Resgata? Como assim? Todo mundo grava Noel Rosa desde que o homem morreu.
Sonia Palhares (BsB-DF)
Martinho da Vila resgata a obra de Noel Rosa
Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil
RIO - Foi por acaso, sem planejar, que Martinho José Ferreira começou a moldar
Poeta da cidade, álbum-tributo lançado agora em homenagem aos 100 anos de
nascimento do poeta maior da Vila Isabel, Noel Rosa. Convidado pelo
departamento de Letras da PUC-Rio, que preparava um livro de ensaios sobre o
compositor, Martinho passou a selecionar e gravar algumas versões para
clássicos do mestre, que serviriam de luxuoso adendo aos trabalhos burilados
por 14 pesquisadores. Mas aos 72 anos, o compositor que cultivou por décadas o
bordão “devagar, devagarinho” como retrato de sua persona relaxada, pisou firme
no acelerador e deu ponto final às linhas melódicas antes que o registro
escrito estivesse pronto.
– Eu sempre pensei em gravar um disco com algumas coisas de Noel, mas não andei
com a ideia. Até que o pessoal da PUC pediu que eu gravasse algumas músicas,
que estariam num CD encartado no livro, mas acontece que o CD ficou pronto e o
livro, não – explica. – Acho que lidar com 14 escritores é mais difícil, fiz o
meu tranquilamente e terminei. Aí o pessoal da Biscoito ficou sabendo e veio me
dizer que a gente não podia deixar a data passar em branco.
Entre tantos poetas, filósofos ou menestréis da música popular brasileira, Noel
Rosa é, sem dúvida, um dos precursores. Homem branco da cidade, mas desprovido
de preconceitos, cruzou a linha invisível que separa o morro do asfalto para
bebericar da fonte dos compositores instalados no cume. Ao aliar o olhar
aguçado de andarilho urbano à sensibilidade boemia que rescende ao talento
artístico inato dos compositores do morro, Noel rabiscou emboladas, toadas e
cateretês até abraçar o samba como sinônimo de sua existência. Fez do gênero a
plataforma espelhada que retratava os costumes de uma sociedade moderna em
formação, no início do século passado.
– Noel foi importantíssimo para a definição do samba como o conhecemos hoje.
Ele surge num período em que o samba era amaxixado... É a partir dele que se
configura esse jeito carioca que vemos hoje – teoriza. – Isso foi possível
porque Noel admirava os sambistas do morro. Ele se aproximou dos compositores
favelados, como o Cartola e o Ismael Silva. A partir daí, mudou e urbanizou a
linguagem. Noel não tinha preconceitos, fazia parceria com todos. E por isso
ele é importante não só pela obra, mas pela postura social que adotou.
Apesar das múltiplas parcerias que colecionou em seus oito anos de curta mas
profícua atividade como compositor, Poeta da cidade ilumina a trajetória
solitária do autor, jogando luz em 14 faixas que levam apenas a sua assinatura,
sem parceiros. O recorte surgiu para nortear o trabalho de Martinho e do
produtor e arranjador Rildo Hora. Mergulhando cada vez mais fundo no manancial
criativo deixado pelo poeta, em vez de se achar, se perdiam sempre que
esbarravam com mais uma pérola do extenso repertório do compositor.
– Quando se pensa em fazer um disco sobre Noel, as opções são muitas, a gente
fica perdido – revela. – É como uma mulher que tem no guarda-roupas dezenas de
bolsas e sapatos, na hora de se vestir fica toda enrolada. Aí, decidimo: “Pô,
vamos fazer o Noel autor”. Ficou mais fácil, mas não foi fácil. Sobraram muitas
canções.
Mesmo com todo cuidado, Filosofia, assinada com André Filho, passou
despercebida pelo crivo de Martinho. Quando percebeu o esquecimento em relação
ao parceiro de Noel na faixa já era tarde.
– Esqueci completamente, mas deixamos passar – reconhece.
Em Poeta da cidade, além de retomar parcerias com Rildo Hora, com quem não
trabalhava há uma década; e Elifas Andreato, cuja assinatura dos traços no
encarte não ocorria há 20 anos, Martinho se empenha em estabelecer novas
parcerias. Por sugestão de Rildo, foi selecionado um naipe luxuoso de vozes
femininas que fazem duetos com Martinho ao longo de quase todo o trabalho. Além
das suas filhas mais conhecidas, Mart'nália (Minha viola e Rapaz folgado) e
Analimar (Coisas nossas e Quando o samba acabou), o cantor apresenta Maíra
Freitas (Último desejo) que se une às revelações Ana Costa (Século do progresso
e Eu vou pra Vila) e Aline Calixto (Fita amarela e O x do problema). Também
participa Patrícia Hora, filha de Rildo, que assume os vocais m Três apitos.
– Rildo veio com a ideia de trazer gente nova, cantoras que não estavam tão na
cara do gol. Aí ele falou que seria interessante apresentar a minha filha
Maíra.
Eu aceitei, mas só se ele viesse com a Patrícia – brinca Martinho. – Depois ele
escolheu a Ana Costa, e eu sugeri a Calixto, porque já havia feito um Som
Brasil com ela. Já conhecia e admirava o trabalho. Analimar e Mart'nália são de
casa...
Como o seu título indica, Poeta da cidade amplifica o lastro de influência do
autor para além dos arredores que usou como inspiração: os bairros de Vila
Isabel, Estácio e Vila da Penha. Cronista atento do espaço urbano, pintou em
versos carregados de pessimismo, desilusões amorosas e redenção absoluta ao
samba imagens que permanecem incrustadas ao inconsciente coletivo. De corpo
franzino e saúde fragilizada, saboreava em sílabas, versos e melodias
sofisticadas os elementos que compunham o ideal do malandro romântico, se
afastando da celebração aos truculentos brigões que empunhavam suas navalhas
nas noites quentes pelas cercanias da Lapa.
– Poeta da cidade é uma promoção ao Noel. Ele sai da Vila e abraça a cidade.
Era um autor de muitos temas, que cantava o que via e absorvia da cidade.
23:47 - 10/05/2010
Fonte: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/05/10/e100512449.asp
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