barra Funda, para onde a sede se transferiu em 2003.

"Queríamos espalhar uma célula em cada bairro da periferia", conta Didio. Essa missão fracassou, mas os núcleos atraíram muita gente que, a partir de 2006, passou a integrar o Terreiro Grande. São jovens que têm como maiores ídolos Cartola (1908-1980), Paulo da Portela (1901-1949) -que, além de grande compositor, era líder político- e Candeia (1935-1978), "a última pessoa a se preocupar com alguma coisa além da carreira", na visão de Didio.

"Respeito o desejo deles de não procurar o sucesso, de tocar samba de uma forma mais natural, porque é também o que eu gosto. Mas acho possível divulgar um pouco mais o que eles fazem", diz Cristina Buarque, que convidou o grupo para dividir o palco com ela no ano passado.

No repertório do CD, estão 26 sambas de antigos compositores da Portela, com um andamento bem mais lento e leve do que se faz hoje.

A sonoridade atual tem origem nos anos 80, quando a geração de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Arlindo Cruz criou o que a indústria fonográfica batizou - e depois deturpou - de pagode, assentado sobre três instrumentos então novos no samba: banjo com braço de cavaquinho, repique de mão e tantã.

"O som convencional de hoje agride nossos ouvidos", afirma Tuco, com o apoio dos outros integrantes do Terreiro Grande, que dizem não ouvir Zeca Pagodinho. Já Alvaiade, Manacéa, Chico Santana, Zé da Zilda e outros que pouca gente conhece são ídolos que eles cultuam em gravações copiadas e trocadas com avidez.

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