O fato de o cara não ter dinheiro pra comprar abadá não dá a ele o direito
de roubar. O carnaval em Salvador é uma excelente oportunidade de fazer um
dinheirinho honesto, e o que mais tem é gente batalhando pra conseguir o seu
com dignidade. O cara rouba porque é vagabundo mesmo.

Olha um exemplo bacana. Há uns dois anos eu estava com um amigo que organiza
o bloco Gravata Doida (bloco sem cordas, com muito samba e bandinha de
fanfarra) na pipoca do Campo Grande atrás do Alerta Geral e saiu um camarada
de dentro da corda pra falar com a gente. Ele havia trabalhado como
segurança do bloco no dia anterior e naquele dia estava lá curtindo o
carnaval dele e veio nos cumprimentar.

Quanto ao carnaval do interior de Minas tenho minhas ressalvas. O que vejo é
a playboyzada que não conseguiu juntar grana pra ir em um carnaval mais
famoso lotar as cidades (algumas históricas, e inclusive tombadas) e
promover uma verdadeira baderna ao som mecânico de Axé e Funk, deixando pra
trás um monte de lixo e destroços. Mais ou menos o que estava virando Olinda
antes de proibirem os carros de entrarem com seus equipamentos de som,
valorizando os blocos e a tradição local. E os governos locais não tomam
nenhuma providência para coibir o vandalismo, já que ele é bem lucrativo.

Voltando ao carnaval de Salvador, não vejo muita saída não. É questão de
mercado, oferta e procura. O turista mais abastado não quer se divertir na
informalidade, ele quer justamente essa exclusividade de poder pagar por uma
coisa que poucos podem. Hoje em dia os camarotes têm shows particulares e
uma estrutura cada vez mais diferenciada. Mas existem os blocos mais baratos
também. Tem bloco que custa 100 reais os três dias dividido em 12 vezes.
Assim como tem carro mais caro e carro mais barato. E não adianta
choramingar pra comprar uma ferrari a preço de carro "popular".

O que não pode acontecer é se deixar de valorizar o carnaval mais
tradicional, os blocos afro, a guitarra baiana, o samba de roda tradicional.
A luta que deve existir é pra que essas culturas tenham seu espaço. De que
adianta abolirem as cordas se só tocar Axé no carnaval inteiro? Outro
problema é que já vi bloco grande atropelar, literalmente, um trio sem corda
que estava na frente. Uma total falta de respeito com quem está se
divertindo e com quem está fazendo seu trabalho, mesmo que seja em um bloco
menor. A briga de Carlinhos Brown é mais ou menos por aí.

Nos últimos anos que se tem visto são os camarotes invadindo a área que
antes era destinada aos foliões, espremendo cada vez mais a pipoca contra a
corda. Nesse caso sim, você tira o direito de quem quer brincar o carnaval
na rua. Mas a corda é necessária para o modelo atual do carnaval baiano. E
não adianta querer mudar o sistema de folia mais rentável que existe no
país. O que deve haver é um cuidado para que a ganância dos empresários de
bloco tenha um limite que garanta ao povo seu espaço na avenida. Isso é
papel do Governo do Estado e do Município, seja fiscalizando, patrocinando
os blocos tradicionais, melhorando o policiamento e infraestrutura.


Aquele abraço,
Gabriel Gomes


2009/3/1 Remo Pellegrini <[email protected]>

> é, ouvi dizer que tem muito bandido atrás do chiclete mesmo. formigas atrás
> do açúcar, né? afinal, quem pode comprar abadá?
>
> o carnaval de rua do Rio tem aumentado; o de Pernambuco sempre esteve lá e
> o das cidades históricas de Minas também tem recebido mais turistas. sem
> cordas
>
> acho que a discussão não é se o turismo de Salvador vai perder arrecadação
> - e a sua economia nem é mais só fundada no turismo - e sim, se haverá jeito
> das classes altas também se divertirem um pouco na informalidade (tadinhos),
> mesmo que, para isso, precisem de um bando de trogloditas espremendo o povão
> da pipoca
>
> um abraço
> Remo
>   ----- Original Message -----
>  From: Harley
>  To: [email protected]
>  Sent: Sunday, March 01, 2009 11:44 AM
>  Subject: RES: [S-C] O ABADÁ É A NOVA SENZALA
>
>
>  Nessa discussão eu tenho que entrar ... Não sou dono da verdade mas não
> vejo
>  o Carnaval de Salvador dessa forma (citado pelo Roberto).
>
>  Em Salvador ainda existem muitos blocos sem corda, e são principalmente
>  blocos puxados pelos artistas e bandas que fazem muito sucesso com o
> público
>  local. É visível que o povo todo se diverte (negros, brancos e inclusive
>  turistas estrangeiros ou não). Agora, não dá para todo mundo ir atrás do
>  Chiclete com Banana...
>
>  Gente, se vocês vissem como é a pipoca dos blocos do Chiclete com Banana,
>  vocês entenderiam do que eu falo. A quantidade de pivetes e bandidos que
>  seguem o bloco pela pipoca é impressionante. O Carnaval (com cordas ou
> não)
>  é uma grande festa. Não há como ter festa sem segurança. Sem segurança os
>  turistas fogem. Sem turistas o dinheiro não entra em Salvador.
>
>  É inquestionável o retorno econômico que o evento Carnaval leva para a
>  cidade de Salvador. Investimentos e visibilidade nunca vistos em qualquer
>  outra época ou festa do ano. A quantidade de negócios que são fechados,
>  investimentos de grandes empresas etc. Se não forem as cordas e os
> camarotes
>  para fornecer um pouco de segurança aos turistas que lotam a cidade
>  (trazendo muito dinheiro, dólares e euros), Salvador tende a perder
> demais.
>  Todos os comerciantes e prestadores de serviços fazem a festa nessa época
>  (taxis, restaurantes, hotéis, pousadas e até os moradores do interior que
>  vão pra cidade vender qualquer coisa e dormir na rua durante o carnaval).
> E
>  a prefeitura também arrecada uma enormidade...
>
>  Eu vejo alguns baianos criticando as cordas e tal, mas se o 'carnaval das
>  cordas' acabar, a própria cidade tende a se empobrecer mais. Admiro muito
>  Carlinhos Brown mas quando ele pede carnaval sem cordas, ele não pensa nas
>  pessoas que dependem do dinheiro dos turistas nessa época. É claro que o
>  sonho de todos é que a situação seja favorável durante todo o ano, mas
> pelo
>  menos a época do Carnaval é uma época de prosperidade geral. Muitos pagam
>  suas dívidas do ano todo só com o trabalho do carnaval (só eu ouvi isso de
> 2
>  taxistas esse ano, imagina o restante da população que trabalha nessa
>  época).
>
>  É isso, gente. Acho que o Carnaval de Salvador é um Carnaval onde todos se
>  divertem. Quem está lá pulando atrás do trio, segurando a corda, curtindo
> na
>  pipoca ou nos trios sem corda, cada um se diverte à sua maneira. Quanto à
>  isso não há diferença nem segregação!
>
>  Abraço,
>  Harley Medeiros
>  [email protected]
>  -----Mensagem original-----
>
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