Ione , tudo em paz querida?
Olha só, estou te repassando esse comentário feito por Zuza Homem de Melo sobre
o Noel Rosa e veja lá no final o que ele diz do seu disco e sobre vc. Fiquei
muito feliz por este reconhecimento do seu trabalho.
Grande Beijo
Ary
----- Mensagem encaminhada ----
De: Caio Tiburcio <[email protected]>
Para: [email protected]
Enviadas: Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010 13:48:49
Assunto: [S-C] Valor Econômico: O feitiço de Noel/Zuza Homem de Mello
"O feitiço de Noel", artigo de Zuza Homem de Mello, no Valor Econômico de hoje,
12 de fevereiro, está abaixo transcrito.
Caio
Tiburcio==========================================================================================
VALOR ECONÔMICO
São Paulo, 12 de Fevereiro
Capa: No centenário do Poeta da Vila, um dos compositores mais originais que a
música brasileira já conheceu, livros, discos e shows revisitam sua vida e
obra. Na segunda, desfile na Sapucaí inaugura onda de celebrações, que se
encerra em dezembro, com festa na ABL.
O feitiço de NoelPor Zuza Homem de Mello, para o valor, de São Paulo
12/02/2010
O que causa espanto na obra de Noel Rosa não é apenas o colossal avanço que ela
deu às letras da canção brasileira. É fato que não há como comparar as crônicas
primorosas e rimadas do cotidiano, contidas em seus imaginosos versos
musicados, com as tentativas de ressaltar com ingenuidade um ou outro episódio
meramente curioso, que é o que existia nos sambas de seus antecessores. Nem há,
por outro lado, como cotejar esse mesmo repertório anterior a Noel com o de
suas canções sobre as vicissitudes da paixão, valorizadas por originais toques
de ironia, que estabeleceram padrão elevado na música popular. A partir de Noel
altera-se o nível de exigência para o que viesse a ser criado por seus
contemporâneos e por autores posteriores.
Também causa espanto, e agora na vida de Noel, o desconcertante enredo com
episódios insólitos, hilariantes e tragicômicos que delinearam sua breve
existência, causa espanto a trajetória desse artista da classe média carioca
descuidado com os atos da rotina, o que lhe custou a própria vida.
O mais espantoso, porém, é que essa obra, de aproximadamente 260 canções que
atravessaram os anos sem que muitas tenham envelhecido, foi elaborada num
espaço de tempo inacreditavelmente curto, apenas sete anos. Uma pesquisa na
música popular universal provavelmente revelaria não haver outro caso de uma
relação semelhante. Sem esquecer que essa produção, com dezenas de
obras-primas, foi elaborada por esse prodígio da nossa música entre seus 20 e
26 anos. Com efeito, teoricamente surgiam a cada ano mais que 30 canções
inéditas, algumas delas criadas rapidamente nas mais inesperadas situações.
Certa vez, Noel foi apresentado pela dona de uma festa no bairro da Tijuca à
moça que havia namorado tempos antes. Ao lado de seu novo namorado, para
surpresa do ex, ela tentou encobrir o romance anterior assim se expressando:
"Prazer em conhecê-lo". Noel ficou zonzo, jururu num canto, abandonando a festa
com seus amigos logo depois. Foram diretamente a um bar do centro e, num papel
que pede ao garçom, escreveu apressadamente a letra de "Prazer em Conhecê-lo":
"Quantas vezes nós sorrimos sem vontade/ com o ódio a transbordar no coração/
por um simples dever da sociedade/ no momento de uma apresentação./ Se eu
soubesse que em tal festa te encontrava/ não iria desmanchar o teu prazer/
porque, se lá não fosse, eu não lembrava/ de um passado que tanto nos fez
sofrer (...) frente a frente/ naquele instante, mais frios do que gelo/ mas,
sorrindo, apertaste minha mão/ dizendo então/ tenho muito prazer em conhecê-lo
(...) que mais prazer/ eu teria em não te conhecer."
O caso ilustra a facilidade de Noel em tirar partido de uma situação por ele
vivida horas antes não só para descrevê-la com admirável forma rítmica e
rimada, mas ainda acrescida de uma reflexão final que se enlaça com a melodia
criada, nesse caso com a colaboração de Custódio Mesquita. Tão frequentes eram
tais arremates em suas letras, semelhantes às conclusões de fábulas de La
Fontaine, que Noel seria futuramente apelidado de o filósofo do samba ("Ninguém
aprende samba no colégio (...) quem suportar uma paixão/ sentirá que o samba
então/ nasce do coração").
Como seus contemporâneos compositores - sobretudo Lamartine Babo, Ary Barroso e
João de Barro - Noel confiava no que ocorria em seu dia a dia, em sua cidade ou
até no exterior a fim de colher inspiração para as marchinhas de Carnaval, as
emboladas, os foxtrotes, as valsas e, principalmente, para o gênero em que se
tornou mestre, o samba, em andamentos diferentes. Numa ponta, os tipicamente
batucados (alguns em parceria com Ismael Silva, iletrado musicalmente, porém um
dos bambas criadores da seminal batida denominada de "samba do Estácio") e, na
outra, os sambas lentos de caráter lírico (alguns em parceria com Vadico,
pianista/arranjador paulista com sólida formação musical e compositor de
harmonias refinadas para suas envolventes melodias). Muitos desses últimos se
constituiriam no que seria, anos depois de sua morte, reconhecido como o
samba-canção. É o que confere a Noel Rosa a condição de verdadeiro precursor.
É bem possível que esse pioneirismo estilístico, essa inventividade em tantos
elementos de uma composição, seja a razão de Noel não ter tido o sucesso
merecido em vida. Seu comportamento desregrado entregue à boemia atuando como
artista de rádio nas incipientes emissoras da época e varando madrugadas pelos
bares e cabarés cariocas deram-lhe em vida um estigma que superou sua atuação
como compositor. Aliás, como afirmou o jornalista João Máximo, profundo
conhecedor da matéria, "Noel Rosa pode não ter sido o melhor compositor popular
de seu tempo, mas foi o mais importante". Máximo lança, agora, o livro "O Morro
e o Asfalto no Rio de Janeiro de Noel Rosa" (Editora Aprazível, 204 págs., R$
140,00).
Noel implantou um novo estilo na música popular, o estilo que acabou vingando
na obra de grande parte dos mais conhecidos compositores brasileiros: o do
samba urbano, com melodias requintadas e novos motivos poéticos. Seus versos
ora coloquiais, ora críticos, ora líricos, ora humorísticos, ora satíricos e
muitas vezes filosóficos, moldam esse estilo. Há composições sob a forma
epistolar ("Cordiais Saudações"), há rimas surpreendentes (pinote com foxtrote,
chute com vermute, orquestra com Palestra), há rimas internas (grito tão
aflito, gerente impertinente), referências de época (cerveja Brahma, Gandhi, o
telefone 344333), de local (Piedade, Cascadura, Penha), gírias (dar um beiço,
funil), há expressões que se consagraram (com que roupa?), há artifícios
curiosíssimos, como o gaguejar de um personagem ("Gago Apaixonado"),
brincadeiras gramaticais (Picilone) e anatômicas (Coração) e naturalmente
existem as emocionantes citações
sobre o bairro em que nasceu, viveu e morreu: "São Paulo dá café/ Minas dá
leite/ mas a Vila Isabel dá samba".
Não foi senão mais de dez anos após sua morte aos 26 de idade que a maturidade
da obra de Noel começou a ser reconhecida em sua magnitude. Deveu-se a uma
iniciativa inédita na fonografia brasileira a partir da gravadora Continental
dirigida por João de Barro, de quem fora parceiro. Em plena fase dos discos de
78 rotações, embalados individualmente em envelopes pardos e de mínimo
interesse gráfico, foi produzido em setembro de 1950 um álbum em capa dura com
a ilustração, assinada por Di Cavalcanti, de um seresteiro tocando violão e
textos internos de Lúcio Rangel e Fernando Lobo contendo três discos. As
orquestrações foram caprichosamente elaboradas por Radamés Gnattali e a
interpretação entregue à mais indicada para cantá-las, sua amiga Aracy de
Almeida.
O timbre anasalado e a inflexão evocativa da voz de Aracy (cuja intimidade com
a obra de Noel vinha desde 1935 com a gravação de 14 de suas composições) deram
uma vida que poucos imaginavam existir nos sambas-canção que dominavam o
repertório - "Feitiço da Vila", "Último Desejo", "Não Tem Tradução" e "X do
Problema" com acompanhamento de cordas e flauta - e nos outros dois sambas -
"Palpite Infeliz" e "Conversa de Botequim", com Aracy escorada pelo Quarteto
Continental, na verdade o Quarteto de Radamés com ele (piano), Zé Menezes
(guitarra), Luciano Perrone (bateria) e Vidal (contrabaixo).
Uma vez reativada, a chama da obra de Noel provou ter mais gás do que se
supunha, e esse produto exemplar provou como uma gravadora pode ter peso nos
rumos da música popular de um país quando dirigida por quem é da música. O
samba-canção se expandiria notavelmente no período que o historiador Jairo
Severiano reconhece como da modernidade.
Os direitos de autor duram por 70 anos contados de 1º de janeiro do ano
subsequente à sua morte. Portanto, no caso de Noel Rosa, até 1º de janeiro de
2008. Nem por isso deixaram de ser produzidas várias antologias nos formatos de
LP e CD muito antes que a obra de Noel caísse no domínio público.
A etiqueta carioca Rádio estreou no mercado fonográfico em 1953 com o
long-playing de 10 polegadas "Poeta da Vila" contendo oito composições suas em
arranjo de Aldo Taranto e cantadas por Marília Batista, sua intérprete quando
ele vivia.
Provavelmente entusiasmada com o êxito do álbum de Aracy, a EMI-Odeon lançou
ainda nos anos 50 o esplêndido LP "Noel Rosa e Sua Turma da Vila" com gravações
anteriores em que ele cantava meia dúzia de seus sambas ("João Ninguém", "Onde
Está a Honestidade", entre outros). Um precioso documento, já que a voz do
autor veio a público em vinil pela primeira vez. Por meio de sua etiqueta mais
popular (Imperial) foi compilado, em 1971, outro LP contendo 12 gravações
também reconstituídas das originais, interpretadas pelo próprio Noel, entre as
quais "Conversa de Botequim", "Com Que Roupa" e "Cordiais Saudações". Mesmo não
sendo considerado grande intérprete, numa época em que os compositores eram
ignorados e as músicas, vinculadas aos cantores, Noel canta mais solto e com
mais graça que grandes cartazes do rádio e do disco de então. Pode-se constatar
ter sido ele próprio o grande intérprete de sua obra.
Quatro anos depois, a Continental lançou também um vinil: outras seis gravações
com o autor cantando novamente com sua voz diminuta no lado A da compilação
incluída na série "Ídolos MPB", organizada por J.L. Ferrete.
Em 1966, Maria Bethânia lançou o compacto "Bethânia Canta Noel", que seria
estendido como parte de um LP de 12 polegadas.
Nos anos 80, a gravadora Eldorado entrou em cena por meio da atuação de seu
diretor Aluízio Falcão com dois álbuns originais. O de 1983, "Inédito e
Desconhecido", tem a chancela dos produtores João Máximo e Carlos Dider
(Caola), autores da mais completa biografia sobre o compositor, "Noel Rosa, uma
Biografia", lançada em 1980. Violonista e cantor do conjunto Coisas Nossas,
Caola é um fino intérprete do repertório noeliano. O projeto seguinte foi a
primeira gravação completa da opereta "A Noiva do Condutor", tendo Marília Pêra
e Grande Othelo como intérpretes principais.
O grupo vocal MPB4 gravou com capricho o LP "Feitiço Carioca" e, na mesma
década, um álbum com 26 músicas divididas entre gravações originais dos anos 30
e novas versões com cantores como Paulinho da Viola e João Nogueira (dois de
seus mais destacados intérpretes) foi o valioso brinde distribuído em 1982 pela
Fenab do Banco do Brasil.
Em 1991, Almir Chediak produziu o "Songbook ", a que se seguiu um álbum duplo,
ainda em vinil, com 22 canções gravadas na época por um elenco de estrelas como
Tom Jobim, Gilberto Gil, Gal Costa, João Bosco, Djavan e Chico Buarque, citado
no início da carreira como um novo Noel.
Na era do CD, há igualmente vários destaques. O primeiro é de 1995, o singelo
"Sem Tostão... A Crise não É Boato", reunindo a cantora Cristina Buarque e o
violonista Henrique Cazes, que, numa gravação ao vivo, prestaram um emocionante
tributo a Noel Rosa entremeando os sambas com divertidas histórias sobre as
aventuras do autor. O cantor Zé Renato, uma das mais lindas vozes brasileiras,
dedicou-lhe o CD "Filosofia". Em 1996, foi lançado "Coisas Nossas", com nomes
de menor projeção que o "Songbook" e resultado heterogêneo. No ano seguinte, um
dos mais curiosos CDs dedicados a Noel. Poucos imaginavam que alguém como
Johnny Alf pudesse se identificar com sua obra, que ele gravou em competentes
arranjos do pianista Leandro Braga.
Quem também se debruçou surpreendentemente sobre Noel Rosa foi o compositor
Ivan Lins numa caprichada produção de dois CDs intitulados curiosamente
"Vivanoellins", associando num "jeux de mots" seu nome a "Viva Noel". Ivan Lins
registrou sozinho ou com convidados nada menos que 36 canções em arranjos que,
mesmo fugindo ao convencional, têm o mérito de não ferir o espírito da obra.
O mais importante documento gravado no formato CD é "Noel pela Primeira Vez", a
coleção de 14 CDs com 229 composições de Noel Rosa em suas versões originais,
lançadas em 2000 pela gravadora Velas com apoio da Funarte, numa idealização de
Omar Jubran. Um verdadeiro monumento à obra do compositor, referência
obrigatória para qualquer trabalho em torno dele.
Com tão bem-intencionadas antologias, a obra de Noel Rosa foi preservada depois
de sua morte por meio dessas novas gravações das numerosas canções compostas
nos sete breves anos em que viveu bem mais para a boemia e o samba do que para
si.
Após tentar desesperadamente se curar da tuberculose, ele passou acamado num
quarto da casa materna seus últimos quatro meses. Noel morreu em 4 de maio de
1937. A vida tumultuada e a obra perdurável constituíram um prato cheio para
espetáculos teatrais, um curta-metragem de Rogério Sganzerla e o filme "Poeta
da Vila" (2009), dirigido por Ricardo van Steen.
Cabe agora indagar: além de Aracy de Almeida, quem terá sido uma grande
intérprete contemporânea de Noel Rosa, já que nenhum cantor conseguiu superar
as gravações por ele deixadas? Alguém bem pouco conhecida que teve o CD "Noel
por Ione" lançado em 2000 pela gravadora Dabliú numa produção de Ronaldo Rayol.
Trata-se da cantora Ione Papas, baiana que canta em barzinhos de São Paulo. A
enxuta capa branca abriga um disco respeitoso e emocionante com pelo menos
quatro pérolas: "Você só... Mente", "No Baile da Flor-de-Lis", "Quando o Samba
Acabou" e "Coração". Nenhuma cantora contemporânea conseguiu reviver o clima
espirituoso, alegre, trágico, irônico, elegante e lírico contido nas 15 canções
desse CD.
Ouvir Noel Rosa é o bastante para se convencer da existência em sua obra de
canções tão vivas que parecem ter sido compostas justamente no ano de seu
centenário.
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