Sobre o caso Simonal
Artigo de Carlos Machado, poeta e jornalista
Depois que o Paulo Vanzolini declarou que Simonal se gabava de ser
dedo-duro, os produtores do filme “Ninguém Sabe o Duro Que Dei” (segundo
Jânio de Freitas, falta a palavra 'dedo' aí nesse título), deram uma
resposta. Eles retrucaram ao Vanzolini citando Chico Anysio: que apareça
alguém mostrando que foi preso por ação do Simonal.
Ora, para quem viveu e sofreu a ditadura, isso é uma bobagem. Nem todo
mundo que delatou está registrado. Não era de esperar, mesmo, que
Simonal integrasse os quadros do Dops, no sentido de ser um informante
assalariado. Ele era tão ou mais famoso que o Roberto Carlos. Acho mesmo
que fazia mais barulho do que RC. Se foi informante, era um que escolheu
essa condição, sem paga.
Mas o grande pecado do filme e de toda a imprensa que usa o episódio
Simonal para investir contra uma fantasmagórica "esquerda" ou a "falta
de coragem da classe artística" é não citar os fatos.
Eis os fatos. No julgamento civil (é bom citar esse adjetivo, já que o
país estava sob uma ditadura militar), Simonal levou como suas
testemunhas de defesa um oficial do I Exército e um policial do Dops. O
primeiro disse que o cantor era "colaborador das Forças Armadas". O
outro declarou, com todas as letras, que Simonal era informante do Dops.
Pior ainda: que Simonal fornecera "informações positivas sobre colegas
subversivos" (Ruy Castro, em texto citado mais abaixo). Ou seja: era um
informante de resultados: não apenas dava o serviço como tudo se comprovava.
Em outras palavras, isso significa que o esperto Simona queria usar o
peso dos "homens" para livrar a cara do processo em que se envolveu, sob
a acusação de seqüestro e tortura de seu ex-contador. Ou, em outra
suposição, os "homens" o instruíram a assumir essa postura para salvar a
pele deles, policiais, já que usaram o Dops para assuntos "estranhos ao
serviço". Eles e o cantor fizeram uma tremenda trapalhada, indefensável
perante os chefes da repressão.
A manobra não deu certo. Primeiro, porque Simonal foi condenado a cinco
anos de prisão. Está bem, cumpriu somente alguns dias, mas foi
condenado. Depois, porque, com isso, tornou públicas suas relações
altamente questionáveis com torturadores e afins. Além disso, assim
confessou publicamente, e em juízo, que era dedo-duro. Meteu-se numa
sinuca de bico. O lado popular (trabalhadores, intelectuais, estudantes,
artistas etc.) naturalmente repudiava os delatores. E o lado que ele
escolheu não lhe serviria muito a partir de então. Os "homens" não
poderiam forçar os produtores de espetáculos a contratá-lo, se o público
não estava mais a fim de ouvir um dedo-duro. Além disso, a confusão
perpetrada no Dops também não interessava à repressão. Simonal ficou
sozinho no meio da rua.
A notícia do que rolou no processo saiu nos jornais. Então o Pasquim -
publicação de humor e crítica à ditadura - começou a tirar sarro do
Simonal, com charges centradas em sua condição de dedo-duro. Alguns
falam que o Pasquim "acusou sem provas". Provas? Mas o sujeito, ele
mesmo, não se gabava de ser dedo-duro? Os amigos dele não foram lá e
confirmaram suas bravatas?
***
Mas temos de considerar as trágicas ironias dos regimes de exceção. Até
aceito que Simonal não fosse exatamente um dedo-duro. Era um cara com
idéias do lúmpen-proletariado, deslumbrado pelo poder. Poder, poder. E
como os fardados e os torturadores eram os senhores da situação, ele - o
grande vencedor das platéias, dono de contratos milionários de
publicidade com a Shell - também se sentia um deles. Eis por que se
jactava de estar com os homens. O cara não tinha a menor consciência social.
Nesse delírio de poder, ele cultivava "aquelas" amizades e resolveu dar
uma lição no contador, a quem acusava de desfalque. Os amigos dele
levaram o contador para "acertar as contas" no Dops. Torturaram o homem.
Ameaçaram pegar a família dele. Forçaram-no a confessar o roubo.
Eles pensaram que, com o poder que tinham, iria tudo ficar por isso
mesmo. Só que a mulher do contador - um viva às mulheres! - praticamente
forçou-o a dar queixa na polícia. Aí começou o fim do Simonal.
Com o processo civil que se formou, os jornais divulgaram os fatos.
Afinal, o homem era hiperfamoso. Como a coisa fugiu do controle, é
provável que os amigos - para livrar a própria cara e a do Simonal -,
devem ter orientado o cantor a dizer que era informante. O tonto topou e
levou testemunhas "idôneas" para provar isso. Pior ainda: numa
comprovação "inequívoca" de que era mesmo informante, disse que o
contador era "subversivo". O objetivo disso seria justificar a fato de o
sujeito ter sido levado para as dependências da polícia política - não
podia ser para resolver uma questão pessoal.
***
Mesmo com a hipótese de Simonal não ter sido exatamente um dedo-duro, as
coisas não ficam "limpas" para ele.
Além disso, levanto uma hipótese - que ninguém nunca levantou. Está bem:
o cara ficou com a mão na cumbuca ao declarar em juízo que era
dedo-duro. Mais uma vez, admitindo que ele não fosse, é claro que ele
não poderia negar isso durante a ditadura. No entanto, depois de 1985,
ele teve plenas condições de contar tudo. Não o fez. Ficou, o tempo
todo, dizendo que não era dedo-duro. E só. Nunca revisitou os fatos,
esclarecendo-os.
Se ele realmente estivesse interessado em livrar-se da pecha de
dedo-duro, teria feito isso, entrando nos detalhes. Seria o papel dele
fazer um detalhado mea-culpa, reconhecendo que na época era um parvo,
não percebia o que estava acontecendo e não percebeu sequer que tudo
aquilo poderia prejudicá-lo seriamente.
Então diria: de fato, fiz isso, isso e isso. Dei a entender que teria
feito isso, isso e aquilo. Mas essas outras coisas a mim atribuídas não
eram verdadeiras, por isso, isso e isso. Ou seja: ele já estava tão
queimado que só o tim-tim-por-tim-tim poderia ajudá-lo em alguma coisa.
Mas ele nunca fez isso. Em favor dele, pode-se lembrar que, depois de
1985, talvez ele já estivesse muito prejudicado pelo álcool, que afinal
o levaria à morte, e não tinha coordenação para defender-se.
De todo modo, ele não se defendeu convenientemente.
Tenho aqui nas mãos o volume (livreto e disco) da "Coleção Folha" 50
Anos de Bossa Nova - Wilson Simonal. O texto do livreto é de Ruy Castro.
Eis dois trechos do jornalista e biógrafo:
- Simonal apresentou-se para se defender e, talvez para se garantir,
confessou-se "de direita", partidário dos militares no poder.
- Seu nome desapareceu da mídia, suas platéias idem e quase todos os
amigos também. Exceções: Miéle e Bôscoli, Elis Regina, Nelson Motta,
Carlinhos Lyra, Caetano Veloso, Laurinha e Abelardo Figueiredo, poucos
mais. Eles "sabiam" que Simonal era inocente - não podiam imaginá-lo
roubando tempo de sua sarabanda de shows, louras e carros para
fiscalizar a ideologia de colegas, assunto de que, de resto, não
entendia nada. Mas esses amigos se queixam de que nem a eles Simonal se
explicou direito.
Ou seja, Simonal poderia ter:
1. contado a esses amigos o que realmente aconteceu;
2. contado em detalhes aos filhos;
3. convocado a imprensa e contado tudo, alegando sua inocência;
4. pedido a ajuda de alguns dos amigos influentes e escrito um livro;
5. gravado um áudio ou vídeo caseiro contando tudo;
6. admitido os próprios erros, gravando uma fita e determinando que só
poderia ser executada X anos após sua morte.
Ele nunca fez nada disso. Apenas repetiu que era inocente. Certa vez foi
ao Jô Soares e, ao tratar do assunto, comportou-se como quem tinha algo
a esconder, e não a esclarecer.
Tudo que não fosse a verdade detalhada só jogaria contra o cantor.
Sempre soaria como: "o cara tem culpa no cartório", tem algo a esconder.
Em suma, discordo respeitosamente dos filhos dele quando propõem que o
assunto Simonal se deve reduzir ao grande artista que ele foi. Se eu
fosse filho dele, talvez também fizesse as mesmas coisas em favor da
memória de meu pai. Mas fatos são fatos. Obter da OAB um
documento dizendo que não há registro de alguém ter sido preso por
delação de Simonal - isso não basta para salvar a reputação do cantor.
Muita gente entregou pessoas à repressão sem que isso ficasse registrado
nos documentos da ditadura. Documentos esses que até hoje não são
conhecidos na sua integridade, sem contar o que os militares,
decretadamente, destruíram.
Com isso, discordo também dos produtores do filme.
Aliás, há outra gravíssima consideração a fazer: Simonal foi a única
pessoa, em toda a história da ditadura militar (1964-1985), a revelar
publicamente que era dedo-duro. Isso é terrível, mesmo que não seja verdade.
O cantor foi vítima de sua própria arrogância e falta de consciência
social e também, claro, da ditadura. Num momento de democracia, esse
imbróglio (admitindo que ele não era, pura e simplesmente, um delator)
não poderia ter acontecido.
Agora, a imprensa trata do assunto como se 1971 fosse 2009. Sem a
perspectiva histórica, é impossível entender essas coisas. Lembre-se,
por exemplo, que o simples fato de acusar falsamente o contador de
subversivo poderia levar à morte do acusado. Em 1975, Vladimir Herzog,
jornalista, com emprego e endereço conhecidos, entrou voluntariamente no
Dops de São Paulo para atender a uma intimação. Não sobreviveu para ver
nascer o dia seguinte.
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