Merval Pereira novamente fantástico em sua coluna de hj... desconstrói
Franklin Martins ao levantar uma declaração dele, de 1996, num episódio com
Betinho... Franklin Martins nunca me enganou...

 *Obsessão*

Merval Pereira

 Os últimos dias foram plenos de informações sobre o que o governo
brasileiro pensa sobre os meios de comunicação e seus projetos para
implementar o que chama de “controle social” da mídia. Tudo o que se disse
sobre o assunto indica uma comunhão de intenções entre o que já acontece em
outros países da América do Sul, como a Argentina e a Venezuela, e o projeto
de um futuro governo petista.

Na recente reunião do Foro de São Paulo realizada na Argentina, o grupo
criado por Lula e Fidel Castro que reúne a esquerda da América Latina
regozijouse porque “setores sociais do Brasil, da Argentina e do Paraguai”
conseguiram colocar em questão a credibilidade dos grandes meios de
comunicação, provocando redução nos níveis de venda e audiência dos jornais
impressos e da TV.

Mesmo que se trate de uma bravata juvenil, a comemoração evidencia o real
objetivo desses esquerdistas regionais, entre eles o dirigente petista
Valter Pomar: tentar desmoralizar os meios de comunicação independentes,
para controlar a opinião pública.

Na mesma resolução, as medidas de diversos países da região para reforçar o
controle do Estado no setor de comunicação social foram elogiadas,
especialmente a lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, a chamada “Lei
da Mídia”, aprovada na Argentina em 2009, que foi considerada
inconstitucional pela Justiça.

Essa legislação deve ser uma “referência imprescindível” para os demais
países, decidiu o Foro de São Paulo.

Ela faz parte de uma ampla campanha do governo de Cristina Kirchner para
cercear a atuação dos jornais e televisões de maneira geral, mas muito
especificamente do grupo Clarín, o mais importante do país.

A “Lei da Mídia” divide as concessões igualmente entre o Estado, movimentos
sociais e o setor privado, levando em consequência o Grupo Clarín a ter que
se desfazer de concessões de TV e rádio.

O mais novo lance dessa disputa é a intervenção do governo na fábrica de
papel de imprensa do país, cujo maior sócio privado é o grupo Clarín, numa
clara tentativa de impor sanções econômicas aos jornais.

Na segunda-feira, o presidente Lula, inaugurando um canal de televisão do
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, disse em discurso lido — isto é,
preparado por sua assessoria, sem os perigos dos improvisos — que a emissora
evitará que os trabalhadores “continuem impedidos de exercer a liberdade de
expressão” e que “o brasileiro sabe distinguir o que é informação e o que é
distorção dos fatos”.

Como se uma emissora que representa um grupo social específico não tenha
interesses de classe a defender e discursos políticos a divulgar.

Já o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, repetiu sua obsessiva
cantilena contra os órgãos de comunicação independentes, afirmando que a
televisão dos metalúrgicos e a internet farão com que os jornais e as
emissoras de TV percam o controle do noticiário levado à opinião pública.

Tirar o poder dos “aquários”, um jargão jornalístico para as salas das
chefias das redações dos jornais, parece ser a fixação de Franklin, um
movimento, segundo ele, “irreversível, e que está apenas começando”.

Em acordo com as diretrizes emanadas do Foro de São Paulo, o ministro da
Comunicação Social do governo Lula pretende que sejam aprovados antes do
final do mandato diversos projetos de lei originados na Conferência Nacional
das Comunicações (Confecom), convocada por ele.

Com a participação de organizações da sociedade civil, da CUT e de
representações de entidades empresariais, a Confecom produziu uma infinidade
de propostas que podem se transformar em leis com o objetivo central de
implantar o tal “controle social da mídia”.

Uma das propostas prevê “mecanismo de fiscalização, com controle social e
participação popular”, em todos os processos dos meios de comunicação, como
financiamento, acompanhamento das obrigações fiscais e trabalhistas das
emissoras, conteúdos de promoções de cidadania, inclusão, igualdade e
justiça, cumprimento de percentuais educativos, produções nacionais.

Uma repetição de várias outras tentativas já feitas, e derrotadas pela
rejeição da sociedade, de controlar o noticiário e de direcionar a produção
cultural dentro de critérios fixados pelo próprio governo.

Já relatei aqui na coluna, mas vale a pena repetir, as posições assumidas
pelo mesmo Franklin Martins quando exercia a profissão de jornalista.

*Num debate com o sociólogo Betinho, em junho de 1996, sobre o papel das
ONGs, Franklin afirmava que “qualquer tentativa de contornar o Parlamento,
ou de achar que se definem políticas públicas sem passar por ele, não é uma
atitude democrática. Isso investiria contra a essência do Estado
democrático, que é o voto”.
*
*Não é possível, segundo ele, “a pretexto de dar voz a esses interesses
fragmentados, se criarem condições para que a vontade de pequenos grupos
seja imposta, e o voto, base da democracia, acabe relativizado e deixado de
lado”.
*
*Franklin achava que, “ao se apresentar como representante da sociedade
civil e participar de reuniões com direito a voto, as ONGs negam o sistema
representativo”.
*
E concluía seu pensamento: *“Não vejo a menor autoridade para que falem em
nome da sociedade. Quem fala em nome da sociedade é quem tem voto para
isso.”*

A mesma pessoa que defendia que o Congresso fosse o ator principal das
decisões sobre políticas públicas agora quer que esses “interesses
fragmentados” tenham suas resoluções homologadas pela base parlamentar do
governo.

Seria investir contra a “essência do Estado democrático”, no qual quem
decide em nome da sociedade é quem tem voto.

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FG

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