É, isso tudo só vem a confirmar uma hipótese que levantei, quando nós, reles
mortais temos em nossos sentidos, tanta informação de duplo sentido e
intenção, faz com que aqueles que detém esse famigerado poder tenham também
maior poder de decisão (em todos os segmentos sociais), nós viramos apenas
fantoches a engolir e até a promover (sem querer em alguns casos) o que os
detentores do poder impõem.
A nossa verdadeira cultura está a muito ameaçada, por esses exemplos de
total falta de compromisso com a realidade, nós estamos ultimamente vivendo
e consumindo falsidades. Essa novela é um grande exemplo, ela mesma não se
define, ela ao mesmo tempo quer retratar uma realidade falsa e também fazer
críticas (algumas veladas) de costume. Poderíamos enumerar absurdos, ou do
que existe de falso nela, eu dou por ex. dois exemplos: ela apresenta uma
casa de shows cujo proprietário exibe um comportamento de homossexual para
conseguir melhor se impor como empresário do ramo (isso existe?) e a sua
casa diz em cartaz gigante que é 100% Brasileira, se toda a decoração é
"country", se todos os números são também baseados em coreografias do
faroeste americano. Fica até difícil saber qual é a deles, quase tudo lá é
falso. Isso me lembra uma música do Lenine, Dudu e Jô Falcão interpretada
pelo Cláudio Lins, cujo título é exatamente sobre isso tudo ou seja Falso.
Um abraço.
Caio Pontual
----- Original Message -----
From: "Carolina Gonçalves Alves" <[EMAIL PROTECTED]>
To: "Samba e Choro" <[email protected]>
Sent: Saturday, March 15, 2008 11:27 PM
Subject: [S-C] Sociedade do Créu, velocidade 5
A quem interessar...
Gente me desculpem, sei que o debate aqui é sobre samba e choro. Mas
diante das últimas discussões sobre o funk aqui na tribuna, acho que
este texto ajuda a fomentar o debate. Na minha opinião pouco interessa
ser o funk bom ou ruim! Priorizo uma avaliação do social às opiniões
individuais. Fico particularmente tentada a pensar o funk enquanto um
fenômeno social. Esse texto nesse sentido se mostra muito
interessante. Ao debate!
Carol
Sociedade do Créu, velocidade 5
por Adriana Facina, publicado originalmente em
http://www.fazendomedia.com/, em 04.02.2008
Numa conversa com amigos, estávamos debatendo o sucesso musical da
temporada: a Dança Créu, composição do MC Créu. Nas rádios mais
populares, nas emissoras de TV, em bares, festas, comemorações de
família, brincadeiras de criança, em todo lugar o que se ouve é a
música que ensina uma dança, a ser executada em 5 velocidades, mexendo
os quadris de um jeito supostamente sensual, ao som do refrão que diz
repetitivamente créu créu créu.
A letra simples, fácil de ser memorizada, acompanhada de uma dança que
é também um desafio, pois o grau de dificuldade vai aumentando
progressivamente e o próprio MC confessa na música que não consegue
acompanhar a velocidade 5, dão um tom lúdico, de brincadeira.
Certamente, isso ajuda muito na sua popularização, especialmente entre
crianças. E também entre jovens adultos que tiveram sua educação
musical baseada em sucessos da axé music como Segura o tchan e Na
boquinha da garrafa, todos acompanhados de danças erotizantes.
Mas há também algo além disso. Ficamos pensando na relação dessa
música com a sociedade em que vivemos. Bancos apresentando seus lucros
bilionários, como o Bradesco, com o faturamento recorde de R$ 5,817
bilhões líquidos obtidos entre janeiro e setembro de 2007. Lucros
sustentados por juros escorchantes e políticas públicas que, sob o
manto generoso da pretensa dívida que nunca sofreu uma auditoria
séria, transferem massas de recursos públicos, provenientes dos
impostos pagos pela população brasileira, para as garras das
instituições financeiras privadas.
As corporações midiáticas fabricando mentiras, disseminando medo e
desinformação, numa cruzada obscurantista para manter as coisas no seu
devido lugar. Saúde e educação a míngua, com pessoas morrendo perante
olhares indiferentes da boa sociedade e com crianças sem escola, seja
por falta de professores, seja para se proteger da violência gerada
por políticas de insegurança pública. Consumismo desenfreado,
estabelecendo as fronteiras que separam as vidas que valem alguma
coisa e as que não têm nenhum valor em nossa sociedade. Da boca do meu
amigo, que tem o profético nome de Bruno Deusdará, veio a pérola: "o
que é tudo isso senão a sociedade do créu? E mais: é velocidade 5!"
Logo depois dessa conversa, estava vendo a novela da Globo, Duas
Caras, cujo título mais apropriado seria Descarada. Infelizmente,
tenho conseguido acompanhar pouco essa novela. Mas é impressionante a
desfaçatez de sua pregação ideológica. Talvez por isso os baixos
índices de audiência. Definitivamente, a gente não se vê por ali.
Favelados não se vêm ali. Gente que vive oprimida pelas milícias não
se reconhece na Portelinha, cujo dono é o caricato e benevolente
Juvenal Antena.
Universitários, professores ou estudantes, também não se vêm ali.
Isolado em seu mundinho de classe média alta da zona sul carioca,
apavorada e acuada pela violência alimentada e recriada pela mídia
gorda, Aguinaldo Silva tenta um realismo que se torna farsa ao
caricaturar uma realidade que não lhe é compreensível. Tudo é tosco,
os personagens são falsos, os atores não acreditam no que falam ou não
conhecem a realidade que deveriam ajudar a representar.
Bom, e o que se passava no episódio em questão? A filha da Marília
Pêra e do Stênio Garcia, que é rica e casou-se com um rapaz negro e
favelado, está grávida, contra a vontade do pai, muito preconceituoso
em relação ao genro. A moça passa mal e está na fila de um hospital
público. A mãe, quando sabe disso, vai correndo para lá e faz de tudo
para convencer o casal de que a menina ia morrer ali e que eles
deveriam superar o orgulho e aceitar sua remoção para um hospital
particular que o plano de saúde que o pai pagava dava direito.
Eles resistem, já que esse mesmo pai queria que a filha abortasse, por
não desejar ter um neto negro. Porém, a mãe argumenta que a filha ia
morrer, apresentando uma imagem do hospital público como uma sucursal
do inferno. Numa das cenas, o rapaz tenta falar com uma funcionária e
é destratado, como se o caos na saúde pública fosse responsabilidade
dos profissionais que ali trabalham.
Do modo descontextualizado como a suposta "crítica" é apresentada,
parece que o problema não é político, de prioridades no que diz
respeito às políticas públicas, mas sim que tudo que é público é ruim.
A salvação está no mercado. Só faltou o merchandising do plano de
saúde.
Imaginem um trabalhador ou uma trabalhadora, chegando em casa depois
de uma rotina cansativa de trabalho, impossibilitados de adquirir com
seus salários as doces promessas de um atendimento médico particular,
assistindo a todo esse discurso orquestrado sobre a baixa qualidade do
serviço público justamente por ser público. E toca a trabalhar cada
vez mais para realizar o sonho de comprar um plano de saúde para a
família e colocar o filho numa escola particular, símbolos de status e
de pertencimento ao mundo global.
Ironia do destino, dois dias depois, precisei ir com meu companheiro a
um hospital privado, para um atendimento de pronto-socorro, usando
plano de saúde da UNIMED. Ficamos duas horas numa fila e tivemos uma
consulta relâmpago que culminou com a prescrição de um medicamento que
custava cerca de R$ 45 reais a caixa, sendo que a receita recomendava
4 caixas! A vida como ela é de fato é outra coisa.
O ataque ao setor público e a defesa incondicional do mercado marcam o
tom geral da novela. A universidade, por exemplo, cuja dona é a
principal heroína da trama, é privada. Seu modelo de excelência em
tudo contradiz o mundo real, no qual as privadas são de fato o que seu
nome diz, salvo raríssimas exceções. Afinal, quais as grandes
descobertas científicas ou mesmo quadros intelectuais relevantes para
a cultura brasileira forjados em suas dependências? Seus estudantes
rebeldes, inclusive o que está processando o ex-reitor por racismo por
tê-lo chamado de zumbi, são simplesmente idiotas. Os professores, em
especial aquele que é mais crítico, são losers, perdedores que
reclamam da vida ao invés de fazer algo de produtivo. E por aí vai...
Em meio a essa profusão de bens culturais conformistas que a sociedade
do créu é capaz de produzir, um me chamou a atenção em especial.
Estava ouvindo uma rádio que anunciava o show Pagode do Arlindo Cruz,
que ia se realizar no teatro Rival, e o locutor dizia que seria
apresentado o Samba da globalização, supostamente uma música de
destaque que atrairia mais público para o evento. Eu, na minha
ingenuidade esperançosa, pensei: "Legal! Deve ser um samba crítico,
com tema político." E fui procurar na internet. A letra desfez todas
as minhas expectativas. Depois de louvar toda a programação da
emissora, o samba diz assim: Mais uma vez/É o time da Globo/que é
campeão/Não é mole não meu irmão/Não é mole não/A vida imitando a
arte/Isso é globalização plim plim".
Não tenho como aqui, neste espaço, aprofundar uma discussão sobre a
expropriação simbólica que esse samba representa, ao colocar um grande
artista popular, negro, a legitimar as estratégias da classe dominante
para conformar corações e mentes a uma realidade que lhes interessa
construir e perpetuar. Quanta vida tem de se tornar invisível, quanta
diversidade humana, quantas preciosidades culturais são apagadas para
produzir esse simulacro perverso?
Como diz sabiamente o MC Créu: pra dançar essa dança tem que ter disposição.
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