Excelente texto JL, vou jogar um pouco de lenha na fogueira com um texto do 
ex-secretário de cultura que acabou de sair do cargo em 2010, Márcio Meirelles, 
em que entre outra coisas ele alerta: "...é preciso diferenciar cultura, de 
produto cultural..."

Abs
Marcelo Neder
Meu gosto pessoal é inclusivo: gosto tanto de ouvir Rebolation quanto Bach ou 
Cage ou Beatles ou Lucas Santana. Assim como monto Goethe ou Brecht e leio 
histórias em quadrinhos e me comovo com novela das seis ou afoxés. Não tem que 
ser isso ou aquilo. Pode ser tudo. Porque tudo tem sua poética.Cada coisa é 
cada coisa. Por exemplo: letra de música não é poema, apesar de usarem ambos a 
mesma matéria prima: palavras. Nas letras de música, as palavras precisam ser 
associadas a rítmos, melodias e harmonias para criar imagens, reflexões, 
deleite, diversão... Nos poemas, as palavras sozinhas criam ritmos, harmonias, 
melodias e imagens, dependendo do talento do poeta. Isolar a letra da música, 
às vezes, é como tirar um peixe da água. Mas musicar um poema pode resultar 
numa superposição desastrosa. Mesmo que as duas experiências, eventualmente, 
possam resultar em sucesso.Para adentrar no debate, precisamos diferenciar 
cultura, produto
 cultural, arte e indústria cultural. São coisas distintas que se complementam. 
Não se desmerecem nem há hirarquia. Há, sim um “ecosistema” cultural. Redes 
produtivas que tornam tudo isso rico, diverso, viável e sustentável.A cultura – 
nossos comportamentos, saberes e fazeres – nos alimenta de modos e símbolos que 
nos identificam e permitem dialogar com o outro. E quanto mais consigamos tocar 
outros, melhor. Podemos ter duas sensações distintas: a de que podemos melhorar 
o mundo, partilhando valores comuns; ou a de que podemos dominar o mundo.E esse 
universo simbólico, vocábulos e repertórios identitários, traduz-se e se 
condensa em produtos culturais: objetos materiais ou imateriais, frutos dos 
relacionamentos do indivíduo com a natureza, do cidadão com a sociedade e da 
preservação dessas relações pela memória coletiva.A arte – ato de fazer com 
esmero – ressignificando os mesmos processos, muitas vezes com lógicas
 subvertidas, constroi objetos artísticos que viram referências, ícones, 
acervos, a patir de um consenso que envolve academia, mídia, mercado.A 
indústria cultural possibilita a sustentabilidade da arte e o acesso a ela, 
gerando, a partir da apropriação das linguagens e produções artísticas, novos 
ícones e produtos artístico-culturais. Produzidos ou reproduzidos em série e, 
cada vez mais, oferecidos ao público por engenhosos sistemas de marketing, são 
transformados em objetos de desejo e de consumo coletivo, 
democratizando/massificando o acesso ao que era exclusivo domínio de um 
grupo.Por mais que nos choquemos, a arte é objeto de consumo e produto de troca 
desde sempre. A renascença começou a descentralizar isso, deslocando o eixo de 
produção e patrocínio da esfera do público, determinados pelo Estado e pela 
Igreja, para a do privado, com o surgimento da burguesia e dos mecenas. E 
também deu início a popularização de alguns
 setores, como o da literatura e das artes visuais, com as tecnologias de 
reprodução em série. Hoje, ingressos no teatro ou cinema, livros, cds, dvds, 
quadros, gravuras e todos os conteúdos veiculados pelas indústrias da 
comunicação e da informação são comprados – ou seja, o acesso à produção 
artística se dá através de troca, ainda que essa troca possa ser subsidiada ou 
totalmente financiada pelo Estado ou por patrocinio da iniciativa privada. O 
que gera recursos e valores.Para uma elite manter sua posição não basta apenas 
o domínio e acúmulo de recursos econômicos. É preciso também um domínio e 
acúmulo de bens simbólicos. E, sendo a linguagem também poder, essa elite 
constroi códigos restritos para a comunicação entre alguns, seus pares. A 
intimidade com esses códigos cria um grupo “culto” ou seja cultivado que se 
pretende cultuado sempre. As elites excluem evidentemente de seu círculo aquilo 
que é popular. Ou
 seja com o qual todo o povo – de qualquer classe – se identifica, entende, 
gosta e tem acesso. Podemos só lembrar a reação da elite branca brasileira ao 
lundu, ao candomblé, ao samba, à capoeira: expressões simbólicas dos pretos, 
das “classes inferiores”. Poderia citar outros exemplos de rejeição. Mas 
fiquemos por aí.Isso acontece nas sociedades até um Picasso reconhecer e se 
apropriar dos valores estéticos das máscaras africanas, por exemplo. Até a 
indústria transformar o lamento do blues em discos, vendáveis. Até o cinema 
perceber o potêncial dramático e catártico das vidas nos guetos sociais. Aí a 
coisa muda.Acontece que as periferias cansaram de cultuar a produção simbólica 
da classe média e seus artífices. Cansou de ver sua própria produção simbólica 
retrabalhada em nova embalagem e seus artístas ascenderem e decaírem por força 
de um mercado consumidor. Cansou de ver os seus objetos – música, literatura,
 etc – serem considerados sub cultura...As periferias resolveram tomar atitude 
e cultivar seu próprio discurso, comunicar-se com seu igual através de seus 
próprios códigos estéticos. Virar as costas para uma sociedade que 
sistematicamente se recusa a encarar de frente a situação.A criação desse novo 
discurso inclui novos agentes culturais, novo vocabulário, novas mídias, novo 
mercado. Uma nova cadeia produtiva que não faz questão de dialogar com o 
centro. Que vive independente da vontade ou interferência dos veículos ou 
agentes da indústria cultural central. Isso é possível agora, graças às novas 
tecnologias digitais.E as elites, através de sua juventude, que – questionando 
valores geracionais, acabam batendo de frente com valores de classe – passam a 
consumir essa nova produção cultural, a vestir, falar, andar como os jovens das 
periferias. A cultuar esses novos valores. Integrando esteticamente, de alguma 
forma, a periferia
 ao centro.Evidentemente, parte dessa elite, com uma intuitição ou consciência 
coletiva, de classe, percebe o perigo que suas posições correm, quando os 
pretos e pobres saem das páginas policiais e ocupam o caderno de cultura. Sabe 
também o perigo que corre quando seus jovens começam a frequentar as páginas 
policiais, atraídos pela mítica da periferia (“seja marginal, seja herói”) e 
buscar aventura no lado B da cidade, que inclui também, como bônus track, as 
drogas e seu discurso completo, sua nova sintaxe vernacular e comportamental. 
Essa elite passa então a execrar a estética produzida na periferia, suas 
expressões e produtos.Mas não tem jeito, a indústria cultural e a mídia abrem 
espaço para os novos produtos extremamente vendáveis que, pelo seu apelo 
popular, já construiram um mercado paralelo. É o que está acontecendo. A 
juventude se veste, fala, se comporta como garotos de favela. As gírias vem do 
mundo das drogas e as
 músicas, danças e meios de curtí-las são também modos vindos da periferia. O 
exótico, o erótico, vêm com carga transgressora poderosa e promessas de 
vivências culturais inéditas.É o que está acontecendo. O repertório é direto, 
tem novos códigos. A qualidade não se mede por letras de músicas que podem 
sobreviver sozinhas como poesia apaziguadora. A beleza é outra beleza. A 
desistência da aspiração pelo eterno vem da consciência da finitude e 
fragilidade da vida, que acaba com uma bala perdida, uma batida policial. Tudo 
é fugaz e reciclável. Tudo é reposto com muita velocidade, como os grafittes. 
Os novos ídolos que surgem como revelação e se extinguem como fogos de 
artifício, não são ídolos, são objetos de desejo que, consumado, os devora. Não 
é preciso sofisticação para o fast food, apenas uma boa campanha de marketing e 
um sabor impactante.Quando as barreiras políticas e sociais são detonadas pela 
cultura. Quando
 estética e repertório da periferia invadem o centro. Tanto faz onde vamos 
enfiar o que está todo enfiado. Precisamos repensar valores. Incluir. Porque é 
a exclusão que gera a violência. Os parametros estéticos, os paradigmas 
formais, os conceitos dos contemporâneos antenados, a cultura e a civilização, 
eles que se danem. Ou não.Viva o Rebolation e a alegria de mexer os 
quadris.  Salvador, abril de 2010marcio meirelles--- Em qui, 24/3/11, JL Vivas 
<[email protected]> escreveu:

De: JL Vivas <[email protected]>
Assunto: [S-C] Samba da Bahia
Para: [email protected]
Data: Quinta-feira, 24 de Março de 2011, 10:20



  

    
  
  
    Extraido de http://ojuobaproducaoturismo.blogspot.com/

    ===========================

    

    O samba está em alta?

    

    Essa é uma pergunta que exige uma reflexão. Em 2003,  pouco se
    falava de samba na Bahia, a idéia de se cantar samba era vista com
    preconceito e havia pouquíssimos artistas (dentre eles  Gal do Beco,
    Barlavento, Neto Bala, Batifun , Clécia Queiroz) e casas onde se
    tocasse esse gênero musical. Hoje, assistimos pipocarem grupos e
    muitos são os espaços criados especialmente ou utilizados para
    abrigar o samba, que aliás ganhou espaço dentro do carnaval e no
    Festival de Verão. Então voltamos para a pergunta: O samba da Bahia
    está em alta?  Qual é o samba produzido na Bahia nos dias atuais? O
    que é mesmo esse samba da Bahia?

    

             Em 2004, o samba de roda  do Recôncavo Baiano foi reconhecido como
      Obra-Prima do Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO e
      algumas medidas foram tomadas para a sua salvaguarda, como oficina
      da viola machete - viola característica do samba-chula do
      Recôncavo - e produção de CD, em realidade um registro maravilhoso
      de sambas da região. No entanto, será mesmo o samba de roda o que
      tem vigorado na produção dos artistas locais e
      desfilado na avenida no carnaval? Sabemos que a Associação
    dos Sambadores e Sambadeiras da Bahia - Asseba, criada em função do
    Plano de Salvaguarda para o reconhecimento do samba de roda da
    Unesco, - reúne hoje mais de noventa grupos e competentemente tem
    promovido encontros entre mestres, pesquisadores, rodas de samba  e
    shows no Recôncavo, cidades brasileiras e até mesmo no exterior. No
    entanto, esses grupos visitam pouco Salvador e não são eles
    que freqüentam as páginas dos jornais no final de semana. Quantos
    são os grupos e artistas das mais novas gerações que se dedicam ao
    samba de Roda na capital?  É o samba de roda mesmo o que está se
    chamando  de samba da Bahia? Ele está nas escolas, nas rádios? O
    samba da Bahia tem uma outra identidade?   Ou será o
      modismo,  oportunismo

      ou vislumbramento de retorno financeiros de muitos grupos, que
      apenas repetem a fórmula do samba urbano carioca (ou brasileiro),
      sem nem ao menos estudar um pouco mais sobre o samba,   o que tem
      pintado nas rodas da Bahia? Questões a serem refletidas...

  


-----Anexo incorporado-----

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