*Bueno:
Vou responder a mais esta questão, até para não ficar parecendo um ogro
reacionário furiosamente anticomunista, mas depois acho bom nos redirigirmos
ao fóco de discussão desta lista, da qual nos afastamos para este
interessante porém dispersivo (culpa minha) debate.
Antes de mais nada, uma rápida apresentação: tenho 56 anos, sou jornalista
e filho de um jornalista que foi o responsável pela criação do Clube de
Cinema de Porto Alegre (o mais antigo ainda am atividade no Brasil), do
Festival de Cinema de Gramado, do Festival de Coros de Porto Alegre (década
de 60) e de outras coisas que não vêm ao caso. Virei jornalista, também, fui
editor cultural do Correio do Povo na década de 70, fiz a única entrevista
concedida e publicada na imprensa naquela época com Geraldo Vandr, e
amanheci no xilindró. Exagero, mas precisei dar depoimento e explicar como
me atrevia a publicar - ainda por cima em um domingo - a entrevista de
alguém cuja simples menção do nome estava proibida
Meu pai sempre foi de esquerda. O Clube de Cinema, anos a fio presidido por
ele, promovia nas décadas de 50 e 60 repetidos festivais de cinema tcheco,
polonês, soviético e cubano, além de outros "menos comprometedores". Quando
houve o golpe de 64, tinhamos em casa um saco (um baita saco, coisa de metro
e meio de altura e sabe-se lá quanto de peso) de filmes de propaganda
cubana. Morávamos no centro, a quadra e meio do QG do Exército e três do
Correio do Povo. Depois de alguns meses de preocupação com aquela verdadeira
bomba escondida no quartinho de empregada, uma noite ele aproveitou o carro
do jornal e levou tudo para um depósito do Auditório Araújo Vianna, aqui de
Porto Alegre, então recém inaugurado e do qual ele era o primeiro
administrador. Deu zebra. Menos de um mês depois a Banda dos Mariners dos
EUA, que participavam da "Operação Unitas" com a Marinha Brasileira,
marcaram apresentação em Porto Alegre, justamente no auditório.
Em nova operação noturna o saco foi removido na véspera da varredura de
segurança feita pela Polícia Federal no local da apresentação (na época a PF
avisava com antecedência o dia em que faria este tipo de operação) e nunca
mais ouvi falar dele.
Em meu quarto, a prateleira de livros infantis guardava na fileira de trás
obras proibidas de todos os tipos, que, a partir de 68 começaram (pelo menos
as mais perigosas, como as de Guevara), a ser "desaparecidas"
preventivamente. Mas em meados da década de 70 o Clube de Cinema voltou a
fazer festivais soviéticos e voltamos a conviver com o pessoal da Embaixada.
Anos mais tarde, um colega de trabalho, fora do jornal (na verdade na
Universidade Federal) me mostrou uma foto em que eu aparecia conversando com
o adido cultural da Embaixada da URSS, anos antes, e me disse que, na época
(anos 70), este tipo de encontro era monitorado.
Voltando aos anos 50 e 60: tínhamos projetor de 16 milímetros em casa, e foi
em sessões domésticas que assisti "O Encouraçado Potenkin", "Outubro",
"Alexandre Newsky" e uma infindável lista de curta-metragens tchecos,
poloneses, canadenses, americanos, franceses, enfim, coisas de todas as
origens, muitas delas que a censura não autorizava a exibição pública. Meu
pai visitou a Alemanha Oriental, Tchecoeslováquia, Polônia a convite de seus
governos, e só não foi a URSS porque meu avô adoeceu na época em que tinha
sido convidado, e ele precisou voltar da Alemanha.
Em resumo, convivi e acreditei muito nisto tudo. Assisti aos bons filmes
feitos por lá, e até hoje busco em DVD, VHS ou o que for, uma cópia do
famoso filme de bonecos tcheco que conta a história de um motociclista e que
muito me marcou. Alguém sabe onde posso conseguir?
O que pretendi com esta introdução sobre minha infância e adolescência, para
não ter de falar nas dificuldades que foi enfrentar a censura no início da
vida profissional adulta, durante os anos 70, foi mostrar que até por
formação, acreditei e ainda acredito que uma sociedade mais justa é, sim,
possível e desejável, mas que pelo contato direto aprendi, também, que o
caminho para ela não passa por qualquer regime de força. Como o comunismo é,
conceitualmente, a "ditadura do proletariado", hoje em dia prefiro manter
distância.
Quando, nos textos anteriores, evitei citar Cuba, estava esperando que ela
surgisse como argumento. Cuba tem o melhor programa de saúde pública do
mundo, mas não tem a mesma expressividade na área cultural e,
principalmente, não tem o que era o ponto central de nossa discussão, que é
a liberdade de expressão.
A escola internacional de cinema de San Antonio de los Baños foi criada com
o objetivo prescípuo e assumido de ensinar a fazer filmes de doutrinação. Tá
na placa de seu saguão. Se assim é, não conta. Aliás, tanto o cinema cubano
quanto a música cubana só conseguem produzir obras de protesto se forem
contra situações estrangeiras. Sim, existem bons filmes e músicas sobre a
situação de países africanos, de países latino-americanos, de injustiça
social e política nos mais diferentes quadrantes do mundo, menos, claro, em
Cuba. Ora bolas, a liberdade se mede pela possibilidade de alguém se
expressar dentro de um país sobre o que acontece neste país. Sílvio
Rodrigues, por exemplo, tem belas canções de cunho social, mas sempre
falando na injustiça alheia. É como se Chico Buarque, durante a ditadura
brasileira, cantasse sobre as questões da China, da Albânia ou da própria
Cuba. Fosse assim, é claro, não teria sido perseguido e censurado. Como
Sílvio não é.
Não há país nem grupo social que não tenha descontentes. Cadê os de Cuba?
Quando se está lá, procurando bem até se encontra alguém que toque baixinho
uma musiquinha debochando da barba ou da oratória do Fidel. Mas só na
camufla.
Os velhinhos do Buena Vista e outros tantos de sua geração fazem uma música
legal, mas nascida nos cabarés quando Cuba era - com perdão pela palavra -
um puteiro dos Estados Unidos administrado pela máfia, uma ditadura ainda
pior que a atual. Só que uma ditadura pior não justifica uma outra ditadura,
assim como o assassino de uma pessoa não é melhor do que o assasino de duas.
Sobre a Polônia, é diferente, ela (como a Hungria e a então chamada
Iuguslávia) nunca aceitaram plenamente os regimes comunistas, que na
realidade eram dirigidos de fora. Por isso, nestes países, sempre houve um
pouco mais de condescendência nacional para com seus críticos, ainda que,
dos diretores citados, um (Polanski) praticamente nada fez lá dentro (seu
primeiro filme importante, "A faca na água", já é inglês) e os outros dois
passaram a vida às turras com o governo e sofrendo perseguições capitaneadas
pelas interventores soviéticos.
Em resumo, como escrevi lá no início deste debate quando ele ainda era mais
limitado, cada um sabe melhor de sua cidade do que das outras. No caso dos
regimes políticos, cada um sofre mais os problemas daquele onde vive do que
dos outros. As uvas do quintal do vizinho sempre parecem mais verdes. A
melhor forma de se analisar à distância sem paixão nem sectarismo um regime
ou um governo, é ver como ele trata sua oposição, e até que ponto permite a
liberdade de criação artística, principalmente quando esta lhe é crítica.
Este, para mim, me parece o único critério possível de ser observado com
relativa facilidade. E, sob ele, os governos comunistas geralmente perdem
feito para os outros.*
*E se a nossa mídia aqui é complicada, imaginem a que é administrada pelo
governo, em um país sem liberdade e onde o pensamento único é imposto à
força dentro de um também único (seja qual for) parâmetro, não admitindo em
hipótese alguma a possibilidade de estar errado? Consegue? Já estivemos
muito perto disso. É aterrorizante. Nestes lugares, nem uma lista de
discussão como esta seria permitida...
E sobre este assunto, pego minha trouxinha e vou embora. Abraços a todos.
Ney
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