ARTIGO
Estamos vendo o fim da Pax Americana?
RUPERT CORNWELL
DO "INDEPENDENT", EM WASHINGTON
O Iraque arde em chamas, o Afeganistão ferve e a Coréia do
Norte nuclear testa seus mísseis com impunidade. Enquanto isso, o Irã,
zombeteiro, joga nos dois tabuleiros de xadrez ao mesmo tempo, recusando-se a
abrir mão de suas ambições nucleares ao mesmo tempo em que emprega seus
procuradores do Hizbollah para atrair Israel para uma nova guerra no Oriente
Médio. É difícil saber onde começar a busca pelas famosas "últimas palavras"
proferidas nos últimos seis anos pelos governantes desta imaginária sede de
império global situada às margens do rio Potomac, onde eu vivo.
Será que
começamos com George W. Bush e sua fala "às vezes uma demonstração de força por
um lado pode realmente esclarecer as coisas", em 30 de janeiro de 2001? Essa
pérola de sabedoria infalível de estadista, após dez dias de experiência na
Presidência, foi transmitida a um alarmado secretário de Estado, Colin Powell,
depois de o presidente ter declarado que não valia a pena a América continuar a
desperdiçar tempo com o conflito israelo-palestino refratário. Bem, acabamos de
ver a demonstração de força. Que as coisas sejam esclarecidas, infelizmente, é
outra questão.
O prêmio provavelmente cabe a Dick Cheney (a quem mais
poderia pertencer?). Em agosto de 2002, apresentando seu argumento em favor da
guerra com o Iraque, o vice-presidente se deixou levar pelo entusiasmo ao falar
dos benefícios de uma invasão bem-sucedida. "Os extremistas teriam que repensar
sua estratégia da jihad, os moderados seriam encorajados e nossa capacidade de
fazer avançar o processo de paz israelo-palestino aumentaria."
Hoje, cada
uma dessas três afirmações caiu por terra. Em lugar disso, no "arco de
instabilidade" que se estende do Afeganistão e Paquistão até a Palestina e
Israel, ocorre uma confluência de acontecimentos assustadora. Madeleine
Albright, a secretária de Estado que antecedeu a Colin Powell, descreveu as
crises interligadas como "tempestade perfeita" (ou seja, avassaladora) nos
assuntos internacionais.
Os limites do poder
É impossível prever qual será o desenlace
dessas crises. Mas uma lição que os historiadores certamente vão tirar de tudo
isso é que, no último ano, mais ou menos, os limites do poder americano foram
expostos. E talvez nossos historiadores concedam a este final de semana um lugar
especial na nova desordem mundial.
Quem assistiu ao noticiário da TV
americana nos últimos dias terá tido poucos indícios dessa transformação.
Enquanto nas telas se viam imagens de chamas e fumaça se elevando de tanques de
combustível no aeroporto de Beirute que acabavam de ser bombardeados por jatos
israelenses, os apresentadores dos jornais aguardavam com reverência um briefing
à imprensa convocado às pressas por Condoleezza Rice na Alemanha, a caminho da
cúpula do G8 em São Petersburgo, que começou ontem.
A principal assessora de
política externa do imperador estava prestes a falar e, éramos induzidos a
acreditar, todo o mundo iria de algum modo se submeter às diretrizes que seriam
anunciadas. Na realidade, porém, o máximo que Rice conseguiu apresentar foi um
apelo por contenção de todas as partes. Era a América falando -mas poderia ter
sido Portugal ou Argentina, pela diferença que suas palavras fizeram.
E
assim passamos ao G8. Deixemos de lado por um instante a ausência, na cúpula,
das novas grandes potências mundiais China e Índia. Esses eventos coreografados
e repletos de burocracia visam pelo menos permitir ao "comitê de direção" de
líderes mundiais uma chance de refletir sobre as questões subjacentes do momento
-neste caso o aquecimento global, a situação dos países mais pobres do mundo e
como conter a chegada de armas de destruição em massa ao Irã, Coréia do Norte e
similares.
A Rússia
No entanto, mais uma vez a cúpula do G8 foi tomada de
assalto por uma crise internacional. Fica difícil refletir sobre abstrações no
momento em que o aeroporto de Beirute arde em chamas.
Sob outro aspecto,
esta cúpula específica do G8 simboliza os limites do poder americano.
É a
Rússia -não a Coréia do Norte, a Al Qaeda ou qualquer outro grupo terrorista- a
única potência cujos mísseis têm a capacidade de eliminar os EUA da face do
planeta. A Rússia possui reservas colossais de petróleo e gás, cujas importações
vêm ajudando a transformar os EUA no maior país devedor da história do mundo. A
concordância de Moscou é essencial para uma solução diplomática (ou seja, a
única possível) para as ambições nucleares do Irã e da Coréia do Norte. Em suma,
hoje em dia os EUA precisam da Rússia bem mais do que a Rússia precisa dos EUA.
E a consciência dessa mudança na situação está crescendo, mesmo no âmago do
império. A capa da revista "Time" proclama "O Fim da Diplomacia Caubói". Mas os
europeus, sobretudo, devem conter a presunção diante dessa humildade recente e,
é necessário que se diga, um tanto quanto relutante do fato de que a América não
pode encarar a parada sozinha.
Os limites da Pax Americana podem ter sido
postos a nu. Mas o próprio fato de que nós assentimos com essa idéia é prova do
quanto éramos dependentes dela. Seguros por sabermos que tínhamos pouca
influência sobre os acontecimentos, podíamos condenar os EUA se eles exercessem
tal influência e também se não o fizessem. A Pax Americana pode ter sido
ressentida por muitos, como aconteceu com a Pax Britânica e a Pax Romana, mas,
sob muitos aspectos, ela tornou bem mais fácil a vida daqueles que eram sujeitos
a ela.
Quando era secretária de Estado, Madeleine Albright costumava dizer
que os EUA eram "um país indispensável". Ela tinha razão na época e tem razão
hoje. Sem o envolvimento dos EUA não será possível nenhuma solução dos maiores
problemas internacionais. Talvez não seja possível solução alguma e, nesse caso,
todos nós ingressaremos obrigatoriamente numa nova era de blocos de poder
concorrentes.
Mas, num mundo mais interligado do que jamais o foi, essa
certamente seria uma fórmula para o desastre. A única maneira de avançarmos é
que os aliados dos EUA, e em primeiro lugar a Europa, somem seu peso ao da
hiperpotência. E assim voltamos ao refrão já conhecido. O Oriente Médio arde em
chamas, o Irã ameaça -mas onde está a Europa?
Tradução de CLARA ALLAIN