É claro que "permito" que vc discorde.
E eu concordo com você, que a arte é um produto. E defendo o lado comercial da
arte, pois é ele que permite que os artistas tirem seu sustento. Nada me
incomoda mais do que ver nas pessoas a postura de que música é um "hobby de
desocupados". Tem muita gente que vive exclusivamente disso, e se não houver
uma postura profissionalizante, de artistas como Paulinho, por exemplo, aí que
a Música Brasileira vira um caos mesmo.
No entanto, perceba que o próprio Paulinho, se sentiu incomodado em tocar em
um teatro, pra poucas pessoas. O mesmo show, com exatamente o mesmo custo,
poderia ter sido realizado em um espaço maior, com o quádruplo do público.
Então eu pergunto: Por que isso não aconteceu?
Um show como esse acústico MTV de Paulinho, não tem seus custos cobertos pela
bilheteria. É impossível. Quando se busca patrocínio para shows (e eu trabalho
com isso), é feito um projeto, convencendo aos patrocinadores, que ali é uma
excelente vitrine para expor a sua marca e seus produtos. Essas cotas
publicitárias é que cobrem o custo do evento e viram parcerias de intercâmbio
de serviços, que fazem valer a pena contratar um show caro. Bilheteria, é um
lucro a mais. Quase que a esmola do café, perto do montante de grana que rola
Sendo assim, eu pergunto novamente: Se a contratante tem vários
patrocinadores que vão comprar as cotas publicitárias do show de um Paulinho da
Viola, bancando integralmente os custos do show, por que ela não aproveita e
leva o show pra um local que comporte mais gente (repito: 6.000 pessoas,
contra 1.600 da Sala Principal do TCA) ?????
Afinal isso permitiria um barateamento das entradas, além é claro de
possibilitar que mais gente vá ver o show.
Para mim, a resposta é uma só, e ela ficou evidente na postura arrogante da
contratante: o desejo de elitizar, para lucrar.
Aí alguém me pergunta, ué? Mas ela não lucraria num espaço maior também?
E eu respondo, sim. Mas em um espaço maior, o risco é maior também. É mais
seguro, vc vender um produto com um preço exorbitante em um espaço pequeno que
se tem certeza que vai ser consumido rapidamente, do que
vender esse mesmo produto em um espaço maior em que existe o risco (no caso
de Paulinho, duvido) do público não atingir a lotação do lugar dando prejuízo
ao contratante. Além do que, para o patrocinador, o perfil sócio-econômico de
quem paga 120 reais é muito mais interessante do que de quem paga 20.
"Ué Marcelo, mas vc não disse que a bilheteria não cobre os custos do show,
que esse papel é feito pelos contratos publicitários e que a bilheteria é um
lucro a mais?"
Disse, repito e assino embaixo. É por ter consciência disso que vejo
escancarada a sacanagem que é feita pelos contratantes de show.
No fundo, querem mesmo é elitizar, para lucrar MAIS
(O problema não é o lucro, e sim o MAIS)
Sacou?
Abs
Marcelo Neder
Eugenio Raggi <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Marcelo,
Na prática você tem toda a razão quando se refere ao tratamento
dispensado pela produtora à você. Paulinho, como é de praxe, é muito
mais importante do que e ela e - claro - muito mais amável e elegante.
Permito-me discordar de você em alguns pontos. O show do Paulinho é
arte, mas é - evidentemente - um produto. Como tal, dentro de uma
sociedade capitalista, atende às condições de oferta e procura. A
demanda por um show deste tipo em Salvador é muito grande, como é aqui
em BH. Os ingressos, mesmo não sendo vendidos a preços populares,
evaporaram-se em poucas horas no primeiro dia de vendas. Pela
Internet, aqueles que estavam disponíveis também sumiram, só que em
minutos, não em horas.
A música popular é um patrimônio popular, assim como o futebol.
Entretanto, um show do Paulinho em um teatro é para as 1.600 pessoas
que querem vê-lo aí em Salvador. Salvador tem mil vezes mais gente do
que isso. Na europa, são as classes abastadas que vão aos estádios. Os
"menos favorecidos" assitem futebol pela TV. Analogamente, compare com
o DVD. Quem pode, vai ao show, quem não pode compra o DVD (pirata ou
original, de acordo com sua condição financeira) ou assite pela MTV.
Abs,
Eugenio
Em 15/01/08, Marcelo Neder escreveu:
> Eugênio, vou pegar um gancho no final do seu e-mail, porque acho que esse
> assunto vale a pena ser comentado.
>
> "O preço dos ingressos
> condiz com a importância dos artistas e com o conforto atrelado ao
> projeto. Não achei nada demais.
> Paulinho da Viola esteve em BH e cobrou de 100 a 200. A Velha Guarda
> da Mangueira esteve no Chevrolet Hall a 100 pilas. Acho justo."
>
>
> Quinta-Feira passada (10/01), estive num Hotel aqui de Salvador, para
> assistir a uma apresentação do Clube da Guitarra Baiana, promovido por
> Aroldo Macedo (irmão de Armandinho). Por sinal, muito bom, com toda a
> família Macedo (Armando, Aroldo, Betinho, André e cia...), vários músicos de
> Salvador, e alguns convidados ilustres como Pepeu Gomes.
>
> Pois bem. Qual não foi minha surpresa, ao sair do show e me deparar com
> ninguém mais, ninguém menos que Paulinho da Viola, sentado no saguão do
> Hotel, tomando um cafezinho. Paulinho fez um show na sexta-feira na Sala
> Principal do Teatro Castro Alves, com ingressos que chegavam a 120 reais nas
> primeiras filas e nao me lembro exatamente o preço dos mais baratos, mas
> acho que eram 60 ou 80 (Como o Castro Alves, não tem ponto cego na platéia,
> em qualquer lugar que vc sente tem uma visão perfeita - só que mais longe,
> naturalmente).
>
> Diante de um encontro inesperado daquele (e por acaso, eu estava com meu
> inseparável cavaco na mão - ô sorte!). Me apresentei, e falei com ele.
> Paulinho, todo educado, me convidou pra sentar e ficamos, eu e ele batendo
> papo no saguão do hotel. O próprio Paulinho, citou achar caro o preço do
> ingresso, e disse que se sentia muito incomodado em saber que de repente,
> mil, duas mil pessoas, não teriam acesso ao show dele. Questionei a
> produtora (não a produtora dele, mas a contratante que estava sentada
> tomando café com ele), sobre o porque de não ter feito na Concha Acústica do
> TCA, em que a lotação é maior (6000 pessoas, contra 1600 da Sala Principal
> do TCA. Isso permitiria entradas mais baratas.
>
> Ela me veio com a seguinte resposta:
>
> - A concha não comporta o show de Paulinho, pois não é possível montar a
> cenografia, tem pouco espaço pra ganchos, etc... (explica-se: o show foi o
> do acústico, com toda a cenografia original do DVD, inclusive o próprio
> Elifas Andreato, tava aqui coordenando isso).
>
> Eu não quis falar nada, pra não ficar chato. Mas essa é uma mentira
> deslavada. A concha acústica ja´foi palco de inúmeras gravações de DVDs,
> muitos com cenografia cinematográfica. Cansei de ver operário pendurado com
> gancho de alpinista a 16 metros do chão montando cenário na concha
> (inclusive cenários muito mais complexos que o do DVD de Paulinho).
>
> Depois disso, quando Paulinho subiu para o quarto, ela se virou pra mim e
> disse a seguinte delicadeza:
>
> - Você é artista, e não dá valor a sua arte! Quem tem obrigação de fazer
> caridade é o governo e não eu. Você acha caro pagar esse preço pra assistir
> a um artista desse nível? A Bahia não tem analfabeto, 80% do público de
> shows é estudante! A bilheteria não cobre nem um oitavo do custo do show.
>
> Respondi a essa candura de pessoa, que em primeiro lugar, ela não me
> conhecia e eu não conhecia ela, sendo assim seria melhor não falarmos um do
> outro, pois ela não era ninguém pra dizer o valor que eu dou ou não a arte.
> Argumentei também, que em um evento como esse, os contratos publicitários
> não são lá muito pequenos, e que sei muito bem que são eles que cobrem os
> custos do show (com uma boa margem de lucro, diga-se de passagem).
> Quando fui embora, ainda vi Paulinho novamente, que me disse que depois
> voltaria novamente em Salvador, dessa vez sim, com a turnê do show, e seria
> bem mais legal, pois seria algo mais acessível, em que ele mesmo se sentia
> mais a vontade.
>
> Ficou claro pra mim uma coisa: a necessidade de elitização de um artista
> popular, pra "justificar" um lucro exorbitante em cima de um parco público
> pagante com capacidade pra pagar a cobiça do contratante. Claro, é mais
> lucrativo, fechar um contrato publicitário para um evento na Sala Principal
> do Teatro Castro Alves, que na Concha Acústica.
>
> Para mim, esse é o retrato típico do mercado musical brasileiro
> E o povo?
>
>
> Abs
>
>
> Marcelo Neder
>
>
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