Oi de novo Caio. É muito bom trocar idéias com você e discordar faz parte. Pode discordar o quanto quiser, pois não somos donos da verdade. Respeito suas impressões e seus argumentos.
Reforçando o que escrevi na outra carta: -------------------------------------------------------------------------------- Sobre sua frase: "O Samba é uma expressão cultural de um povo oprimido e explorado na sua condição social por anos a fio e representou além de uma maneira de cultuar suas origens, como também como uma forma de resistência enquanto grupo social e étnico. Portanto fenômenos bem distintos." Muitas músicas não tem dança, muitas músicas foram criadas e depois se inventou uma dança. No caso do samba urbano do Rio a dança veio antes e as músicas (músicos), segundo os pesquisadores do assunto, se esforçavam para acompanhar os requebros dos bailarinos. Diferente do que leio frequentemente, inclusive aqui na lista. Acredito que parte significativa do que conhecemos hoje como samba deveria ser creditado, à valsa (dança), à polca (dança e música), à polca brasileira (dança), ao maxixe (dança e música), e ao samba (dança), pois as sociedades dançantes (de diferentes níveis sociais), dancings, casas de famílias (de diferentes níveis sociais) e clubes foram responsáveis direta e indiretamente por muito do que está na música samba e no chorinho hoje. Não acredito que o samba, assim tão genérico possa ser creditado à batucada. Ela é sim parte integrante e muitíssimo importante em todo o processo na maioria dos fazeres que chamamos samba, mas não é única. No samba de roda, por exemplo, essa raiz é muitíssimo mais forte, mas mesmo assim, não pode ser de ser considerada única. Com uma pequena pesquisa descobrimos também ligações das diversas coisas chamadas samba com instrumentos/música/dança/cultura Árabe, espanhola, portuguesa, indígena, cigana e com locais de festas em diversas linguas. Acho que essa generalização dos diferentes sambas como se fosse uma só manifestação, muitas vezes limita a pesquisa, já que determinadas informações pertinentes ou não se tornam tão difundidas que viram "verdades" difíceis de contestar mesmo com fatos como o é o caso do forró ter vindo de "for all" e da Madame Poças Leitão ter trazido a dança de salão para o Brasil. -------------------------------------------------------------------------------- Sobre: "O samba para se dançar a dois é coisa da década de 50 pra cá, com o advento da Gafieira. O samba é um pouco mais antigo que isso, não? O samba na sua origem era basicamente ritmo, batucada, dança coletiva em rodas ou não?" O nome gafieira passou a ser usado como designação de baile pobre apenas no meio do século passado, ou seja, é muito mais recente que a dança samba, que é da segunda metade do século XIX. O samba de par, veio da valsa e principalmente da polca com o nosso jeito (requebros e volteios), criando-se inicialmente a polca brasileira, dança que foi considerada como a primeira dança de par brasileira. Essa dança desaguou no maxixe, que era uma forma mais chamativas de se dançar diversas musicas da época e depois no samba de par. O nome samba para designar a dança de par veio muitos anos depois, já no século XX, depois da música maxixe passar a ser chamada de samba, mas ainda bem antes da gafieira (que tocava vários ritmos, inclusive o samba à moda da gafieira e suas mini big bands). O nome samba de gafieira ou gafieira para designar o samba (de par) não é recomendado para não tomar o todo pela parte, pois a Gafieira é apenas um dos lugares onde se dança/dançou o samba. Forte abraço, Luís Florião ----- Original Message ----- From: "Caio Pontual" <[EMAIL PROTECTED]> To: "Tribuna" <[email protected]> Sent: Tuesday, September 18, 2007 11:15 AM Subject: Re: [S-C] Re: O Samba de Cuba > Bem Luis, as questões colocadas aqui são muitas e por isso mesmo difícil > de sintetizar todas como deveria. Com relação a música erudita é uma > questão de costume mesmo, é preciso educar o ouvido e a sensibilidade para > compreender e assimilar essa linguagem musical, portanto as vezes é > preciso forçar um pouco a barra. > Quanto a questão da Lambada x Samba, continuo discordando de vc, pois é > necessário ter uma compreensão da formação e aparecimento dentro da > história de ambas manifestações. A Lambada surgiu no Pará por influência > de alguns ritmos caribenhos caiu no gosto popular e depois se espalhou > pelo país levado pela mídia que precisava implantar mais um modismo no > mercado. O Samba é uma expressão cultural de um povo oprimido e explorado > na sua condição social por anos a fio e representou além de uma maneira de > cultuar suas origens, como também como uma forma de resistência enquanto > grupo social e étnico. Portanto fenômenos bem distintos. > >> Da forma como você escreveu, parece que todas as músicas, "boas" ou >> "ruins" que foram lançadas, foram invenções mercadológicas, desde que >> tenham feito sucesso. > > Eu, não falei esse tipo de coisa. Eu disse, que alguns dos gêneros que > apareceram nas mídias em algumas épocas e que sumiram em seguida, foram > patrocinados pelas gravadoras apenas como um produto a mais, a ser > consumido pela massa que é sempre ávida por qq novidade, independente de > sua qualidade. Assim foi com a Lambada, com o "Pagode", com o Axé, com o > "Sertanejo", com o Brega, e também com o "Forro". Nesses todos > relacionados, certamente existem alguns elementos autênticos e com > qualidade, mas como vimos foram tantos que se aproveitaram desses modismos > que a grande maioria que foi lançada no mercado era porcaria mesmo, para > consumo imediato como fast-food, que se como hoje e amanhã é jogado fora. > Uma obs.: Música boa não precisa, nem deve, ser promovida por modismos. > Elas vivem por conta própria apesar de muitas vezes não ter a grande mídia > como suporte. > Para mim a música é feita primordialmente para OUVIR, e em segundo plano > para dançar (pra quem gosta). O samba para se dançar a dois é coisa da > década de 50 pra cá, com o advento da Gafieira. O samba é um pouco mais > antigo que isso, não? O samba na sua origem era basicamente ritmo, > batucada, dança coletiva em rodas ou não. > Quanto a essas misturas, pode ser que isso aconteça, como já aconteceu em > alguns casos, mas eu vejo isso como mais uma tentativa de sobrevivência do > que qq outra coisa, pode ser que alguns permaneçam e derivem em algo bom, > quem sabe? > > Bem, é isso aí. > Um abraço. > Caio Pontual > > > ----- Original Message ----- > From: "Alma" <[EMAIL PROTECTED]> > To: "Caio Pontual" <[EMAIL PROTECTED]> > Sent: Monday, September 17, 2007 6:51 PM > Subject: Re: [S-C] Re: O Samba de Cuba > > >> Oi Caio, >> >> Também prefiro como você, as canções com letras e musica mais elaboradas. >> Interessante comentar aqui que não chego a amar a música clássica, que é >> elaboradíssima na minha opinião - credito isso à falta de mais qualidade >> no que ouvi na infância, onde se forjam os gostos. >> >> Da forma como você escreveu, parece que todas as músicas, "boas" ou >> "ruins" que foram lançadas, foram invenções mercadológicas, desde que >> tenham feito sucesso. O que obviamente não é verdade, haja visto que a >> MPB e o samba permanecem moda e o chorinho aparece hoje em vários dos >> comerciais onde se quer passar bom gosto. >> >> Diferentemente de você, acho que o ideal seria se tivéssemos mais ondas >> modismos dentro da música, ondas como foram a bossa nova, a MPB, o forró >> pé de serra, o samba e o chorinho e até o MPBrock, mas creio que quanto >> mais e maiores os centros urbanos e com a educação, cultura e instrução >> tão medíocres, a maioria do que será sucesso de público, será, no meu >> arrogante julgamento, músicas de "menor qualidade". (Salve o Zeca, o >> Almir, o FDQ e o Jorge, que além de divulgarem o samba na grande mídia, >> mesmo as suas piores músicas são infinitamente melhores que as melhores >> da Joelma, do Leandro, do Cãozinho dos Teclados e do Xandi) >> >> A parte que mais discordo na sua resposta, é que os processos não tenham >> sido os mesmos. Tanto a lambada quanto o samba (o urbano do Rio de >> Janeiro que tomou para si um nome usado para designar dezenas de coisas >> diferentes pelo Brasil) foram muito combatidos no início de sua >> trajetória por ser considerado musica "sem qualidade" e de pobre >> (funcionários públicos, barbeiros etc.) e ambos foram sustentados pela >> dança de par. Creio que você sabe que no caso do samba, até se dividir em >> música para dançar a dois e para desfilar no carnaval, ele ditava a moda >> a ponto dos músicos adaptarem as canções para se ajustarem aos requebros >> dos dançarinos. À propósito, a lambada tomou o mundo, pela dança, não >> pela "qualidade musical", inclusive porque "qualidade", como você mesmo >> cita, nunca foi parâmetro para o sucesso nem aqui nem no exterior. >> >> Para fechar, não acredito que sumirão, o forrock (do Ceará), o brega (do >> Pará), o breganejo (de São Paulo), o axé (da Bahia) e principalmente o >> funque (vergonhosamente do Rio), que no máximo mudarão e se misturarão >> como o forró para o forrock e a lambada para o forrock/brega/axé. >> Em relação ao funque, comento que me sinto envergonhado como carioca >> porque, enquanto os primeiros ritmos acima são apenas monótonos e suas >> letras, na grande maioria, são chatas e bobinhas, o funque, além da voz >> dos MCs, em muitos casos, vir cheia de ódio, eles tem em sua base >> ideológica (cópia dos estadunidenses don HipHop), a violência (sexual e >> física) à mulher e a apologia ao tráfico e as drogas. >> >> Abraço, >> Luís Florião >> >> >> ----- Original Message ----- >> From: "Caio Pontual" <[EMAIL PROTECTED]> >> To: "Alma" <[EMAIL PROTECTED]>; <[email protected]> >> Sent: Monday, September 17, 2007 12:21 PM >> Subject: Re: [S-C] Re: O Samba de Cuba >> >> >>> Luis, é aquela coisa, em tudo que existe no mundo tem seus pros e >>> contras. Eu particularmente, acho que essas invenções mercadológicas com >>> um único intuito de vender já é condenável na origem. Essas ondas de >>> modismos dentro da música também são igualmente condenáveis, pelo mesmo >>> motivo, quase sempre peca pela qualidade e mais ainda pela mesmice ou >>> pelo exagero. A Lambada foi uma onda que surgio no Pará e tomou o pais >>> de sopetão e foi embora do mesmo jeito que veio, essas músicas >>> caribenhas são muito ritimadas, cheias de suingue, e agradam a alguns >>> por esses motivos e também pelo seu apelo sensual, mas em sua grande >>> maioria não tem a qualidade músical que eu particularmente prefiro. >>> Portanto vc não pode colocar no mesmo balaio o fenomeno que gerou o >>> Samba e a Lambada e seus congeneres, foram motivos geradores muito >>> diferentes e com propósitos também diferentes. O mesmo eu diria do forró >>> que tambem como o pagode era um evento festivo e aqueles que vivem desse >>> mercado passaram a apelidar isso como sendo um gênero. Para fechar, o >>> meu alento é que tudo (em música) que não presta, nasce cresce e morre >>> sem deixar herdeiros, as vezes duram mais do que deviam, mas agente >>> espera pacientemente seu falecimento ..... >>> >>> Abs. >>> Caio Pontual >>> >>> PS. O fato de turista gostar de alguns desses rítmos "modernos" não quer >>> dizer que tenhamos que apludir. Gringo gosta de muita porcaria, haja >>> visto uma tal de Conga la Conga, e outras desse tipo. >>> > > _______________________________________________ > Para CANCELAR sua assinatura: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela > Para ASSINAR esta lista: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina > Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
