www.marioivo.com.br Like a virgin: um auto apócrifo 15 de dezembro de 2009 [image: Lindo, não?]
Lindo, não? Vão me desculpando minha insistência sobre o tal *Natal em Natal* – é que desde que as marmotas<http://www.marioivo.com.br/se-um-marciano-numa-noite-de-verao/>foram dependuradas nas árvores (o sol emaconhado em primeiro plano), os duendes de jardim fincados nos canteiros centrais, e os anjos-trombeteiros recepcionando a peregrinação rodoviária de milhares de turistas que acorrem a esta Capital, que tenho tido pesadelos constantes. Esse vai ser realmente um Natal inesquecível. Além do mais, descobri que temos até um sítio (confira aqui<http://www.natalemnatal.com/>), bem bonitinho, aliás, provando que o mundo virtual da *Cidade da Gente* é bem mais encantador que o real. Mas, enfim, pra quem acredita em Papai Noel, em trenós puxados por golfinhos e em promessas de fim-de-ano, tá tudo muito bom, muito bonito e arrumado. A boa nova é que o espetáculo *Auto do Natal 2009* tem como tema “Maria, José e o Menino Deus” e – reza o indefectível release – “é baseado no Proto-Evangelho de Tiago, considerado apócrifo, mas que traz importantes informações a respeito da vida de Cristo” [grifos meus]. Não vou nem comentar a equipe, que tem muita gente boa, de competência profissional indiscutível. Mas afirmar que *“O Proto-Evangelho de Tiago traz importantes informações a respeito da vida de Cristo, preenchendo lacunas até então criadas pelos Evangelhos constantes da Bíblia. Ele conta a vida de Sant´Ana e Joaquim, que eram considerados estéreis, mas geraram a menina Maria, educada no Templo até a sua puberdade; conta também como se deu a escolha de seu futuro esposo, José, velho, viúvo e pai de seis filhos. Narra a concepção e a virgindade, que se manteve após Maria dar à luz o Salvador numa caverna. Fala da estrela misteriosa e radiante que guiou os magos até a caverna e da nuvem de luz que pairou sobre o local, na hora em que o Senhor Jesus nasceu. Narra, também, a participação da parteira que testemunhou a virgindade de Maria, após o nascimento do Senhor e cita o testemunho de uma outra parteira que constatou a virgindade de Maria.”* é demais, né não? Como os outros evangelhos “criaram lacunas” vamos recorrer a um *apócrifo*. (Ultimamente o que tem de apócrifo por estas ribeyras não está nem no gibi quanto mais nos evangelhos.) E, como uma só parteira não basta, vamos colocar duas, para testemunhar a virgindade de Maria. O melhor vem depois: *“Com tantas informações inéditas sobre Maria, José e Jesus, pouca coisa foi inventada para o texto dramático que será encenado numa narrativa linear, sem grandes arroubos literários ou extravagâncias poéticas.”* Informações inéditas? Mais extravagante só se botassem em cena uma drag queen encarnando Madonna e cantando *Like a virgin*. *** Parece que o presidente da Funcarte achou os autos dos anos passados muito assim, livres, com muitas licenças poéticas – aliás, numa entrevista lendária <http://www.diariodenatal.com.br/2009/10/28/muito1_0.php> para Sérgio Vilar, Rodrigues Neto declarou-se “um crítico contundente dos autos anteriores” e citou até Newton Navarro como um dos autores que “fizeram coisas que fugiram à essência”. Na mesma entrevista, aliás, prometeu “um texto bíblico, baseado no texto do apóstolo Matheus” e não “uma adaptação esdrúxula”. Tá bom. Ele trocou de apóstolo, mas mudou de idéia quanto ao esdrúxulo. *** Pra botar lenha na fogueira, quero só ver o que vai dizer Laélio Ferreira quando souber que o release afirma que “em homenagem ao aniversário de 410 anos da cidade será cantada também a música ‘*Serena* do Pescador’, conhecida como ‘Praieira’, de Eduardo Medeiros”. Tudo bem que esqueceram o “ta” de “Serenata”, mas esquecer do autor dos versos? Othoniel Menezes não merece. Ainda mais porque o príncipe dos poetas potyguares – e pai de Laélio – empresta seu nome para um prêmio literário da responsabilidade da própria Funcarte. Aqui pra nós, ninguém, aliás, merece.
