Correio Braziliense
MPB
Uma bela voz e três violões
Teresa Albuquerque
Marcos Sacramento é um sujeito urbano, que gosta de andar pelas ruas, ganhar a
cidade a pé. Leitor de João do Rio, observador da alma encantadora dos grandes
centros, o cantor mora na parte mais antiga da capital fluminense, ali, bem no
pé da ladeira de Santa Teresa, quase na Lapa. Da varanda, a paisagem traz à
tona a memória afetiva, as histórias contadas pelos pais, o Rio de Janeiro de
Noel Rosa, Cartola e J. Cascata, compositores que adora interpretar. “Você não
pode fazer nada apontando para o futuro sem estar por dentro do que aconteceu”,
ensina ele, que também vê da janela os personagens de hoje, a turma da Lapa com
quem divide palcos e estúdios — e recria clássicos como Último desejo, Sim e
Minha palhoça.
As canções de Noel, Cartola e Cascata estão entre as 12 faixas de Na cabeça, o
oitavo disco de Marcos Sacramento. O álbum foi gravado ao vivo no estúdio da
gravadora Biscoito Fino, em março, com três violonistas de primeira: Zé Paulo
Becker, Luiz Flávio Alcofra e o goiano-brasiliense Rogério Caetano. “São três
feras de personalidade forte”, comenta o cantor, que encerra excursão pela
Europa na próxima sexta-feira, com show em Bolzano, na Itália, ao lado do
bandolinista Hamilton de Holanda, a convite do pianista Stefano Bollani. O
concerto é a cereja do bolo da turnê de duas semanas, que incluiu cinco
apresentações na França para o lançamento do CD e uma em Amsterdã.
Este é o sexto ano consecutivo que Sacramento se apresenta na Europa. “Lá
existe um circuito alternativo que funciona bem, com público superinteressado”,
conta ele, feliz da vida por levar sua “miniorquestra” de cordas para mostrar o
disco que considera o melhor dos 15 anos de carreira. “Não chega a ser uma
coisa ousada (gravar com um trio de violões). Cássia Eller, por exemplo, fez
isso na linguagem pop rock dela”, observa. “A minha ideia era fazer uma
experiência com esses três violonistas, que têm pegadas diferentes e sozinhos
já são enormes. O resultado deu samba, né?”
Luiz Flávio Alcofra, o violão ouvido do lado esquerdo (sim, o produtor separou
os três na mixagem), é o fiel escudeiro do cantor, o acompanha há 10 anos.
Rogério Caetano, escutado ao centro, está com ele desde a turnê de Sacramentos,
álbum de 2006 (“É um dos maiores sete cordas do Brasil na atualidade”, elogia).
Com Zé Paulo Becker (o da direita), de quem era já fã, Sacramento só dividiu o
palco há pouco tempo, ao ser convidado para participar de um show dele no Rio.
Foi daí que veio a ideia de juntar os três num disco, valorizando o aspecto
percussivo do violão.
Os três instrumentistas se revezam nos arranjos e também assinam composições do
CD. Alcofra é autor de Calúnia, Na cabeça (com Sacramento) e Pavio (com Sérgio
Natureza). De Becker foi pinçada a ótima Canto de quero mais, parceria com
Moyseis Marques. Rogério Caetano não compôs nenhuma, mas foi por causa dele que
Sacramento gravou um bolero mexicano, Prisioneiro do mar, conhecido na versão
do Trio Irakitan. “Um dia na van, numa excursão pelo Nordeste, Rogerinho
começou a tocar essa música e eu fiquei apaixonado pela melodia. Bolero era uma
febre no Brasil, cresci ouvindo bolero em espanhol. Entrou no disco também pela
memória afetiva”, lembra o cantor, que adora andar por aí, de olho na
modernidade da tradição.
http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_53.htm
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