Oi
Você viu?
--
Beijins
Fa
----------------------------------------------------------------
"Se homem fosse dinheiro, todas as notas seriam falsas."
----------------------------------------------------------------
Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos
[07 Março 02h21min 2006]
Eu não queria ver o filme O Segredo de Brokeback Mountain. Não queria.
Ver filme de viados, eu? (Escrevo viado porque, como disse Millor, quem
escreve veado é viado). Muito bem; eu resistia à idéia, mais ou menos
como o Larry David (o roteirista de Seinfeld) disse, num artigo
engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.
O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que,
hoje, os civilizados todos dizem que ''tudo bem, que são contra a
homofobia'' e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que
viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe a
homossexualidade no final (Toda Nudez Será Castigada), já filmei
travesti em Eu te Amo e em Eu Sei que Vou te Amar, além da ''biba''
louca do O Casamento, em que o grande ator André Valli dá um show
inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no
entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos
machistas finos de ''Chapada dos Viadeiros''.
Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: ''Ah... porque o Ang
Lee é um cineasta mediano, ah... porque será mais um filme politicamente
correto, onde o amor de dois cowboys é justificado romanticamente... Vou
fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays
devem ser compreendidos em seu 'desvio'? Não. Não vou'', pensei.
Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua.
Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o
Murilinho... cantor de foxes em boates, havia o Clóvis Bornay e poucos
outros... O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para
lhes tirar sangue. E no anonimato, enxameavam os pobres ''pederastas'',
de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas
noites escuras, em busca de satisfação.
Mais tarde, com o tempo, surgiram as ''bichas loucas'', que se assumiam
com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe
odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje
humorístico, que até hoje alimenta nosso show na TV... A bicha virou uma
personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo.
E tudo bem... são engraçados mesmo.
Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu o gay power, com
homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem
virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais,
aspirando a uma ''normalidade'' que contrariava sua ''missão''
trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia,
sacaneando-os: ''Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos
caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado?''.
Em suma, por mais que ''aceitemos'' os gays, eles sempre foram uma fonte
de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade ''clara''.
O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a
unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o
perobo, o boy, o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos
tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério
inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay cowboy é
muito próximo de nós, a diferença fica mínima.
Por isso, eu não queria ver o tal filme dos cowboys. Como? Cowboy de
mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do
impossível? Não. Eu não. Mas, aí, por falta de programa,
''distraidamente''... (aí, hein, santa?...) fui ver o filme. E meu susto
foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para a
homossexualidade, o filme não demandava minha solidariedade. Não.
Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma
narração simpática de um amor ''desviante''. O filme se impõe
assustadoramente. Os dois cowboys jovens e fortes se amam com um tesão
incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme,
hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano
não agüentava.
Nem europeu, que ia ficar filosofando. Brokeback é imperioso, realista,
sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois
começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral
vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é
que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me
adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee.
Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado
no meu machismo ''tolerante''. Eu é que era o careta, eu é que era o
viado no cinema e eles os machos corajosos, se desejando não como
pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e
corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme
nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo.
Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um
filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de um
profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia,
claro, mas não são ''vítimas da sociedade''. Não. Viveram acima de nós
todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo.
Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um
heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na Ilíada, algo
desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas
assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos
move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante,
que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de
sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.
Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa
sexualidade.
Publicado originalmente em
http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/jabor.asp
Recebi de "Silvia"
---
Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.
Comentários: www.yahoogroups.com/group/goldenlist-L/messages
Newsletter: www.yahoogroups.com/group/goldenlist/messages
Yahoo! Groups Links
<*> To visit your group on the web, go to:
http://groups.yahoo.com/group/goldenlist-L/
<*> To unsubscribe from this group, send an email to:
[EMAIL PROTECTED]
<*> Your use of Yahoo! Groups is subject to:
http://docs.yahoo.com/info/terms/
no mail with banners