Fonte: http://bravonline.abril.com.br/indices/musica/musicamateria_253551.shtml


Aprendendo o Samba


Pé ante pé, sem alarde, Maria Rita flerta com o ritmo favorito de sua geração 


* por André Nigri
 

Um dos álbuns mais famosos do tropicalista Tom Zé se chama Estudando o Samba — 
um mergulho radical no gênero, com o intuito e a pretensão de renová-lo. Em seu 
novo CD, a cantora Maria Rita faz o oposto — tanto que seu disco poderia se 
chamar Aprendendo o Samba. Ela entra no gênero de mansinho, pé ante pé, de 
forma respeitosa. E talvez seja essa a maior virtude do disco. Maria Rita canta 
com entusiasmo e simplicidade. O entusiasmo de quem, paulista recém-radicada no 
Rio, acaba de descobrir o samba. E a simplicidade das intérpretes que, maduras, 
privilegiam antes de tudo as intenções dos compositores.

Lançado sem alarde, Samba Meu não deixa de ser uma espécie de lição de casa da 
fase carioca de Maria Rita. Após a explosão do primeiro disco (840 mil cópias 
vendidas) e de certa angústia gerada por Segundo (200 mil), o terceiro trabalho 
— previsto para sair no ano que vem, mas antecipado a pedido da gravadora 
(Warner) — também vem com o carimbo de uma ligeira renovação, um flerte 
resultante do convívio com sambistas e visitas freqüentes nas quadras das 
escolas. Na faixa O Homem Falou, de Gonzaguinha, há participação da velha 
guarda da Mangueira. 

Maria Rita, que co-produz o disco com Leandro Sapucahy, não se arriscou a 
repetir a recente tendência de reler o ritmo com experiências eletrônicas. 
Sutilmente, ela manteve a sonoridade registrada no primeiro álbum (Maria Rita), 
com piano, baixo acústico e bateria, acrescidos de mais percussão. A maior 
parte das composições é de Arlindo Cruz, uma das grandes estrelas do gênero na 
atualidade. Nas músicas, sobressaem temas caros ao samba, como traição, mágoa, 
solidão, mazelas que o próprio exercício do gênero trata de remediar, como no 
verso "o meu samba vai curar teu abandono", da faixa-título. Ela se sente mais 
à vontade, no entanto, quando tira a tristeza do caminho, nas faceiras 
Corpitcho e Casa de Noca.

ALVO JOVEM

Entre as cantoras jovens brasileiras, Maria Rita é a mais bem-sucedida. Não 
deixa de ser sintomático que tenha resolvido experimentar o samba. Ele é hoje o 
ritmo preferido da geração na faixa de 20 a 30 anos — principalmente no Rio de 
Janeiro, onde rock é coisa de quarentões e cinqüentões. Os que são da mesma 
faixa etária da cantora freqüentam as quadras da Portela, Mangueira e Rocinha e 
outras escolas, se esbaldam em casas do gênero como Trapiche Gamboa e Carioca 
da Gema, arriscam passos em lugares como o Clube dos Democráticos e fazem a 
fama de blocos importantes como Sovaco do Cristo e Simpatia É Quase Amor na 
época do Carnaval. Cantoras devem ser antenas do gosto de seu público — e Maria 
Rita, ao se voltar para o samba, cumpre sua função de intérprete contemporânea. 
Falta apenas soltar-se para ousar um pouco mais. Quem sabe no próximo disco, 
depois de aprender o samba, Maria Rita não faz algo inovador como Estudando o 
Samba.

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