REPASSANDO!!!
Sonia Palhares (BsB-DF)
Amigos,
Ontem, em entrevista ao Estado de S. Paulo, Caetano Veloso comentou o polêmico
documentário sobre Wilson Simonal e recomendou: "Leia Eu Não Sou Cachorro Não":
"Que cantor que ele era!
"Vi o documentário e gostei muito. Vi sozinho, num cineminha de Ipanema. Mas os
outros espectadores, gente que eu não conhecia, vieram todos falar comigo, me
fazer perguntas. Falei tudo o que sei. O mais importante é a reaparição de um
dos maiores cantores que já houve no Brasil. Também é algo imenso que os
realizadores tenham conseguido o depoimento da vítima dele. Sente-se a
complexidade de tudo. O fato de Bárbara Heliodora ter sido patroa da mãe de
Simonal dá arrepios: é tanto do Brasil que se revela nisso! Ela fala com muita
dignidade.
Claro que o ponto alto é o dueto com Sarah Vaughan: que cantor ele era! E tão à
vontade na presença dela! Senti falta de uma referência à passagem de Simonal
por Natal. Estive com ele lá, depois de um show meu, a pedido de um cara que
era uma mãe para ele. Jantamos juntos e conversamos. Isso no início dos anos
80, creio. Ele estava cheio de chinfra, como se continuasse segurando o
personagem. Mas tinha cheiro de álcool e a voz, que, falando, parecia firme,
cantando não funcionava mais. Fiquei triste. Ele voltou e eu o vi na TV:
segurando o charme mas sem nem poder cantar.
Sim, 'Alegria, Alegria' teve o título inspirado nele (e no Chacrinha, que tinha
adotado o bordão). Eu o adorava. No edifício São Carlos do Pinhal, colado ao
prédio da Gazeta, éramos vizinhos e nos víamos com carinho e humor. Eu estava
bem ciente dos parentescos da Tropicália com a pilantragem. Admirava a bossa
dele mas se ntia a fragilidade do projeto ultracomercial. Os militares que me
interrogaram por 6 horas quando vim ao Brasil em 1971, numa concessão
conseguida por Bethânia com a ajuda de Chico Anísio e Benil Santos,
interrompendo o exílio para estar no aniversário de 40 anos de casamento de
meus pais, me disseram, entre ameaças e seduções, para eu colaborar com eles,
que Simonal já o fazia. Disseram outros nomes. Não acreditei. Decidi não
acreditar.
Houve canção feita para o governo militar por compositor/cantor que também é
preto, e a desgraça não caiu sobre ele. Leia "Eu Não Sou Cachorro Não". Simonal
se pôs num lugar para que acontecesse a tragédia. É terrível, porque tem algo
como uma caricatura da impossibilidade de um pretinho talentosíssimo, filho de
cozinheira, cumprir um destino positivo até o fim."
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