Carolina,

Eu já acompanho a programação da TV Pública. Até mesmo porque sou
líder de um grupo de discussões sobre a programação cultural que ela
está exibindo.

Acho muito louvável o que ela já vem fazendo. O Franklin é muito bem
intencionado, entende de música e adora samba e choro.

Aguarde os próximos capítulos...

Em 17/03/08, Carolina Gonçalves Alves<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> Sobre a televisão...
>
>  Gente diante desse panorama será que a TV pública terá um "algo a
>  mais" para ofecerer??? É uma questão...
>
>  Carol
>
>  Em 17/03/08, Juliana Férrer<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
>
> > Gente, a Globo dispensa comentários, não? Novelas terríveis, big brother,
>  > faustão, luciano huck, os tejornais muito mais ou menos..caramba, o que
>  > sobra de bom para ser educativo, com um mínimo de conteúdo para cabeças
>  > pensantes????
>  >
>  > Na boa, tá difícil...
>  >
>  > Em 17/03/08, Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
>  > >
>  > > É, isso tudo só vem a confirmar uma hipótese que levantei, quando nós,
>  > > reles
>  > > mortais temos em nossos sentidos, tanta informação de duplo sentido e
>  > > intenção, faz com que aqueles que detém esse famigerado poder tenham
>  > > também
>  > > maior poder de decisão (em todos os segmentos sociais), nós viramos 
> apenas
>  > > fantoches a engolir e até a promover (sem querer em alguns casos) o que 
> os
>  > > detentores do poder impõem.
>  > > A nossa verdadeira cultura está a muito ameaçada, por esses exemplos de
>  > > total falta de compromisso com a realidade, nós estamos ultimamente
>  > > vivendo
>  > > e consumindo falsidades. Essa novela é um grande exemplo, ela mesma não 
> se
>  > > define, ela ao mesmo tempo quer retratar uma realidade falsa e também
>  > > fazer
>  > > críticas (algumas veladas) de costume. Poderíamos enumerar absurdos, ou 
> do
>  > > que existe de falso nela, eu dou por ex. dois exemplos: ela apresenta uma
>  > > casa de shows cujo proprietário exibe um comportamento de homossexual 
> para
>  > > conseguir melhor se impor como empresário do ramo (isso existe?) e a sua
>  > > casa diz em cartaz gigante que é 100% Brasileira, se toda a decoração é
>  > > "country", se todos os números são também baseados em coreografias do
>  > > faroeste americano. Fica até difícil saber qual é a deles, quase tudo lá 
> é
>  > > falso. Isso me lembra uma música do Lenine, Dudu e Jô Falcão interpretada
>  > > pelo Cláudio Lins, cujo título é exatamente sobre isso tudo ou seja 
> Falso.
>  > >
>  > > Um abraço.
>  > > Caio Pontual
>  > >
>  > >
>  > > ----- Original Message -----
>  > > From: "Carolina Gonçalves Alves" <[EMAIL PROTECTED]>
>  > > To: "Samba e Choro" <[email protected]>
>  > > Sent: Saturday, March 15, 2008 11:27 PM
>  > > Subject: [S-C] Sociedade do Créu, velocidade 5
>  > >
>  > >
>  > > A quem interessar...
>  > >
>  > >
>  > > Gente me desculpem, sei que o debate aqui é sobre samba e choro. Mas
>  > > diante das últimas discussões sobre o funk aqui na tribuna, acho que
>  > > este texto ajuda a fomentar o debate. Na minha opinião pouco interessa
>  > > ser o funk bom ou ruim! Priorizo uma avaliação do social  às opiniões
>  > > individuais. Fico particularmente tentada a pensar o funk enquanto um
>  > > fenômeno social. Esse texto nesse sentido se mostra muito
>  > > interessante. Ao debate!
>  > > Carol
>  > >
>  > > Sociedade do Créu, velocidade 5
>  > >
>  > > por Adriana Facina, publicado originalmente em
>  > > http://www.fazendomedia.com/, em 04.02.2008
>  > >
>  > >
>  > > Numa conversa com amigos, estávamos debatendo o sucesso musical da
>  > > temporada: a Dança Créu, composição do MC Créu. Nas rádios mais
>  > > populares, nas emissoras de TV, em bares, festas, comemorações de
>  > > família, brincadeiras de criança, em todo lugar o que se ouve é a
>  > > música que ensina uma dança, a ser executada em 5 velocidades, mexendo
>  > > os quadris de um jeito supostamente sensual, ao som do refrão que diz
>  > > repetitivamente créu créu créu.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > A letra simples, fácil de ser memorizada, acompanhada de uma dança que
>  > > é também um desafio, pois o grau de dificuldade vai aumentando
>  > > progressivamente e o próprio MC confessa na música que não consegue
>  > > acompanhar a velocidade 5, dão um tom lúdico, de brincadeira.
>  > > Certamente, isso ajuda muito na sua popularização, especialmente entre
>  > > crianças. E também entre jovens adultos que tiveram sua educação
>  > > musical baseada em sucessos da axé music como Segura o tchan e Na
>  > > boquinha da garrafa, todos acompanhados de danças erotizantes.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Mas há também algo além disso. Ficamos pensando na relação dessa
>  > > música com a sociedade em que vivemos. Bancos apresentando seus lucros
>  > > bilionários, como o Bradesco, com o faturamento recorde de R$ 5,817
>  > > bilhões líquidos obtidos entre janeiro e setembro de 2007. Lucros
>  > > sustentados por juros escorchantes e políticas públicas que, sob o
>  > > manto generoso da pretensa dívida que nunca sofreu uma auditoria
>  > > séria, transferem massas de recursos públicos, provenientes dos
>  > > impostos pagos pela população brasileira, para as garras das
>  > > instituições financeiras privadas.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > As corporações midiáticas fabricando mentiras, disseminando medo e
>  > > desinformação, numa cruzada obscurantista para manter as coisas no seu
>  > > devido lugar. Saúde e educação a míngua, com pessoas morrendo perante
>  > > olhares indiferentes da boa sociedade e com crianças sem escola, seja
>  > > por falta de professores, seja para se proteger da violência gerada
>  > > por políticas de insegurança pública. Consumismo desenfreado,
>  > > estabelecendo as fronteiras que separam as vidas que valem alguma
>  > > coisa e as que não têm nenhum valor em nossa sociedade. Da boca do meu
>  > > amigo, que tem o profético nome de Bruno Deusdará, veio a pérola: "o
>  > > que é tudo isso senão a sociedade do créu? E mais: é velocidade 5!"
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Logo depois dessa conversa, estava vendo a novela da Globo, Duas
>  > > Caras, cujo título mais apropriado seria Descarada. Infelizmente,
>  > > tenho conseguido acompanhar pouco essa novela. Mas é impressionante a
>  > > desfaçatez de sua pregação ideológica. Talvez por isso os baixos
>  > > índices de audiência. Definitivamente, a gente não se vê por ali.
>  > > Favelados não se vêm ali. Gente que vive oprimida pelas milícias não
>  > > se reconhece na Portelinha, cujo dono é o caricato e benevolente
>  > > Juvenal Antena.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Universitários, professores ou estudantes, também não se vêm ali.
>  > > Isolado em seu mundinho de classe média alta da zona sul carioca,
>  > > apavorada e acuada pela violência alimentada e recriada pela mídia
>  > > gorda, Aguinaldo Silva tenta um realismo que se torna farsa ao
>  > > caricaturar uma realidade que não lhe é compreensível. Tudo é tosco,
>  > > os personagens são falsos, os atores não acreditam no que falam ou não
>  > > conhecem a realidade que deveriam ajudar a representar.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Bom, e o que se passava no episódio em questão? A filha da Marília
>  > > Pêra e do Stênio Garcia, que é rica e casou-se com um rapaz negro e
>  > > favelado, está grávida, contra a vontade do pai, muito preconceituoso
>  > > em relação ao genro. A moça passa mal e está na fila de um hospital
>  > > público. A mãe, quando sabe disso, vai correndo para lá e faz de tudo
>  > > para convencer o casal de que a menina ia morrer ali e que eles
>  > > deveriam superar o orgulho e aceitar sua remoção para um hospital
>  > > particular que o plano de saúde que o pai pagava dava direito.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Eles resistem, já que esse mesmo pai queria que a filha abortasse, por
>  > > não desejar ter um neto negro. Porém, a mãe argumenta que a filha ia
>  > > morrer, apresentando uma imagem do hospital público como uma sucursal
>  > > do inferno. Numa das cenas, o rapaz tenta falar com uma funcionária e
>  > > é destratado, como se o caos na saúde pública fosse responsabilidade
>  > > dos profissionais que ali trabalham.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Do modo descontextualizado como a suposta "crítica" é apresentada,
>  > > parece que o problema não é político, de prioridades no que diz
>  > > respeito às políticas públicas, mas sim que tudo que é público é ruim.
>  > > A salvação está no mercado. Só faltou o merchandising do plano de
>  > > saúde.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Imaginem um trabalhador ou uma trabalhadora, chegando em casa depois
>  > > de uma rotina cansativa de trabalho, impossibilitados de adquirir com
>  > > seus salários as doces promessas de um atendimento médico particular,
>  > > assistindo a todo esse discurso orquestrado sobre a baixa qualidade do
>  > > serviço público justamente por ser público. E toca a trabalhar cada
>  > > vez mais para realizar o sonho de comprar um plano de saúde para a
>  > > família e colocar o filho numa escola particular, símbolos de status e
>  > > de pertencimento ao mundo global.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Ironia do destino, dois dias depois, precisei ir com meu companheiro a
>  > > um hospital privado, para um atendimento de pronto-socorro, usando
>  > > plano de saúde da UNIMED. Ficamos duas horas numa fila e tivemos uma
>  > > consulta relâmpago que culminou com a prescrição de um medicamento que
>  > > custava cerca de R$ 45 reais a caixa, sendo que a receita recomendava
>  > > 4 caixas! A vida como ela é de fato é outra coisa.
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > O ataque ao setor público e a defesa incondicional do mercado marcam o
>  > > tom geral da novela. A universidade, por exemplo, cuja dona é a
>  > > principal heroína da trama, é privada. Seu modelo de excelência em
>  > > tudo contradiz o mundo real, no qual as privadas são de fato o que seu
>  > > nome diz, salvo raríssimas exceções. Afinal, quais as grandes
>  > > descobertas científicas ou mesmo quadros intelectuais relevantes para
>  > > a cultura brasileira forjados em suas dependências? Seus estudantes
>  > > rebeldes, inclusive o que está processando o ex-reitor por racismo por
>  > > tê-lo chamado de zumbi, são simplesmente idiotas. Os professores, em
>  > > especial aquele que é mais crítico, são losers, perdedores que
>  > > reclamam da vida ao invés de fazer algo de produtivo. E por aí vai...
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Em meio a essa profusão de bens culturais conformistas que a sociedade
>  > > do créu é capaz de produzir, um me chamou a atenção em especial.
>  > > Estava ouvindo uma rádio que anunciava o show Pagode do Arlindo Cruz,
>  > > que ia se realizar no teatro Rival, e o locutor dizia que seria
>  > > apresentado o Samba da globalização, supostamente uma música de
>  > > destaque que atrairia mais público para o evento. Eu, na minha
>  > > ingenuidade esperançosa, pensei: "Legal! Deve ser um samba crítico,
>  > > com tema político." E fui procurar na internet. A letra desfez todas
>  > > as minhas expectativas. Depois de louvar toda a programação da
>  > > emissora, o samba diz assim: Mais uma vez/É o time da Globo/que é
>  > > campeão/Não é mole não meu irmão/Não é mole não/A vida imitando a
>  > > arte/Isso é globalização plim plim".
>  > >
>  > >
>  > >
>  > > Não tenho como aqui, neste espaço, aprofundar uma discussão sobre a
>  > > expropriação simbólica que esse samba representa, ao colocar um grande
>  > > artista popular, negro, a legitimar as estratégias da classe dominante
>  > > para conformar corações e mentes a uma realidade que lhes interessa
>  > > construir e perpetuar. Quanta vida tem de se tornar invisível, quanta
>  > > diversidade humana, quantas preciosidades culturais são apagadas para
>  > > produzir esse simulacro perverso?
>  > > Como diz sabiamente o MC Créu: pra dançar essa dança tem que ter
>  > > disposição.
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