Merval Pereira: Estamos no Brasil
"Como demorando? Você está no Brasil, pelo amor de Deus". Quando,
poucos dias atrás, o delegado da Polícia Federal Wilson Damázio fez
esse desabafo ao responder a um jornalista sobre a demora da inves-
tigação sobre a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo
Costa, não tinha idéia de que sua espontaneidade se tornaria um grave
diagnóstico da triste situação em que o país se encontra.
E porque estamos no Brasil, a Caixa Econômica Federal pediu nada
menos que 15 dias de prazo para identificar quem entrou na conta do
caseiro para pegar um extrato de sua poupança, um procedimento que os
entendidos garantem não duraria nem 15 minutos.
E, porque estamos no Brasil, o pobre do caseiro passou a ser inves-
tigado pela Polícia Federal, a mesma sob cuja guarda estava quando
entraram em sua conta ilegalmente. E também o Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf), órgão subordinado ao Ministério da
Fazenda, está investigando sua polpuda poupança, desconfiando que os
depósitos de cerca de R$ 25 mil desde o início do ano podem repre-
sentar uma lavagem de dinheiro.
A movimentação financeira da conta de Francenildo entre outubro de
2005 e março de 2006 chamou a atenção do Coaf, que quer entender
a "atipicidade" dos depósitos. Estamos realmente no Brasil.
Durante meses e anos o lobista Marcos Valério distribuiu pelo menos
R$ 55 milhões entre políticos e autoridades diversas, que sacaram
milhares de reais na boca do caixa dos bancos Rural e BMG, e o Coaf
nunca desconfiou de nada.
O marqueteiro Duda Mendonça recebeu pelo menos R$ 10 milhões em uma
conta em paraíso fiscal do Caribe pelos trabalhos prestados ao par-
tido do governo na campanha presidencial de 2002, e nunca ninguém
desconfiou de nada.
O presidente do Sebrae, o sindicalista Paulo Okamotto, é suspeito de
ter se utilizado do dinheiro desse valerioduto para pagar uma dívida
pessoal do presidente Lula, e seu sigilo bancário não pode ser
quebrado por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Mas a Polícia Federal pediu a quebra do sigilo bancário e telefônico
do caseiro, e duvido que alguém entre no Supremo para impedir que
isso aconteça. E se entrar, suspeito que o Supremo autorize a quebra.
Mesmo porque o próprio caseiro já havia colocado à disposição da CPI
seus sigilos.
Quem tem alguma coisa a esconder, um caseiro que abre mão de seu
sigilo e justifica o dinheiro em sua conta com uma história íntima
que só o prejudica, ou um empresário que luta na Justiça para impedir
que se quebre seu sigilo bancário?
Toda essa história seria risível se não revelasse uma tragédia bra-
sileira, se não fosse reflexo da corrosão moral que tomou conta do
país a partir do momento em que o próprio presidente da República,
beneficiário do mensalão que inflou sua base partidária, resolveu que
os "companheiros" não tinham que se envergonhar de nada, tinham que
levantar a cabeça e seguir adiante.
Desde o "dinheiro não contabilizado" até o "vazamento" do extrato
bancário do caseiro, tudo que o PT e seu governo vêm fazendo é justi-
ficado pelo fato de já ter sido feito anteriormente.
Assim como o presidente Lula saiu na frente para dizer que o uso de
Caixa 2 é feito sistematicamente no país, o PT passou a relacionar em
seu site os diversos vazamentos de documentos feitos pela oposição ao
longo do escândalo do mensalão, como se fossem a mesma coisa,
"deplorável", mas parte da cultura política brasileira.
Trata-se de mais uma farsa. Assim como nunca, nem mesmo no governo
Collor, armou-se um esquema oficial a partir do Palácio do Planalto
para a compra em bloco de um dos poderes da República, também nunca
houve caso em que agentes do Estado tenham infringido tão
acintosamente a lei, em defesa própria.
Fizeram a ignomínia de se aproveitar do humilde caseiro para con-
fiscar ilegalmente seu cartão da Caixa Econômica na sede da Polícia
Federal, e agora fazem um procedimento oficial com o mesmo objetivo
de constrangê-lo.
Não é à toa que sua mulher, que também trabalhava na indigitada casa
do Lago Sul, está com medo de dar um depoimento à CPI. Mas, como
estamos no Brasil, o caseiro é suspeito por ter em sua poupança uma
soma tão alta quanto R$ 25 mil, mas a maioria dos deputados mensa-
leiros está sendo absolvida no plenário da Câmara.
Com direito a cenas de despudor explícito como as protagonizadas
pela deputada Ângela Guadagnin, que defende sem pestanejar todos os
petistas que estão sendo acusados de usar dinheiro do valerioduto.
Ontem, quando já não havia mais votos para cassar o deputado João
Magno, acusado de ter recebido de Marcos Valério nada menos que 15
vezes mais do que o caseiro tem na sua poupança, a deputada pôs-se a
dançar grotescamente entre as cadeiras do plenário da Câmara, diante
das câmeras de televisão.
Isso tudo encerrando uma semana em que a pomposa Comissão de Ética
Pública da Presidência da República concluiu que o general Francisco
Albuquerque, comandante do Exército, não merecia nenhuma punição pela
carteirada que deu para embarcar no vôo da TAM para Brasília, que
perdera por chegar atrasado ao aeroporto. A Comissão admite que o
general recebeu "tratamento privilegiado", mas não por sua culpa. Só
podemos mesmo estar no Brasil.
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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.
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