Fonte: 
http://bravonline.abril.com.br/indices/primeirafila/primeirafilamateria_261779.shtml



Confessionário Maria Rita


* por Armando Antenore



A MÚSICA lhe pertence há tanto tempo - como o mar à sereia, se existissem 
sereias - que já não sabe exatamente quando cantou pela primeira vez. Mas se 
recorda bem de que, jovenzinha, arrancava lágrimas das platéias domésticas mal 
iniciava um lalaiá qualquer. Outros, diante de reações similares, exultariam. 
Ela, não. Ficava furiosíssima. - Certa noite, em Miami, visitava uns amigos com 
o pai, o compositor e arranjador César Camargo Mariano. De repente, apareceu um 
violão (violões sempre apareciam do nada naquela época). "Canta, Maria Rita, 
canta", pediram em coro. César, que dedilhava o instrumento, tratou logo de dar 
a deixa, e a garota cantou. Pronto: cinco ou seis pessoas abriram o berreiro. 
Maria Rita, com apenas 18 anos, não viu a menor graça. Fechou a cara e saiu de 
lá corroída pela dúvida que teimava em assombrá-la e que só recentemente a 
abandonou: "Estão chorando por que de fato os emociono ou por que se lembram de 
minha mãe?".

AINDA HOJE, mantém cautelosa distância dos discos que Elis Regina lançou. Dói 
ouvi-los. Se os escuta, avista de novo o carro que a Pimentinha gostava de 
dirigir e revive mais uma vez o curto período em que moraram juntas na praia da 
Joatinga. Tinha 4 anos quando a mãe morreu. Pouca idade para evocar tão 
nitidamente o carro de incontáveis passeios e a praia carioca de areia muito 
branca. Entretanto, preserva-os incólumes na memória, à semelhança de alguns 
outros lugares, objetos e episódios que dividiu com a intérprete. Quais? Não os 
revela por uma questão de justiça. Elis já legou, para o país inteiro, milhares 
de recordações públicas: fotos, entrevistas, músicas, registros em DVD. À fi 
lha caçula, restaram meia dúzia de situações íntimas. É justo que não as 
compartilhe com ninguém. - O único LP da cantora que se permitiu explorar 
realmente chama-se Elis, Essa Mulher. Chegou às lojas em julho de 1979. Vinte e 
dois meses antes, Maria Rita nascera. Seduzida pelo título confessional do 
álbum, devorou as dez faixas na esperança de descobrir o que a mãe sentia 
durante as gravações. Desta vez, estranhamente, não se preocupou com as dores e 
os sobressaltos que a aventura pudesse lhe trazer. Retornou da investigação 
convicta de que, naquela fase, Elis se encontrava madura, forte e serena. "Essa 
menina, essa mulher, essa senhora/ Em que esbarro toda hora no espelho casual/ 
É feita de sombra e tanta luz/ De tanta lama e tanta cruz/ Que acha tudo 
natural", segredava a artista na canção de Joyce e Ana Terra que inspirou o 
nome do disco.

CRIANÇA, Maria Rita se espantou profundamente quando lhe mostraram o clipe de 
Thriller. Não teve medo da gargalhada sombria que encerra o vídeo de 1982 ou 
dos zumbis que brotam das sepulturas enquanto Michael Jackson dança. Foram os 
movimentos geométricos e hipnóticos do cantor que a impressionaram: "Uau! 
Megapowersuperplus!". Tornou-se fã do pop star e não abdicou da admiração mesmo 
depois de vê-lo sucumbir às próprias maluquices. Em 2001, por exemplo, ouviu 
Butterfl ies, do fracassado álbum Invincible, e pirou: "A letra é extensa 
demais. Não devia encaixar na música, mas encaixa. Como o desgraçado 
consegue?". - Relaciona o declínio de Michael à pior das infinitas tentações 
que atormentam os famosos: a onipotência. Pobre do mortal que se imagina dono 
do mundo. Está à beira da tragédia. Ela garante que jamais alimentou delírios 
do gênero. Ligar para a casa de alguém após as 10 da noite, furar a fi la do 
cinema, perambular por festas bacanas sem convite, entrar de chinelo e camiseta 
rasgada num restaurante de luxo? Não, nem às estrelas concede tamanhas 
indelicadezas. 


"PERCA O JUÍZO, Maria Rita!" Na adolescência, saindo para a balada, costumava 
escutar o conselho divertido da madrasta. "Volte tarde, beba muito, se jogue." 
Perca o juízo. Ainda assim, Maria Rita não o perdia. Foi sempre "a certinha", 
"a caxias", "a caretona". Arrumava o quarto todo domingo e lavava os pratos do 
almoço familiar numa ótima. Fez duas faculdades simultaneamente, ambas em Nova 
York: Comunicação Social e Estudos Latino-americanos. Se os amigos enchessem a 
cara ou fumassem às escondidas, pensava: "Que babacas!". Não ficava com mais de 
um garoto na mesma noite. Nunca comparou a madrasta às bruxas de Walt Disney. 
Pelo contrário: gostava tanto de Flávia que a apelidou de "boadrasta". - Raras 
vezes se sentiu tão feliz quanto agora. Completou 30 anos em setembro e não 
enfrentou nenhuma crise. Angústias profissionais, desconfortos físicos, nada a 
infernizou. Fácil explicar: já nasceu com 30 anos. Estava apenas aguardando que 
o tempo de fora alcançasse o de dentro.

EM 2003, logo que engravidou de Antonio (seu filho com o cineasta Marcus 
Baldini, de quem se separou), adquiriu uma inusitada fobia de automóveis, 
ônibus e motos. O fantasma surgiu de mansinho durante os primeiros meses de 
gestação e acabou virando um suplício. Mal se surpreendia num congestionamento, 
a cantora - que até então não guiava - caía em desespero, sem identificar 
direito o motivo. Só ousava trafegar por ruas calmas. Como sempre lhe disseram 
que o melhor remédio contra o medo é a coragem, decidiu ingressar numa 
auto-escola e tirar carta. Hoje dirige tranqüilamente. - Quando passa um dia 
longe de Antonio, mergulha num vazio imensurável. Desequilibra-se, perde o 
norte. Agora compreende por que a relação entre mãe e fi lho é capaz de 
substituir todas as outras. Sabe que nem o pai, nem os irmãos, nem um marido 
teriam o poder de fazê-la abandonar o palco. Mas se o Antonio quisesse... - Com 
16 anos, jogou futebol no colégio. Zagueira, espelhava-se em Ronaldão, do São 
Paulo, e ainda não manifestava por completo a faceta "mulherzinha" que exibe 
atualmente. Adora brincos e pulseiras douradas, entende de maquiagem e aprecia 
galanteios masculinos. Homem que é homem paga a conta, puxa a cadeira para as 
moças e não permite que elas caminhem pelo lado de fora da calçada. Maria Rita, 
aliás, pretende transformar Antonio num gentleman, ensinando-lhe os mistérios 
do cavalheirismo. Ai do moleque se não aprender... 


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