Regras mudam e afugentam investidor 

O Brasil deixa de receber cerca de US$ 10 bilhões em investimentos 
novos em infra-estrutura a cada ano porque não tem regras claras e 
estáveis para o setor.  O cálculo é do economista Gesner Oliveira, 
sócio da Tendências Consultoria Integrada e ex-presidente do Conselho 
Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Na área de saneamento, falta uma lei regulando como as empresas pri-
vadas podem operar, por isso o País deixa de receber "um caminhão" de 
recursos.  Na área de energia, os projetos são emperrados por ques-
tionamentos do Ministério Público e dos órgãos de defesa do meio 
ambiente. 

Na área de telefonia, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, vive 
em confronto com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e 
insiste em rever decisões que, em tese, já seriam a palavra final. 
Tudo isso compõe o que os economistas chamam de "risco regulatório", 
ou seja, a falta de clareza nas regras que põe em risco o retorno 
financeiro esperado pelo investidor.

Segundo Gesner, quando se faz um projeto na área de infra-estrutura, 
a expectativa é de retorno a longo prazo, de 15 a 20 anos. Por isso, 
os investidores têm pavor que as regras mudem no meio do jogo. "O in-
vestidor de longo prazo não quer ficar na mão da conjuntura política"

A avaliação é confirmada pelo advogado especialista em regulação de 
mercados Álvaro Jorge, do escritório Barbosa, Müssnich e Aragão. "As 
primeiras perguntas que um investidor externo faz são: quais são as 
regras e quem manda." Se as regras são instáveis, diz um integrante 
do governo, o investidor pode tomar dois tipos de decisão: não vir 
ao Brasil ou vir e cobrar mais caro pelos serviços que vai prestar.

AGÊNCIAS

Em tese, o Brasil tem instrumentos para garantir regras mais está-
veis. São as agências reguladoras, criadas como estruturas autônomas 
e independentes para "blindar" o setor contra interferências polí-
ticas e garantir a estabilidade de regras. No entanto, ao longo do 
governo Lula, as agências passaram por um processo de enfraqueci-
mento, culminando com os recentes embates de Hélio Costa com a Anatel.

Para um dirigente de agência reguladora, o problema nem é o conteúdo 
da briga - que, no caso, é se empresas de telefonia fixa podem ou não 
concorrer para vender serviços de internet banda larga sem fio nas 
áreas em que já operam.  O grave é o sinal de que as decisões das 
agências podem ser modificadas pelo ministro.   Na avaliação dele, 
essa indicação é mortal para as intenções de investimento no Brasil. 


[O Estado de S.Paulo - Economia, 28/08/2006]
















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