Eu sou o samba

Alex Capella
REPÓRTER

A Portela ainda prepara a entrada na Marquês de Sapucaí, mas, por todo o 
Sambódromo, a agitação nas arquibancadas é visível: afinal, todos esperam por 
ele, e basta o locutor anunciar seu nome para que o público exploda em palmas. 
À frente da águia, símbolo da escola de Madureira (zona norte do Rio), surge o 
cantor e compositor, ídolo de uma geração marcada por quatro décadas de 
delicadeza e poesia em ritmo de samba.

Paulinho da Viola _ cartaz deste sábado, a partir de 22 horas, no Chevrolet 
Hall _ retribui com a poesia estampada no sorriso tímido, no adeus contido e no 
caminhar elegante. Um desfile de carisma, à altura do artista que conviveu com 
gênios como Cartola, Candeia, Jacob do Bandolin e Nelson Cavaquinho, sem perder 
a simplicidade no trato com as pessoas. Quem conhece o trabalho dele sabe da 
capacidade de se reinventar, de transformar o sofisticado ofício do compositor 
num trabalho que imprime autenticidade à música brasileira, muito além dos 
limites do samba.

Ao optar pelo projeto «Acústico MTV», que mostra aos belo-horizontinos neste 
final de semana, Paulinho da Viola, ao contrário de outros artistas que se 
aventuram pelo formato, não foge do estilo forjado ao longo das últimas quatro 
décadas. Seu trabalho é essencialmente acústico, apesar de conviver em sintonia 
com teclados e baixos eventualmente plugados. Por isso, o «Acústico MTV», que 
reúne 15 faixas no CD e 21 no DVD, pouco acrescenta à obra.

O show tem 25 composições em nova roupagem, com belíssimos arranjos, e marca a 
volta do artista a Belo Horizonte, sete anos depois da última apresentação 
«individual», em 2001, no Palácio das Artes. De lá para cá, Paulinho registra 
duas rápidas e restritas passagens pela capital, durante inauguração do Itaú 
Power Shopping e num programa fechado da Prefeitura, no Minascentro.
«Recado», apresentada na íntegra, é a predileta do show: «É a canção que mais 
gosto», registra ele, por telefone, ao HOJE EM DIA. Outros destaques são 
«Coração Leviano», originalmente gravada em 1978, que empolga quando entra o 
peso da percussão junto do coro; «Pecado Capital», alerta contra a ganância 
desenfreada pelo dinheiro, que remete aos tempos áureos do samba, e «Coisas do 
Mundo Minha Nêga» que, no CD/DVD, compõe pot pourri com «14 Anos» e «Jurar com 
Lágrimas».
Entre as novidades (o CD mais recente é «Bebadosamba», de 1996), Paulinho da 
Viola apresenta «Bela Manhã», «Vai Dizer ao Vento» e «Talismã» _ essa última, 
uma melodia antiga, descoberta pelo sambista entre fitas-cassete e oferecida à 
parceria de Arnaldo Antunes durante encontro na casa da amiga Marisa Monte. 
«Era uma brincadeira com um tom de desafio e, pra minha surpresa, uma semana 
depois a Marisa me ligou, dizendo que estava pronta e que ela tinha entrado na 
parceria», lembra Paulinho da Viola.

É empolgado com os novos parceiros que o sambista aproveita o «Acústico» e 
compõe novos arranjos para «Sinal Fechado» e «Tudo se Transformou», que ganha 
andamento bem mais lento e versos, por conseqüência, mais sofridos. Ele resgata 
«Amor É Assim» e «Foi Demais»; grava também «Nervos de Aço», de Lupicínio 
Rodrigues. Essa não estava prevista, o registro vem a pedido da gravadora, a 
Sony/BMG. Por falar em gravadora, o projeto marca a contratação pela Day1, 
empresa criada pela Sony/BMG para gerenciar shows de seus artistas. «É um 
teste; se tudo der certo, vamos fazer uma turnê nacional», anuncia Paulinho da 
Viola.

Ao se render ao «Acústico MTV», conhecido projeto comercial de reciclagem de 
sucessos, o sambista mostra-se conectado ao mundo fora do universo tradicional 
do samba. «No orkut, tenho uma comunidade com mais de 20 mil fãs», afirma, 
acrescentando que os novos fãs são representados pelos jovens que invadiram os 
bares da Lapa, tradicional reduto da boemia carioca, para «beber» o mais puro 
samba. A «chama» do gênero, aliás, na visão do mestre, está mais acesa que 
nunca, e o Carnaval é prova disso. O compositor considera os sambas-enredo 
deste ano superiores aos apresentados nos últimos anos. «De tanto se falar em 
marcha, os compositores procuraram elaborar melhor os sambas», compara.

Depois de ovacionado no Sambódromo e andar pelas ruas do Rio durante o 
Carnaval, quando os blocos que pipocam em cada esquina arrastam verdadeiras 
multidões, Paulinho da Viola assume e festeja uma viagem de volta: «Disseram 
que o samba ia acabar. Disseram que o Carnaval também ia acabar. Pelo visto, o 
difícil agora vai ser conter este movimento que se renova com o vigor da 
juventude e não pára de crescer».

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