Oi

Parece que vivemos disso, né?
É um atrás do outro...

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Beijins
Fa
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"Quero aproveitar a oportunidade para agradecer à Antártica as
  "braminhas" que eles nos mandaram para a comemoração da nossa
  vitória." - Vicente Matheus (Eterno presidente do Corinthians)
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Segunda-feira, 15 de maio de 2006


Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e ‘affaires’


Um escândalo político gera toneladas de reportagens e editoriais,
ironias e indignação, e o fim é sempre o mesmo: não dá em nada. Mesmo os
escândalos, por assim dizer, clássicos, os que têm prólogo, enredo
claro, personagens bem definidos, choque e desenlace, não dão em nada. O
de Collor, por exemplo, levou à sua destituição. Num sentido mais amplo,
no entanto, também ele não deu em nada. Ao contrário do que se dizia, o
Brasil não foi passado a limpo. O país permaneceu sujo, se sujou ainda
mais. A corrupção continuou não só a existir como se fortificou. O
escândalo dos anões do orçamento (alguém lembra?) provocou a cassação de
uma dúzia de de parlamentares. Agora, com o escândalo das sanguessugas,
seria preciso cassar um terço da Câmara dos Deputados. Ninguém tem
vontade e paciência para tanto.

Os escândalos, pois, devem ser apreciados pela sua lógica, pela sua
forma. Criticá-los é comentário estético. É avaliar desempenhos,
consistência interna, seus tênues laços com a vida social. Os escândalos
atraem atenção não porque se refiram à política. Sua dimensão verdadeira
é a da estética. Eles têm narrativa. Eles têm dramas, mistérios,
suspense, personagens em conflito, golpes de cena. Parece que se vai
descobrir algo importantíssimo. No fim, não dá em nada. Vida que segue.
Mas, enquanto durou, foi divertido.

***

Esse escândalo de agora, o do mensalão, que já dura quase um ano, no
início tinha a forma de um programa de tele-realidade. Com voyerismo,
contemplava-se os personagens, à espera da eliminação paulatina de
todos. O que restasse, seria o vencedor. A ser eliminado no escândalo
seguinte.

A forma tele-realidade se esvaneceu porque, contra todas as evidências e
torcidas, os personagens não foram eliminados. Os deputados mensaleiros,
ao contrário, foram absolvidos em plenário. O eixo da trama se perdeu em
várias subtramas (dólares de Cuba, a volta do caso Celso Daniel, a
roubalheira em Ribeirão Preto, as ligações da Telemar com o filho do
presidente, a disputa dos Fundos de Pensão com Daniel Dantas etc.), que
deram origem a outras subtramas, que por sua vez alimentaram mais
desdobramaentos (a conexão angolana, a Casa do Lobby, a quebra do sigilo
do caseiro, a queda de Palocci, o envolvimento do ministro da Justiça na
patranha). Aí vieram o guarda-roupa de Lu Alckmin, as ONGs turbinadas de
Garotinho, a sua greve de fome, as Sanguessugas, o chilique de Silvinho
Land Rover. Para piorar, Evo Morales nacionalizou o gás. Embolou tudo. O
escândalo perdeu sua forma, se bem que comporte epifenômenos
interessantes. O meu preferido foi a vaia que José Dirceu, ex-líder
estudantil, levou de estudantes da PUC de Minas.

Não é ruim que um escândalo perca sua forma, que descambe para a
chanchada aloprada. É um passo necessário para que ele acabe, na
prática, mas continue a ter uma existência retórica. Nessa categoria se
enquadram os dois maiores escândalos da adminsitração de Fernando
Henrique Cardoso, o das privatizações e o da compra de votos para a
emenda da reeleição. A existência retórica também um dia acabará. Hoje
ninguém lembra mais do maior escândalo do governo de José Sarney, o da
Ferrovia Norte-Sul.

***

O que aqui se chama de escândalo, na França recebe o nome de “affaire”.
A mecânica é a mesma. O que muda é a sua duração, o seu encadeamento, os
seus ritmos. Lá, escândalo bom é o que dura mais de uma década, pelo
menos. O melhor de todos é “l’affaire des emplois fictifs”, que
completará daqui a pouco trinta anos. Ele é do tempo em que o presidente
Jacques Chirac era prefeito de Paris. Não acaba nunca.

O que está em cartaz no momento é “l’affaire Clearstream”, que foi
alçado à pretigiosa categoria de “escândalo de Estado”. Na verdade, ele
é a transmutação de “l’affaire des fragates de Taiwan”, que começou há
quinze anos. O seu estopim foi a encomenda, com propinas e corrupção, de
fragatas de Taiwan, e na sua atual encarnação envolve uma sociedade
bancária do Principado de Luxemburgo, a Clearstream, onde teriam conta
figurões da República. O caso, como se vê, é infernalmente complicado.
Ele envolve governo, juízes, espionagem, parlamentares, banqueiros. Tem
até denunciantes anônimos, que os franceses chamam de “corvos”.

Mas, como convém a um bom escândalo, subitamente ele ficou claríssimo.
Ou melhor, um detalhe significativo ficou evidente: o presidente Jacques
Chirac e seu primeiro-ministro, Dominique de Villepin, disseram a um
espião, o general Philippe Rondot, que ele deveria descobrir que o
ministro Nicolas Sarkozy tinha uma conta, secreta e bem fornida, na
Clearstream. Ou seja, manipularam um serviço do Estado para prejudicar
um adversário político. Adversário que integra o governo.

Esse é o cerne. Em torno dele se multiplicam figuras impagáveis, a
começar pelo general Rondot. Ele é um espião maniáco pela palavra
escrita. Ele teve a pachorra de anotar tudo o que Chirac e Villepin lhe
diziam em reuniões secretas. O desastre se produziu porque a Justiça
determinou que a polícia apreendesse seus papéis, computadores e
documentos. Apesar do processo correr em sigilo de Justiça, as anotações
do general acabaram nas páginas do “Le Monde”. Mais uma vez, como na
crise do Contrato Primeiro Emprego, se fala na queda certa de Villepin,
na renúncia de Chirac, na antecipação das eleições presidenciais do ano
que vem.

Um comentarista, Patrick Jarreau, notou que o “affaire Clearstream”
lembra os romances de Alexandre Dumas. Há o rei (Chirac), nobres que
disputam a sua sucessão (Villepin e Sarkozy), espiões, tipos misteriosos
(os corvos), heróis que viram vilões (o juiz de instrução, um ferrabrás
de escândalos anteriores, foi pego em atitude suspeita), vilões que
viram heróis (um repórter doido, com delírio persecutório, que descobriu
coisas importantes), corrupção, golpes baixos etc. Um romance
rocambolesco, em suma. Que no plano estético mostraria a persistência do
antigo regime na política republicana. É bem achado.

***

Fica a recomendação, portanto. Não percam o “affaire Clearstream”. No
momento, ele é bem mais emocionante que o do mensalão. Tomara que
mantenha o pique até a Copa.



Retirado de
http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=22&textCode=22311&date=currentDate


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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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