ary marcos pero gonçalves da motta escribió:
Vinicius e demais amigos desta Tribuna, talvez não tenha exposto minha opinião com clareza suficiente. Não estou contra o Carnaval.
O pouco que eu consegui ver ultimamente do carnaval do Rio, assim de longe (e alguma coisa até de perto), me pareceu não valer mais do que o que gato enterra. Não duvido que existam espaços de resistência, algum bloco aqui e ali que faça uma festa autêntica, sem fins comerciais, mas o mainstream do carnaval, desfile na Sapucaí e essas coisas, é kitsch do começo ao fim, chanchada pra inglês ver. Mas não é nenhuma surpresa, surpresa seria que fosse diferente. Afinal de contas, o carnaval do Rio faz parte hoje da industria internacional do turismo, e em qualquer lugar do mundo o efeito dessa industria é o mesmo. Não conheço melhor descrição disso do que a seguinte, que creio se aplica perfeitamente ao carnaval carioca. Reproduzo aqui só a introdução.

JLV


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*O TURISMO E A PRODUÇÃO DO NÃO-LUGAR*
*ANA FANI ALESSANDRI CARLOS* *

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A análise do mundo moderno coloca-nos diante de uma série de desafios decorrentes das transformações aceleradas provocadas pelo processo de globalização como produto de desenvolvimento do capitalismo que destrói barreiras e ultrapassa obstáculos, como conseqüência de sua realização. Nesse processo o espaço tem papel fundamental na medida em que cada vez mais entra na troca, como mercadoria. Isso significa que áreas inteiras do planeta, antes desocupadas, são divididas entrando no processo de comercialização. Cada vez mais o espaço é produzido por novos setores de atividades econômicas como a do turismo, e desse modo praias, montanhas e campos entram no circuito da troca, apropriadas, privativamente, como áreas de lazer para quem pode fazer uso delas.

O lazer na sociedade moderna também muda de sentido, de atividade espontânea, busca do original como parte do cotidiano, passa a ser cooptado pelo desenvolvimento da sociedade de consumo que tudo que toca transforma em mercadoria, tornando o homem um elemento passivo. Tal fato significa que o lazer se torna uma nova necessidade. Isto é, no curso do desenvolvimento da reprodução das relações sociais, produz-se nova atividade produtiva, diferenciada, com ocupações especializadas que produz um novo espaço e/ou novas formas de uso deste espaço. "A civilização industrial moderna com seu trabalho parcelar suscita uma necessidade geral de lazer e de outro lado no quadro da necessidade, necessidades concretas diferenciadas". Nesse sentido cidades inteiras se transformam com objetivo precípuo de atrair turistas, e esse processo provoca de um lado o sentimento de /estranhamento/ - para os que vivem nas áreas que num determinado momento se voltam para a atividade turística - e de outro transforma tudo em /espetáculo/ e o turista em espectador passivo.

O /sentimento de estranhamento/ aparece de forma inequívoca em "Especulação Imobiliária", de Ítalo Calvino, no qual descreve as transformações ocorridas na Riviera italiana a partir da incorporação da área na rota do turismo e as mudanças que este fato provoca nos moradores da cidade diante de uma "paisagem querida que morre", da " visão de uma cidade que era sua e que se desfigurava debaixo do concreto", fatos que dificultam a identificação com o lugar da vida. Desse modo, "o lugar em que nasceu foi convertido em ruínas e a pátria que buscava é feita apenas de clichês. Ele vive neste impasse. Aos olhos, esses simulacros vê substituir tudo aquilo que acabou, acelerando sua desaparição. Implicam perda. Mas estes cenários, em vez de remeterem à falta, são, antes de tudo, construções do mundo".

A indústria do turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo fictício e mistificado de lazer, ilusório, onde o espaço se transforma em cenário para o "espetáculo" para uma multidão amorfa mediante a criação de uma série de atividades que conduzem a passividade, produzindo apenas a ilusão da evasão, e, desse modo, o real é metamorfoseado, transfigurado, para seduzir e fascinar. Aqui o sujeito se entrega às manipulações desfrutando a própria alienação e a dos outros.




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