Por um FLISOL Exemplar

Autor: Alexandre Oliva

A premissa fundamental do Movimento Software Livre é a de que software 
privativo de liberdade é um poder injusto que subjuga seus usuários. Nossa 
estratégia para resolver esse problema social é informar, conscientizar e 
inspirar usuários para resistir a esse subjugo, rejeitando software privativo 
de liberdade, para que essas linhas de negócios deixem de ser atraentes e 
deixem de fazer vítimas.

Para formar resistência suficiente, precisamos difundir os valores, princípios, 
objetivos e estratégias do Movimento Software Livre. Objetivos e estratégias 
podem até ser ensinados e aprendidos com palavras: manifestos, artigos, 
palestras e debates. Mas para ensinar e aprender valores e princípios, exemplos 
falam muitíssimo mais alto que palavras. Com que exemplos o FLISOL da sua 
cidade vai ensinar os valores e princípios do Software Livre?

Um visitante que tenha levado seu computador a uma sede do Festival 
Latinoamericano de Instalação de Software Livre, para experimentar Software 
Livre, pode assistir ou não às palestras, mas seguramente espera sair do evento 
com Software Livre instalado no computador. Não necessariamente 
GNU/Linux-libre, pois há outros sistemas operacionais Livres, nem mesmo um 
sistema operacional, pois o que normalmente importa aos usuários são os 
aplicativos. Cumpre a nós, do Movimento Software Livre, utilizar essa 
oportunidade para, além de instalar Software Livre na máquina, preparar o 
usuário para nos ajudar na resistência ao software privativo de liberdade, 
compartilhando as ideias do movimento. Essencial para que isso funcione é se 
comportar de modo compatível, pois palavras ensinam valores menos que o exemplo.

As mais populares distribuições de GNU/Linux não estão alinhadas com o 
Movimento Software Livre, pois oferecem e instalam software privativo de 
liberdade. O problema mais comum são controladores privativos (drivers ou 
firmware) para componentes de hardware com especificações secretas. Os 
fabricantes desses componentes pretendem mantê-los incompatíveis com a 
liberdade do usuário, dificultando o desenvolvimento de Software Livre que 
cumpra função equivalente.

Informar usuários sobre essa incompatibilidade é essencial, para que melhor 
compreendam a raiz e origem do problema e possam levar isso em conta quando 
forem comprar seu próximo computador. Certamente instalar uma distribuição que 
busca esconder esses problemas dos usuários não ajuda a informá-los, por isso 
mesmo parabenizo a iniciativa da petição para que o FLISOL deixe de instalar 
Ubuntu, bem como a adoção de recomendação nesse sentido pela coordenação 
nacional brasileira e por várias sedes. Começar por reduzir a maior 
transgressão é um ótimo primeiro passo! Mas não chega a resolver o problema de 
coerência do FLISOL com o Movimento Software Livre.

Para um novo usuário, a instalação de uma distribuição 100% Livre pode muito 
bem funcionar 100%, mas do contrário abrirá caminho para explicar o problema do 
hardware incompatível com a liberdade. É óbvio que a notícia da 
incompatibilidade será desapontadora para muitos visitantes, e muitos 
instaladores podem ficar de coração apertado se não "ajudarem" o visitante a 
instalar blobs e drivers privativos de liberdade exigidos pelo hardware, ou 
plugins "necessários" para que distribuidores de obras autorais de 
entretenimento tomem o controle do computador do visitante. São dilemas sem 
solução favorável: é preciso decidir entre comunicar que algum software 
privativo de liberdade é aceitável e até desejável, ou arriscar afastar um 
usuário ao mostrar a importância da resistência firme ao software privativo de 
liberdade.

Se uma oferta para instalar aplicativos Livres no sistema operacional privativo 
já instalado não empolgar, orientação sobre as possibilidades de substituir os 
componentes incompatíveis pode ajudar um pouco e dar um bom exemplo da 
importância da resistência. Por outro lado, oferecer software privativo de 
liberdade para fazer o componente funcionar pode até parecer ajudar mais, mas 
transmite exatamente a mensagem contrária à necessária para formar a 
resistência ao software privativo de liberdade. Mesmo uma visível hesitação 
pode parecer descaso ou hipocrisia se a ação contrariar os princípios.

Afinal, se instalar software privativo em quantidades cada vez maiores fosse a 
solução do problema de componentes de hardware incompatíveis com a liberdade, 
por que parar no firmware, ou nos drivers? Num computador com Boot Restrito, 
daqueles que impedem a iniciação de sistemas operacionais alternativos, o 
software privativo necessário para fazer um GNU/Linux funcionar é o Windows, 
inteiramente privativo, e um ambiente de execução de máquinas virtuais, 
igualmente privativo.

Mas ninguém (além da própria Microsoft, suponho) pensaria em instalar Windows 
num festival de instalação de Software Livre. Por que, então, instalam-se 
tantos outros programas privativos no FLISOL? Não são eticamente melhores que o 
Windows! O receio de que, sem eles, o usuário volte ao software privativo é 
medo d'"A volta dos que não foram": usando GNU/Linux com blobs, o usuário 
jamais terá deixado a escravidão do software privativo de liberdade, no máximo 
terá mudado de feitor. Na liberdade, como na segurança, é o elo mais fraco da 
corrente que se rompe e põe tudo a perder.

Uma conversa franca e honesta com o usuário fará muito mais pelo Movimento 
Software Livre que instalar uma distribuição com componentes privativos, ou 
mesmo que instalar uma distribuição 100% Livre que não funcione bem no 
computador incompatível. Afinal, o visitante seguramente poderá encontrar na 
Internet receitas para instalar o software privativo de liberdade que fará o 
componente funcionar. Porém, graças às ideias da conversa e ao bom exemplo 
observado, entenderá que sua decisão é pessoal, que ninguém deve tomá-la em seu 
lugar, e que trata-se apenas de um sacrifício temporário de sua própria 
liberdade, até que uma solução esteja ao seu alcance. Bons exemplos, conselhos 
e ideias ajudarão a manter o usuário no caminho para a liberdade, mesmo que 
seja longo e árduo.

Mas se, ao invés de receber um exemplo firme e fundamentado de resistência ao 
software privativo de liberdade, o visitante observar seu mentor e seus pares 
oferecendo e preferindo instalar software privativo de liberdade, tenderá a se 
tornar mais um multiplicador da contracultura do Software Livre. Tampouco 
hesitará em instalar distribuições com software privativo de liberdade, em 
decidir por outros quais liberdades sacrificar e em se opor às sugestões e aos 
pedidos de que futuros FLISOLis se comportem de forma compatível com o 
Movimento Software Livre. Com seu exemplo e atitude, propagará sua resistência 
às nossas ideias, dificultando ainda mais a formação da resistência ao software 
privativo de liberdade.

Muito menos importante que o software instalado é a mensagem transmitida pelo 
FLISOL. Porém, o software ofertado e instalado, enquanto exemplos, são parte 
importantíssima da mensagem, pois quando palavras e exemplos são contraditórios 
no ensino de valores, com maior frequência prevalecem os exemplos. Então, com 
que exemplos você vai ensinar, no FLISOL da sua cidade, os valores e princípios 
do Movimento Software Livre? Com que exemplos vai reforçar a necessária e 
urgente resistência ao software privativo de liberdade? Como vai motivar o 
FLISOL a adotar, como mais uma de suas regras internacionais, os bons exemplos 
de resistência ao software privativo de liberdade, para que deixe de minar 
nosso movimento e nossa resistência e se torne um Festival Latinoamericano de 
Instalação de Software Livre Mesmo, um FLISOL exemplar?

Copyright 2015 Alexandre Oliva

Cópia literal, distribuição e publicação da íntegra deste artigo são permitidas 
em qualquer meio, em todo o mundo, desde que sejam preservadas a nota de 
copyright, a URL oficial do documento e esta nota de permissão.

http://www.fsfla.org/blogs/lxo/pub/flisol-exemplar

-- 
_______________________________
Paulo Francisco Slomp
http://ufrgs.br/psicoeduc
Acionado com Software Livre
http://ufrgs.br/soft-livre-edu
_______________________________________________
Geral mailing list
[email protected]
http://listas.sleducacional.org/listinfo.cgi/geral-sleducacional.org

Responder a