Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_21.htm


Política cultural

Samba monumental


Restauração do Solar Subaé e abertura de centro de referência em Santo Amaro da Purificação representam a preservação do patrimônio material e imaterial do país


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Daniela Paiva
Enviada Especial



Santo Amaro da Purificação (BA) – Samba, gênero. Samba, festejo. Nas cidades do Recôncavo Baiano, a definição musical e a representatividade de celebração para os índios cariris estão no meio de qualquer roda, que surge discreta, com uma palma da mão inquieta, um chamado discreto. “O samba acontece espontâneo, depois das festas de 15 anos, dos aniversários”, conta Fátima Cruz, 49 anos, coordenadora do Samba da Capela da cidade de Conceição do Almeida. Na semana passada, esse e outros sambas ganharam abrigo para fortalecer e estimular ainda mais a naturalidade de sua presença. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério da Cultura inauguraram, na sexta-feira, a Casa do Samba de Santo Amaro. A iniciativa ocupa uma relíquia restaurada pelo Iphan com investimento de R$ 1,5 milhão e apoio do MinC: o Solar Araújo Pinho, conhecido como Solar Subaé. Erguida no final do século 19, a casa hospedou o imperador Dom Pedro II. Para receber a visita ilustre, o Conde de Subaé construiu o segundo pavimento, que torna a bela edificação um marco em Santo Amaro da Purificação. Em 1979, o espaço foi tombado como patrimônio histórico nacional.

A transformação em Casa do Samba estabelece uma interessante relação entre o patrimônio material (o solar) e o imaterial (o samba). Em 2004, o Iphan registrou o samba de roda como patrimônio cultural imaterial brasileiro. No ano seguinte, a Unesco o reconheceu como patrimônio da humanidade na categoria obra-prima do patrimônio oral e imaterial. Agora, a expectativa é de que a Casa do Samba se torne centro de referência do samba de roda do Recôncavo Baiano.

O projeto é formado por uma coalizão de forças: Iphan, Ministério da Cultura e a Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia. Em conjunto também com outras instituições, o grupo elaborou um plano de salvaguarda para o samba de roda, que inclui o centro. “Possuímos 10 registros do patrimônio imaterial no Brasil: frevo, jongo e vários outros”, explica Luiz Fernando de Almeida, presidente do Iphan. “Ao fazer o registro, estabelece-se um plano de salvaguarda, que são as ações para estruturar aquela forma de expressão, o saber, o conhecimento, a celebração.”

Atividades
Entre as atividades que deverão ser desenvolvidas na casa, estão previstas oficinas para fabricação da viola machete, o estímulo à produção e a instalação de um pontão de cultura para promover intercâmbio e difusão. A Associação dos Sambadores e Sambadeiras será responsável pela gestão da casa. “A gente espera desse conjunto de interessados e demandantes do que a gente considera salvaguarda, preservação, fomento em relação ao samba de roda que a casa seja um pólo, entre outros, de irradiação desses deveres, dessa responsabilidade”, propôs o ministro Gilberto Gil.

A noite de inauguração transcorreu como as definições do samba mandam: com festa e samba no pé. Mais de 30 grupos do Recôncavo Baiano e de fora apresentaram-se no palco para uma platéia animada de cerca de 5 mil pessoas. O evento teve a presença, além do ministro e do presidente do Iphan, de Dona Canô, que completou 100 anos no último domingo, do filho Caetano Veloso, do governador da Bahia, Jacques Wagner, entre outras personalidades.

As rodas enfeitaram todos os cantos do pátio e da área ao lado da casa com diversas manifestações ligadas ao samba e cores nas vestimentas floridas. Eram sambadores e sambadeiras que carregam o samba na veia, transmitido de pai e mãe para os filhos, que também redescobrem as raízes no miudinho, ou seja, na roda. “Sambo desde menina, minha mãe era sambadeira de viola”, conta Florinice da Silva Santos, 56 anos, que participa do Samba de Viola de Pitanga dos Palmares, na cidade de Simões Filho. “Sambo qualquer coisa. Até na palma da mão dá para sambar.”

A exuberância dos movimentos é motivo de vaidade. “É bom receber elogios”, acrescenta ela. De orgulho também. “As pessoas de lá conhecem o samba, mas não dão valor. Gostam de pagode, rock, reggae”, argumenta Juciara Santos de Lima, 18, que tem mãe a avó sambadeiras. “Quando sambo, me sinto lisonjeada, leve.” Vale a descrição para qualquer um que faça a festa num samba de roda.


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Seminário com uma pitada de polêmica


Após a inauguração da Casa do Samba de Santo Amaro, na sexta-feira passada, a programação de abertura do local seguiu no sábado, com o seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda. Na abertura, o ministro Gilberto Gil iniciou a fala pela origem do samba – ameríndio e luso-afro, pois, quando os portugueses desembarcaram no Brasil, o samba já existia na tribo cariri, alertou Gil – e relatou duas histórias relacionadas ao gênero musical.

Em 1972, de volta do exílio, Gil viajou pelo Nordeste e deparou com o samba por todas as regiões em que passou. “Eu dizia: por que tanto samba? O Nordeste é baião, xote, xaxado.” A resposta veio com o pai de Luiz Gonzaga, Januário: “Ele respondeu: samba é festa, não importa o gênero”. Em seguida, Gil relembrou um encontro com Rita Marley, mulher de Bob Marley, durante as gravações do disco Kaia n’gan daya (2002), na Jamaica. “Perguntei a ela como foi essa história do Bob Marley gravar samba do Brasil. Ela respondeu: o samba é modo de dançar, palavra dos índios daqui”. Gil concluiu: “Quis contar essas histórias para mostrar a imensidão do samba”.

Quatro temas ainda foram abordados: patrimonialização e salvaguarda de expressões culturais musicais, poéticas e cênicas, as “origens” do samba, batuques e sambas de umbigada. Samba, nação e MPB encerrou o evento com um diálogo interessante de explanações sobre o contexto social e político do nascimento do samba entre o antropólogo e pesquisador Hermano Vianna e o compositor, escritor e músico José Miguel Wisnik. Caetano Veloso relacionou a bossa nova com o samba e acrescentou polêmica numa conversa que desviou para o atual cenário político: absolvição de Renan Calheiros, entrevista de Fernando Henrique Cardoso para a revista Piauí e questão dos direitos autorais, sobre os quais Gil avisou que está preparando um fórum nacional. Caetano terminou com uma versão à capela de Pra que discutir com madame.

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A repórter viajou a convite do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

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