Gente,
Vem aí o aguardadíssimo segundo CD solo do Cláudio Jorge. Quem conhece
o primeiro, Coisa de Chefe, sabe que a expectativa é elevada.
O CD chama-se "Amigo de Fé" e vai ser lançado no próximo dia 2 no
Teatro Rival, no Rio. Nesta segunda feira, haverá a primeira audição
do CD no Bar Getúlio! E já vai ter disco à venda, em primeiríssima
mão.
Já ouvi algumas faixas e posso assegurar que vem por aí o (como é
mesmo?) "disco de samba do ano". Falando sério! hehehe
Segue abaixo o release assinado por Hugo Sukman.
Abs
Alan Romero
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Cláudio Jorge
Amigo de fé
Por HUGO SUKMAN
É o afeto que guia Cláudio Jorge pelos caminhos da música e da vida.
Quem tem a honra e o prazer de conhecer esse músico (palavra que
talvez faça jus a um violonista, guitarrista, compositor, letrista,
cantor, produtor, agitador, pensador, escritor, crítico, boêmio,
empresário...), carioca e botafoguense do Cachambi hoje docemente
exilado numa ladeira de Laranjeiras e freqüentador obsessivo das
vielas de Lisboa, saberá logo que não há pessoa melhor. Amigo de fé
(Carioca Discos), seu terceiro disco autoral, é cristalino reflexo
disso: a transformação dessas duas palavras, "amigo" e "fé", em sambas
e canções, tudo guiado com muito talento e sinceridade pelos caminhos
do afeto.
Se no CD anterior, a obra-prima "Coisa de chefe" (Carioca Discos,
2001), o tema e o motivo eram o samba, ou o como fazer um samba ao
mesmo tempo moderno e eterno no século XXI, neste Amigo de fé, tema e
motivo são as relações que dão sentido à vida. Cada letra, cada música
fala disso, cada músico (os melhores do Brasil na atualidade),
parceiro ou artista participante chegou aqui pelos caminhos da amizade
e do trabalho diários. Tudo, de cada canção à forma de produção
independente, é resultado, de fato, da vida. Daí a sinceridade que
salta aos ouvidos de uma música feita com calma, no decorrer do tempo,
sem a pressa do profissionalismo, mas com o alto nível de exigência
deste.
Mas mesmo a mixagem – algo normalmente tratado de forma fria, técnica
– aqui ganha ares de encontro. Há primeiro um encontro real, com o
velho amigo e parceiro Guilherme Reis, sócio de Cláudio Jorge na
gravadora Carioca Discos, um dos maiores engenheiros de som e mixagem
da música brasileira. E há, na mixagem, um encontro do violão e das
harmonias de Cláudio Jorge com as vozes e a percussão. Ouçam
Estrelinha e Conchinha, ou qualquer faixa de Amigo de fé, e tentem
lembrar de uma mixagem mais generosa para o instrumento do compositor
e sua canção (Afinal, o que se esperava de um disco do maior
violonista de samba? Não seria o seu violão?).
Assim como a mixagem, a capa fotografada por Bruno Veiga é também
resultado de afeto, de uma longa parceria entre o compositor e o
fotógrafo, autor de todas as capas da Carioca Discos e hoje
seguramente o fotógrafo mais dedicado ao samba no Rio de Janeiro.
Estrelinha e Conchinha
O hipnótico ijexá que abre o CD, bem poderia resumir suas intenções:
um disco sobre afeto e amizade. Cláudio Jorge o inicia tratando da
relação do homem com a eternidade, na sua visão de alguém
profundamente religioso. Estrelinha e Conchinha é uma celebração do
encontro (ou seja, da amizade): do homem com a eternidade, de Oxum com
Iemanjá, das águas do rio com as águas do mar. A música foi
"encomendada" pelas próprias Estrelinha e Conchinha, dois Erês a quem
o compositor encontrou certa vez num ritual de candomblé, sua
religião. O coro infantil Toca o Bonde – Usina de Gente, regido por
Silvia Passaroto, e a percussão afro-brasileira de Zero, reforçam a
atmosfera de encontro.
Amigo de fé
Samba de formato clássico, elegante como todos os seus sambas, Amigo
de fé fala por si em relação ao espírito do disco: "O amor é difícil
quebrar/Amigo de fé nada pode separar", diz a letra de Ivan Wrigg,
primeiro parceiro de Cláudio Jorge. A amizade como panacéia para todos
os males do mundo ("E o balão vai queimando/E o time perdendo no
futebol/Só falta o sol dar um curto/E o céu apagar") reflete-se
novamente na produção da faixa, no arrasador arranjo de metais de
Humberto Araújo (também nos saxofones), com quem Cláudio Jorge já fez
tantos trabalhos (como produção e arranjos do disco Sincopando o
breque, de Nei Lopes) e a quem admira tanto como amigo e arranjador.
Devagar com o andor
O partido alto celebra um amigo tão importante que Cláudio Jorge o
traz constantemente abraçado ao peito: o violão. E de quebra, a letra
traz uma espécie de manifesto humanista do autor, traz toda a sua
visão de mundo, presente também no bom gosto, na sofisticação
harmônica que ele põe sobre este gênero primordial de samba.
Laços no tempo
A bossa nova feita por Cláudio Jorge para sua mulher Renata, prossegue
no caminho do afeto celebrando o amor. Mostra um Cláudio Jorge
inspiradíssimo como letrista ("Você é zen e faz tai chi chuan/E eu,
meu bem, projeto de Ogã/Nas diferenças somos iguais/Buscando a paz no
amor"), cantando o fino e contando com o arranjo de cordas de outro
velho parceiro, outro velho amigo, o maestro carioca Gilson
Peranzzetta.
Coisas simples
Eis uma parceria com um Elton Medeiros em grande forma, numa daquelas
melodias que poderia receber letra de Paulinho da Viola, de Hermínio
Bello de Carvalho, de Cartola. E que recebe, de Cláudio Jorge, uma
outra ode ao afeto: "Um beijo, um abraço, um olhar/ Um chope, um bom
papo e o luar/ São coisas simples que a paixão/ Vem pra valorizar".
Terceiro amigo/arranjador a entrar em campo, Leandro Braga injeta
sopros suingadíssimos ao samba. O suíngue é reforçado pela
participação especial de Mauro Diniz no cavaquinho, com a elegância
compatível para um filho de Monarco num samba de Elton Medeiros e
Cláudio Jorge. Se isso não é um clássico, o que mais seria?
Recado pro Elton Medeiros
Decano dos grandes melodistas do samba, o parceiro volta como
homenageado em Recado pro Elton Medeiros, talvez o primeiro samba
inspirado num recado de secretária eletrônica, cujo resultado em letra
e música de Cláudio Jorge não deixa a menor dúvida sobre a relação
entre o afeto e a composição: "Meu irmão, mas que prazer/ Teu recado
eu encontrei/ Me bateu uma saudade/ De bons momentos lembrei/ O efeito
de tanta emoção/ Pro papel já repassei/ Deixo em formato de samba/ O
tanto que me emocionei". Silvério Pontes no trompete e Zé da Velha no
trombone (aliás, instrumento original de Elton) dão o toque de samba
de gafieira à faixa.
Melhor assim
Lundu de cantigas vagas
Traz um presente pra mim?
O afeto arrebatador e agitado da paixão é representado por um outro
grande samba, Melhor assim, com Nei Lopes. Já o prazer do dia-a-dia do
amor tranqüilo e profundo é celebrado em claves diferentes por Lundu
de cantigas vagas e Traz um presente pra mim?. O lundu é outra
parceria com o velho amigo Nei Lopes. Trata-se de uma obra-prima e uma
conspiração de afetos: embalado pela viola caipira erudita de Marco
Pereira, Cláudio Jorge atualiza o velho e plangente lundu, uma das
matrizes da moderna música brasileira, com direito a letra caudalosa e
sofisticada de Nei ("Bem por trás daquela serra/ Naqueles longes
confins/ Mora a flor mais olorosa/ No mais belo dos jardins"). Já Traz
um presente pra mim?, um samba sincopado de malandro com a marca do
parceiro Wilson das Neves, traduz como é gostoso voltar para casa
depois das viagens de trabalho e reencontrar a mulher amada, numa
outra aula de letra de Cláudio Jorge (notem que, aliás, como ele vem
se tornando tão bom em letra quanto já era em música...). Os sopros
calorosos vêm de outro arranjador craque e parceiro, Itamar Assiére.
Esboço
Se a parceria com Wilson das Neves celebra a volta de viagem, a
singela canção Esboço é a própria viagem, é o encontro de Cláudio
Jorge com o parceiro d'além mar, o poeta angolano Manuel Rui (que
participa da gravação declamando seus versos). Essa relação com Europa
e África lusófona é resultado do trabalho de músico de Cláudio Jorge,
das suas várias viagens anuais como violonista do conjunto de Martinho
da Vila. Notem que, na ficha técnica de todas as faixas, como Cláudio
Jorge viaja pelas canções com os mesmos parceiros que viajam com ele
pelo mundo ao lado de Martinho: gente como o baixista Ivan Machado, o
baterista Camilo Mariano, os percussionistas Marcelinho Moreira,
Ovídio Brito, Paulinho da Aba e o flautista Victor Neto.
Músico profissional
Os colegas e a profissão são celebrados nesta outra parceria com
Wilson das Neves. Outra melodia incrível e letra idem, vejam essa,
afetuosa e cáustica: "É a isso que eu me dediquei/ E com muitos amigos
toquei/ Batera, baixo e piston/ Vocal, pandeiro e acordeom/ É uma
família feliz/ Embora viva por um triz/ Pois não são toadas as contas/
Que dão para pagar".
Alô Noel
Sou da Vila, não tem jeito
Martinho da Vila, "patrão" mas antes de tudo parceiro em tantas
canções, é o co-autor de Alô Noel, samba que traz ao painel de afetos
do disco dois dos afetos mais queridos de Cláudio Jorge: o bairro de
Vila Isabel, onde os músicos brasileiros viveram e vivem em intensa
boêmia, e à Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, da qual Cláudio
Jorge integra a Ala de Compositores e, por mais de uma década,
desfilou segurando a harmonia ao violão. A escola vem representada no
samba-enredo Sou da Vila, não tem jeito, famoso samba de quadra de
Vilani Silva, Rodolfo, Jaiminho e Saberás, que há anos é usado para o
"esquenta" da bateria antes da escola entrar na avenida.
Parceiros amigos
Provavelmente hoje o parceiro mais constante, também Botafogo e Vila
Isabel, Luiz Carlos da Vila é o co-autor de Parceiros amigos, outro
samba delicioso que fala por si. Samba de feição clássica de Cláudio
Jorge, serve para a profusão de imagens típicas do gênio de Luiz
Carlos numa celebração da parceria, dos amigos de fé e trabalho: "A
tua poesia com o meu violão/ Parceiros amigos na mesma inspiração". A
parceria de Luiz Carlos e Cláudio Jorge, aliás, extrapola a
composição: os dois andam juntos para cima e para baixo numa amizade
diária, que resultou, entre outros trabalhos, no disco "Matrizes"
(selo Rádio MEC, 2006), uma viagem pelos ritmos negros que
influenciaram a música brasileira, e que acabou transformando-se num
especial do Canal Futura, gravado ao vivo na Concha Acústica do Teatro
Castro Alves, em Salvador.
Samba da bandola
Parceiros e amigos que já não estão mais por aí também são lembrados.
Da prolífica parceria com João Nogueira, Cláudio Jorge retoma um velho
sucesso dos anos 70 que tem tudo a ver com este disco aqui, pela
celebração que faz da amizade: o Samba da Bandola. E no velho samba,
traz novíssimos parceiros músicos: Hamilton de Holanda (bandolim),
Rogério Caetano (violão de 7), Daniel Santiago (violão de 6) e Gabriel
Grossi (gaita), todos jovens músicos de Brasília radicados no Rio e
que vêm agitando o panorama musical brasileiro, numa performance de
arrepiar.
O independente
Sidney Miller, grande compositor morto precocemente aos 35 anos em
1980, é o parceiro no inédito samba enredo O independente, visão
irônica, amarga, mas sempre afetuosa sobre o país. No dia em que fez
este samba, o filho de Cláudio Jorge, Gabriel Versiani tinha acabado
de nascer, o que fez Sidney Miller dedicar a composição a ele. Agora,
cantor em início de carreira – grava o primeiro disco – Gabriel canta
o samba dedicado a ele junto com o pai, trazendo um afeto que faltava
ao painel, o de pai e filho.
Rosa Maria
Tudo é ilusão
O afeto de pai e filho volta nas únicas músicas do disco que não são
composições de Cláudio Jorge: o medley de dois sambas de Caxinê (o
apelido do grande compositor do Salgueiro e do bairro de Botafogo,
Éden Silva), Rosa Maria e Tudo é ilusão. Sambas de estilista, grandes
sucessos nos anos 50, eram os preferidos do pai de Cláudio Jorge, o
jornalista Everaldo de Barros, e do também jornalista Paulo Medeiros,
pai do produtor do disco, Paulinho Albuquerque.
Na rede de afetos que envolve este Amigo de fé, aliás, o nome de
Paulinho Albuquerque está em toda a parte. Trata-se do último
trabalho, antes de morrer, do produtor, sócio (na Carioca Discos) e
amigo da vida inteira de Cláudio Jorge. A ele o disco é dedicado, é
nele que Cláudio Jorge pensa quando fala em "Amigo de fé", e tudo de
bom que há neste trabalho, do bom gosto musical, do conceito, dos
grandes músicos, da concepção, tudo tem o jeito dele, Paulinho.
P.S.: O autor destas mal traçadas também é amigo, amigo à vera, de
Cláudio Jorge. Isso significa que o release também vem cheio de afeto.
O que, se o compromete com o julgamento da obra, é compatível com a
forma de como tudo foi feito. Trata-se de um ciclo que se completa
agora, que o ouvinte poderá mergulhar nesse amoroso mar (e notem que o
disco começa e termina na água, como, aliás, a vida).
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