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Hermínio Bello de Carvalho critica mudanças no Projeto Pixinguinha
JB Online
RIO - O compositor, produtor musical e poeta brasileiro Hermínio Bello de
Carvalho escreveu uma carta ao atual ministro da Cultura, Juca Ferreira,
criticando as mudanças ocorridas no Projeto Pixinguinha. Carvalho é
considerado um dos maiores conhecedores de MPB do país. O documento foi
divulgado publicamente no blog do ator Antônio Grassi, que ocupou o cargo de
presidente da Funarte entre 2003 e 2007 e foi o responsável pela
revitalização do Pixinguinha.
O projeto musical, que integra os editais da Funarte (Fundação Nacional das
Artes), antes promovia o intercâmbio entre artistas de diferentes Estados
brasileiros, agora restringe a mobilidade geográfica dos músicos: segundo o
novo edital, os participantes devem se apresentar em três munícipios de seus
próprios Estados.
As mudanças ocorreram durante a gestão de Celso Frateschi que deixou o cargo
em momento polêmico, quando foi acusado de beneficiar a companhia de teatro
Ágora, fundada pelo próprio Frateschi. Na última sexta-feira o ministro Juca
Ferreira anunciou o ator Sérgio Mamberti como o novo presidente da Funarte.
A seguir confira na íntegra a carta de Hermínio Bello de Carvalho:
"Em defesa do Projeto Pixinguinha e da palavra empenhada"
Poderia usar um artifício em defesa do Projeto Pixinguinha, fazendo uma
colagem dos textos de Gilberto Gil defendendo aquele programa cultural nos
catálogos editados pela Funarte - mas acho que você conhece fartamente o
pensamento do ministro recém demissionário. E o "você", no caso, não subtrai
o respeito ao cargo de ministro, mas sim uma absoluta dificuldade em fazer
salamaleques, ou mesmo usar de adjetivos hipócritas - que seriam logo
desvendados, talvez pela falta de prática no ofício.
Se há quase 50 anos eu já reverenciava Pixinguinha e Cartola, a vida me deu
oportunidade de prestar atenção aos talentos que iriam enriquecer (não no
sentido vil da palavra) a minha vida, possibilitando me tornar parceiro de
vultos geniais iguais àqueles dois.
O Projeto que leva o nome de Pixinguinha faz parte desses ritos
reverenciais - assim como outros projetos que deixei aí na Funarte que, nem
na época da ditadura, sofreu com episódios como os que aconteceram
recentemente.
Também esse aprendizado me fez conhecer Clementina de Jesus, tão
representativa na minha vida quanto o foi Chico Antonio, o cantador que a
Mário de Andrade tanto impressionou. A arte de prestar atenção você pode
constatá-la num texto meu de 1966, na contracapa do LP Muito Elizeth, no
qual pedia que reparassem num jovem compositor que estava surgindo - esse
mesmo Gilberto Gil que, depois Ministro, permitiu que a chama do projeto
fosse reacesa na administração do Grassi.
Que não se enxergue hipocrisia ou adulação quando o cultuo como o grande
artista que nunca deixará de ser (acima de poderes ministeriais
provisórios). E também como um colega de profissão, que veio em minha casa
quando fundamos a Sombrás, isso há 30 anos, para deixar uma procuração que
eu, vice do então presidente Tom Jobim, o representasse nas lutas pela
moralização dos direitos autorais, numa época em que éramos assediados pela
censura, no rastro do AI-5, que a Gil e Caetano aprisionou indecentemente.
Não, decididamente não creio que Gilberto Gil tenha renegado seus textos em
favor do projeto ou anulado, moralmente, a referida procuração. Quanto à
extinção do Pixinguinha, logo anunciada na troca de Ministros, soa como
traição ou insubordinação aos ideais daquele importante músico.
No ano passado, quando fui chamado para fazer a curadoria do Pixinguinha,
não imaginava que, na verdade, estavam me entregando uma urna ainda vazia,
na qual iriam depositar as cinzas daquele Projeto.
Aceitei o cargo sob algumas condições: que reativassem também os projetos
Lúcio Rangel de Monografias e o Radamés Gnattali (discos paradidáticos),
além de propor a reabertura da Sala Sidney Miller e a reedição de livros do
grande Jota Efegê.
Me senti traído quando o Projeto Pixinguinha foi extinguido e mutilado, e a
edição dos livros de Jota Efegê não ganharam a merecida distribuição. Mau
uso do dinheiro público, fazendo reverter ao ostracismo aquelas reedições. E
as outras promessas feitas? Caíram no ossário do esquecimento. Também me
impressionou o clima de terrorismo que encontrei infestando aquela Casa.
É consenso que a utilização da mesma marca Pixinguinha num projeto
totalmente inverso ao original foi manobra que a ninguém iludiu. É a máquina
pública modorrenta e preguiçosa, viveiro de incompetentes moscas varejeiras
que infectam de burocracia o fazer cultural.
E criminosamente extirparam a principal característica daquele programa
apoiado por Gil: a circulação da música brasileira por todo o país. Cultura
que não circula morre de inanição, é devolvida ao anonimato.
Assim como confiei em Gil em 1966, não haveria porque não dar crédito
àqueles que executavam sua política cultural, com especial destaque para os
textos em que defendia o Projeto. Ou seriam apócrifos?
Portanto, não poderia dormir direito com minha consciência se não viesse
lembrá-lo que estar Ministro até 2010 não o desonera de fazer cumprir o que
foi prometido pela gestão anterior que comandava a Funarte.
É a homenagem que presto à minha consciência, ao não me silenciar diante de
tais iniqüidades. Estou certo de que você, igualmente avesso a desajeitados
salamaleques, há de compreender que o ano e pouco que ainda terá à frente do
Ministério da Cultura o obrigará a um olhar reflexivo sobre esse ato de
vandalismo e genocídio cultural que vem dizimando aqueles que ainda
reverenciam a palavra empenhada e se sentem desrespeitados por esse caos.
Atenciosamente,
Hermínio Bello de Carvalho
[16:32] - 03/11/2008
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