Fonte: http://www.tribuna.inf.br/bis.asp?bis=cultura01
A música resistiu
Como se comportou a indústria do disco no ano que passou
Pedro Henrique Neves
Os dias de 2007 não foram melhores para o mercado fonográfico. Com todas as
facilidades e problemas que a Era Digital trouxe, a indústria do disco continua
penando para encontrar escapatórias e continuar vendendo. Além de investir em
internet, os DVDs - ainda menos pirateados do que os CDs - também ganharam mais
atenção, em um ano que reafirmou o poder dos independentes e aumentou a lista
de medalhões que lançaram seus produtos fora das majors.
Se o novo esquema pode trazer menor popularidade, ele vem contribuindo para a
qualidade dos trabalhos. É o caso de Elba Ramalho, que gravou um de seus
melhores discos ("Qual o assunto que mais lhe interessa?"), feito em estúdio
próprio e com repertório do show "Raízes e antenas", montado com recursos
vindos de um patrocínio. "Matizes", o novo de Djavan, saiu pelo selo Luanda, do
compositor, e mostrou que o alagoano continua com a mesma pegada que o
consagrou. O espetáculo que Ney Matogrosso estréia amanhã no Canecão, também
foi bancado pelo próprio.
Mesmo tocando muito nas rádios, os ótimos discos de Vanessa da Mata ("Sim") e
Maria Rita ("Samba meu") não tiveram a venda esperada. Ainda assim, as duas se
destacaram pela renovação das respectivas obras. A filha de Elis Regina
investiu no samba carioca e espanou a poeira que já se acumulava em sua
carreira. Já a cantora e compositora matogrossense investiu em um ótimo disco
de inéditas, com pérolas de sua autoria e uma produção esperta, capitaneada
pelos requisitados Mario Caldato e Kassin, este último responsável pela direção
musical de outros bons lançamentos.
É o caso de "Futurismo", último CD da trilogia +2, projeto que mantém ao lado
de Moreno Veloso e Domenico Lancelotti. A sonoridade do grupo ainda encontra
eco em "Os ritmistas", desta vez um projeto paralelo de Domenico, que acabou de
sair. Kassin encontrou tempo para participar do primeiro disco da Orquestra
Imperial, que fez jus a longa espera pelo produto e apresentou uma série de
composições inéditas. O show de lançamento no Teatro Rival, aliás, foi um dos
destaques do ano.
O samba se consolidou como o gênero da década e deu origem a uma série de
lançamentos, de artistas consagrados (Alcione, Arlindo Cruz, Beth Carvalho,
Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, que também abriu um selo) e outras apostas
(Diogo Nogueira, Edu Krieger, Moyseis Marques e a nem tão nova assim Teresa
Cristina). Dentro deste universo, alguns destaques naturais chamaram atenção,
como o belo "Acústico MTV" de Paulinho da Viola, o tributo de Beth Carvalho ao
samba da Bahia e o charmoso álbum de Teresa Cristina. Curiosamente, todos estes
lançados com o apoio de alguma gravadora.
O ano também serviu para Roberta Sá reafirmar seu talento, em "Que belo
estranho dia para se ter alegria", trabalho que destaca o bom faro da cantora
para escolher repertório e mostra que é uma das grandes vozes femininas da
atualidade. Em outra esfera, Fernanda Takai, a vocalista do Pato Fu, brilhou
nesse final de ano, ao lançar "Onde brilhem os olhos seus", baseado no
repertório de Nara Leão. A cantora se impôs e releu, sem pudor, as canções de
Nara, as trazendo pelo seu universo pop. A semelhança entre as duas foi apenas
o ponto de partida do álbum, seguramente um dos melhores do ano.
Inacreditável
Para surpresa de todos, Roberto Carlos não lançou seu tradicional disco no
final do ano, adiado para fevereiro. Já Maria Bethânia e Chico Buarque botaram
nas prateleiras os registros ao vivo de seus últimos shows, "Dentro do mar tem
um rio" e "Carioca", lançados pela Biscoito Fino com o registro integral dos
celebrados espetáculos. Elza Soares lançou o primeiro DVD, lançado em uma série
de antológicos shows no Teatro Rival.
Se as vendas dos discos decaíram, o mesmo não se aplica ao mercado de shows,
ainda enriquecido pela baixa do dólar, que possibilitou a vinda de algumas
estrelas. A volta do The Police, o show do Magic Numbers no Circo Voador e a
vinda de Björk, Arctic Monkeys e The Killers para o último TIM Festival foram
pontos altos. Ainda teve Roger Waters na Apoteose, no início do ano, e o novo
festival Planeta Terra, em São Paulo, com boa escalação.
Melhores discos
. "Onde brilhem os olhos seus" - Fernanda Takai
. "Carnaval só ano que vem" - Orquestra Imperial
. "Sim" - Vanessa da Mata
. "Futurismo" - Kassin +2
. "Volta" - Björk
. "Myths of the near future" - Klaxons
. "Maysa - essa chama que não vai passar" - Vários
. "Que belo estranho dia para se ter alegria" - Roberta Sá
. "Samba meu" - Maria Rita
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