On Thu, 21 Mar 2002 19:37:41 -0300
Jorge Godoy <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
[corta]
> Na verdade, minha implic�ncia � mais antiga. Vem de antes da
> Conectiva. Apenas revolta-me ver tamanho desrespeito com nossa l�ngua
> todos os dias.
>
> S�o erros b�sicos, simples de se corrigir. Muitas vezes a pessoa nem
> sabe que est� errando. Eu n�o tenho problemas quando me corrigem o
> portugu�s. Toda oportunidade de aprender � v�lida e deve ser
> aproveitada.
[corta]
Ol� Sr. Godoy
Gostaria de comentar alguns aspectos interessantes da sua mensagem.
Sem entrar no m�rito do conflito que originou essa "thread" vejo que o Sr.
defende um uso correto do portugu�s nessa lista.
Mas o que seria esse uso correto?
Quem assiste televis�o certamente j� viu o professor Pascoale Cipro Neto ditando
as normas do bem-falar em v�rios canais da Tv aberta e na Tv � cabo. Embora seja
essa a defini��o tradicional do que � certo a que estamos acostumados desde
pequenos � uma abordagem que se mostra equivocada para alguns casos.
As l�nguas s�o vivas e sofrem altera��es atrav�s do tempo, mudan�as essas
orientadas pela lei do menor esfor�o. Se n�o fosse assim ainda estariamos
falando latim e n�o portugu�s.
O que determina a norma padr�o no Brasil � apenas uma quest�o de prestigio
cultural e econ�mico da regi�o sudeste do pa�s. Quantas vezes voc� viu uma
novela ou filme onde os personagens falavam como ga�chos ou baianos sem que
fossem artificiais ou caricatos? Como � o portugu�s das revistas e do jornal
nacional?
Claro que devemos ter um padr�o m�nimo para que a comunica��o n�o se fa�a
imposs�vel, mas quem deve dizer como e qual ser� o padr�o?
Na verdade, em termos lingu�sticos, o portugu�s nordestino, amaz�nico, ga�cho ou
pantaneiro n�o fica devendo nada para a variante prestigiada. O que temos s�o
diferentes registros, com variados n�veis de formalidade, complexidade,
expressividade, imparcialidade, etc. Diferentes n�veis de complexidade na
express�o das id�ias. E isso temos em qualquer regi�o do pa�s.
Quando algu�m diz:
"N�is fumo l� i joguemo cum elis. N�is perdemo, mais otro dia n�is ganha!"
todos n�s entendemos, n�o?
E � para isso que a l�ngua serve, para a comunica��o. Talvez, dentro de algumas
centenas de anos todos falem assim. Simplificando grosseiramente o portugu�s � o
latim errado.
Isso n�o quer dizer que devemos queimar as gram�ticas e acabar com o ensino de
portugu�s nas escolas. Ao contr�rio. Mas uma boa reda��o � aquela que transmite
significados e n�o � apenas gramaticalmente correta como tamb�m rica de
expressividade. A gram�tica � apenas um aspecto do processo e de modo algum o
mais importante. Se analisamos com cuidado, ningu�m tem um portugu�s correto
todo o tempo. Simplesmente porque n�o existe portugu�s correto. O que existe �
um uso adequado do idioma ou um uso inadequado.
Escrever um texto fora da norma padr�o para uma entrevista de emprego n�o �
adequado, mas at� mesmo essa afirma��o n�o pode ser generalizada porque falar
muito "certo" e formal pode ser o fim da chance de emprego naquela SurfShop que
precisa de vendedores. Agora mandar uma mensagem com erros de ortografia(que s�o
os que mais chamam a aten��o dos leigos e que aparecem nos corretores mais
comuns) nessa lista n�o � inadequado visto que esse � um ambiente informal e o
que importa � o que cada um tem a dizer e n�o como diz.
Concordo que incomoda e que d� vontade de corrigir, mas... as pessoas t�m a
liberdade de escrever como quiserem. Como professor posso dizer que a grande
maioria das pessoas se sente constrangida ao ser corrigida na sua forma de falar
ou escrever. Isso � natural porque a minha maneira de falar e escrever � o que
sou. Se algu�m me diz que eu n�o sei escrever ou falar ent�o eu sou inadequado
como pessoa. N�o penso assim, gosto de ser corrigido, apenas digo que � a
atitude mais comum que tenho visto entre alunos. Os mais antigos talvez conhe�am
o filme "My fair lady" e a hist�ria de Pigmale�o. Tamb�m h� um filme com Michael
Caine chamado de "O despertar de Rita" que � a refilmagem da hist�ria. Poucas
pessoas pensam que est�o recebendo ajuda ao serem corrigidas. Principalmente se
n�o pediram essa ajuda, e provavelmente n�o v�o lembrar da corre��o na pr�xima
vez que forem escrever.
Usar a norma padr�o como espada � muito �til para manipular pessoas que n�o a
dominam. Veja que as pessoas mais incultas chamam os pol�ticos de "doutor" e
dizem que eles falam "bonito". Mas se voc� analisa o discurso de alguns deles
ver� que n�o est�o dizendo muito com a sua sofisticada maneira de falar. Jamais
uma pessoa simples questionaria algu�m capaz de falar t�o "bonito", e isso � o
que se busca muitas vezes. Mas n�o ser letrado n�o quer dizer ser est�pido.
Agora com o uso da Internet e das suas tecnologias, como o correio eletr�nico,
muita coisa dever� mudar. J� vi casos de alunos que n�o conseguiam escrever
direito porque estavam acostumados com o uso maci�o de IRC. Tinham uma tremenda
dificultade para escrever as palavras inteiras. H� toda uma nova linguagem
nascendo na rede, �s vezes at� por imposi��o de limita��es da m�quina (esse eh
um exemplo. Eu nao pude por a trema em algumas palavras pq o meu MUA � aceita).
Todo um novo c�digo est� nascendo, e ele � modulado pelos usu�rios. Se f�ssemos
respeitar a norma padr�o sempre n�o dever�amos dizer Internet, nem e-mail, PVT,
INMHO, CPU, etc. Veja que a Fran�a chegou ao extremo de proibir cartazes
p�blicos e letreiros em outro idioma que n�o o franc�s (n�o sei se ainda vale
essa lei).
A linguagem sempre foi Software Livre e qualquer ser humano que fale tem acesso
ao c�digo fonte. Falamos portugu�s porque alguns, atrav�s dos anos, foram contra
o monop�lio do latim(representante de uma multinacional, o imp�rio romano :-)
[corta]
>Apenas revolta-me ver tamanho desrespeito com nossa l�ngua
> todos os dias.
[corta]
� verdade, �s vezes n�o entendo algumas mensagens porque est�o t�o confusas na
sua estrutura que n�o se sabe o que o autor quis dizer. Mas n�o � um desrespeito
ao idioma, � um desrespeito � id�ia que se quer transmitir. Quando n�o entendo
uma mensagem n�o � o idioma que sofre, quem sofre � o autor da mensagem que n�o
conseguiu se comunicar corretamente.
Sem ofensas, mas ningu�m � dono ou mantenedor do idioma. Cada pessoa deve
expressar-se como queira desde que garanta a comuni��o. Esse professor
Pascoale(ou Pascuale) Cipro Neto pertence a uma corrente ultrapassada que v� a
l�ngua como um sistema est�tico e imut�vel de regras e normas que t�m mais
import�ncia que a expressividade natural do ser humano. Na realidade eu escrevi
essa mensagem porque o seu coment�rio me fez lembrar dele, e da maioria dos
professores de portugu�s que j� tive na escola, sempre preocupados com sujeitos,
objetos, verbos, etc., e nunca preocupados com o conte�do. Perten�o ao grupo de
professores que defendem o contr�rio disso, que defendem a liberdade de criar, a
liberdade de ser �nico que tanto se fala hoje em educa��o. Repito que isso n�o
quer dizer abandonar a norma padr�o, e sim olhar a l�ngua como o fen�meno
complexo que �, n�o estando limitada a ser apenas um sistema est�tico de normas
e regras. Lembro o quanto me chocaram as primeiras aulas na universidade e o
conceito de que n�o existe "falar errado" e "falar certo".
Espero ter sido claro e realmente n�o quis hostiliz�-lo de forma nenhuma, apenas
quis dar a minha opini�o. Se o Sr. vai seguir corrigindo ou n�o os outros n�o �
problema meu.
Um abra�o a todos
Leandro
--
Leandro Padilha Ferreira - [EMAIL PROTECTED]
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