Publicado no Jornal da Comunidade Edição nº 1017, de 24 à 30.05.2008, pág. C8,
Caderno Educação e Ciência.
Fonte: http://www.jornaldacomunidade.com.br/?idpaginas=15&idmaterias=335258
Educação & Ciência
A odisséia do samba
Considerado um dos traços mais fortes de nossa identidade cultural, o samba foi
perseguido pela polícia no início do século passado. Mas conquistou a classe
média, tornou-se um símbolo da nacionalidade e até hoje mobiliza multidões com
seu ritmo cadenciado
WASHINGTON SIDNEY
[EMAIL PROTECTED]
Dizem que ele nasceu na Bahia, nas rodas de capoeira. O compasso era marcado na
palma da mão. Mas o fato é que chegou no ventre da Mãe África e foi no Rio de
Janeiro que cresceu e se desenvolveu. No final do século XIX, com a Abolição da
Escravidão, negros recém-libertados migraram de várias partes do país,
inclusive da Bahia, para o Rio, então capital da República. Era lá que as
mercadorias e as idéias circulavam e onde havia a possibilidade de se ganhar a
vida com o trabalho livre.
Por não terem qualificação, os negros se submetiam ao trabalho pesado. E as
negras, também, se viravam como podiam. Eram quituteiras, domésticas,
vendedoras ambulantes. Algumas delas juntaram dinheiro e compraram velhos
casarões no centro da cidade, em especial na Lapa, onde passaram a dar festas e
a explorar o jogo de azar e a prostituição. Ficaram conhecidas como as “tias
baianas”. Foi nesse ambiente, cercado pela roleta e o bacarat e embalado por
festas e rituais clandestinos de candomblé, que o samba se criou. Nas festas na
casa de Tia Ciata, a mais famosa delas, surgiu a primeira geração do samba.
Sinhô, Donga, João da Baiana e Pixinguinha foram alguns dos primeiros expoentes.
Como toda manifestação cultural dos negros, o samba era perseguido pela polícia
no início do século passado. Quando davam batidas, os policiais desfaziam as
rodas de samba, prendiam os sambistas e apreendiam os instrumentos. O samba
acabava sempre na DP. Isso só mudou na primeira década do século passado,
quando o ritmo começou a cair no gosto da classe média. O primeiro samba
gravado no Brasil data de 1917 e chama-se Pelo telefone. Teve três versões
diferentes. Uma delas dava o recado de que o samba estava liberado. “O chefe da
polícia/Pelo telefone/Manda me avisar/Que com alegria/Não se questiona/E para
se brincar... O sucesso foi estrondoso no carnaval daquele ano.
O samba ganhava a aceitação social, mas ainda preservava ranços daquele
ambiente de orgia e malandragem das casas das tias baianas. Ranços que se
acentuaram nas décadas seguintes, na medida em que os negros foram sendo
empurrados para os morros e favelas do Rio. O samba se tornava “a voz do morro”.
Deu branco no samba: surge Noel
A história costuma ser irônica. Pois assim como o futebol foi criado pelos
brancos e teve como expressão máxima o negro Pelé, o samba, de origem negra,
elevaria um branco de classe média à condição de maior gênio da história desse
ritmo. O nome dele: Noel Rosa. Noel foi um estudante de medicina que desistiu
da carreira para se dedicar à música popular e à boemia. Era sua grande vocação.
Seduzido pelo ambiente boêmio que cercava o samba na época, Noel virava
madrugadas compondo e cantando nos bares de Vila Isabel, bairro de classe média
carioca nas primeiras décadas do século passado. Bebia e fumava demais. Por
isso, morreu de tuberculose aos 27 anos, em 1933, mas, apesar da morte precoce,
deixou uma obra inestimável e enriqueceu como poucos a música popular
brasileira. Até hoje se ouve clássicos de autoria dele, tocados em bailes e
festas. Teve suas músicas gravadas por quase todos o os cantores e até hoje é
reverenciado como o grande mestre do samba.
Depois dele, o samba ganhou sofisticação rítmica com Geraldo Pereira e revelou
outros grandes nomes, como Ary Barroso e o baiano Dorival Caymmi. Por sinal,
foi com base na obra deste último que o samba penetrou os estúdios de Hollywood
na voz e na interpretação de Carmem Miranda, abrindo o caminho para a bossa
nova. Mesmo assim, o samba nunca abandonou os morros do Rio de Janeiro,
consagrando compositores populares como Cartola, Nélson Cavaquinho, Zé Ketti e
Paulinho da Viola.
_________________________________________________________________
Conheça o Windows Live Spaces, a rede de relacionamentos do Messenger!
http://www.amigosdomessenger.com.br/
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta