*Pessoal q* Em 5 de abril de 2011 11:13, Caio Pontual <[email protected]> escreveu:
> Essa é a verdadeira visão do *valorizar o que nem sempre tem valor*, é > mais um elemento da cadeia produtiva de "cultura". É nivelar por baixo a > qualidade desse produto cultural. Ainda não vi um baiano criticar outro > baiano. > Não é preciso elitizar a produção cultural, mas é preciso sim, filtrar as > produção de má qualidade, a produção em série, a produção do HIT da vez, do > consumo ditado pelos pseudo intelectuais que querem se travestir de povo > para se tornar simpático, apenas. É lastimável. > > Um abraço. > Caio Pontual > > > ----- Original Message ----- > *From:* Marcelo Neder <[email protected]> > *To:* [email protected] ; JL Vivas <[email protected]> > *Sent:* Monday, March 28, 2011 11:19 PM > *Subject:* Re: [S-C] Samba da Bahia > > Excelente texto JL, vou jogar um pouco de lenha na fogueira com um texto > do ex-secretário de cultura que acabou de sair do cargo em 2010, Márcio > Meirelles, em que entre outra coisas ele alerta: "...é preciso diferenciar > cultura, de produto cultural..." > > Abs > > Marcelo Neder > > Meu gosto pessoal é inclusivo: gosto tanto de ouvir *Rebolation* quanto > Bach ou Cage ou Beatles ou Lucas Santana. Assim como monto Goethe ou Brecht > e leio histórias em quadrinhos e me comovo com novela das seis ou afoxés. > Não tem que ser isso ou aquilo. Pode ser tudo. Porque tudo tem sua poética. > > Cada coisa é cada coisa. Por exemplo: letra de música não é poema, apesar > de usarem ambos a mesma matéria prima: palavras. Nas letras de música, as > palavras precisam ser associadas a rítmos, melodias e harmonias para criar > imagens, reflexões, deleite, diversão... Nos poemas, as palavras sozinhas > criam ritmos, harmonias, melodias e imagens, dependendo do talento do poeta. > Isolar a letra da música, às vezes, é como tirar um peixe da água. Mas > musicar um poema pode resultar numa superposição desastrosa. Mesmo que as > duas experiências, eventualmente, possam resultar em sucesso. > > Para adentrar no debate, precisamos diferenciar cultura, produto cultural, > arte e indústria cultural. São coisas distintas que se complementam. Não se > desmerecem nem há hirarquia. Há, sim um “ecosistema” cultural. Redes > produtivas que tornam tudo isso rico, diverso, viável e sustentável. > > A cultura – nossos comportamentos, saberes e fazeres – nos alimenta de > modos e símbolos que nos identificam e permitem dialogar com o outro. E > quanto mais consigamos tocar outros, melhor. Podemos ter duas sensações > distintas: a de que podemos melhorar o mundo, partilhando valores comuns; ou > a de que podemos dominar o mundo. > > E esse universo simbólico, vocábulos e repertórios identitários, traduz-se > e se condensa em produtos culturais: objetos materiais ou imateriais, frutos > dos relacionamentos do indivíduo com a natureza, do cidadão com a sociedade > e da preservação dessas relações pela memória coletiva. > > A arte – ato de fazer com esmero – ressignificando os mesmos processos, > muitas vezes com lógicas subvertidas, constroi objetos artísticos que viram > referências, ícones, acervos, a patir de um consenso que envolve academia, > mídia, mercado. > > A indústria cultural possibilita a sustentabilidade da arte e o acesso a > ela, gerando, a partir da apropriação das linguagens e produções artísticas, > novos ícones e produtos artístico-culturais. Produzidos ou reproduzidos em > série e, cada vez mais, oferecidos ao público por engenhosos sistemas de > marketing, são transformados em objetos de desejo e de consumo coletivo, > democratizando/massificando o acesso ao que era exclusivo domínio de um > grupo. > > Por mais que nos choquemos, a arte é objeto de consumo e produto de troca > desde sempre. A renascença começou a descentralizar isso, deslocando o eixo > de produção e patrocínio da esfera do público, determinados pelo Estado e > pela Igreja, para a do privado, com o surgimento da burguesia e dos mecenas. > E também deu início a popularização de alguns setores, como o da literatura > e das artes visuais, com as tecnologias de reprodução em série. Hoje, > ingressos no teatro ou cinema, livros, cds, dvds, quadros, gravuras e todos > os conteúdos veiculados pelas indústrias da comunicação e da informação são > comprados – ou seja, o acesso à produção artística se dá através de troca, > ainda que essa troca possa ser subsidiada ou totalmente financiada pelo > Estado ou por patrocinio da iniciativa privada. O que gera recursos e > valores. > > Para uma elite manter sua posição não basta apenas o domínio e acúmulo de > recursos econômicos. É preciso também um domínio e acúmulo de bens > simbólicos. E, sendo a linguagem também poder, essa elite constroi códigos > restritos para a comunicação entre alguns, seus pares. A intimidade com > esses códigos cria um grupo “culto” ou seja cultivado que se pretende > cultuado sempre. As elites excluem evidentemente de seu círculo aquilo que é > popular. Ou seja com o qual todo o povo – de qualquer classe – se > identifica, entende, gosta e tem acesso. Podemos só lembrar a reação da > elite branca brasileira ao lundu, ao candomblé, ao samba, à capoeira: > expressões simbólicas dos pretos, das “classes inferiores”. Poderia citar > outros exemplos de rejeição. Mas fiquemos por aí. > > Isso acontece nas sociedades até um Picasso reconhecer e se apropriar dos > valores estéticos das máscaras africanas, por exemplo. Até a indústria > transformar o lamento do blues em discos, vendáveis. Até o cinema perceber o > potêncial dramático e catártico das vidas nos guetos sociais. Aí a coisa > muda. > > Acontece que as periferias cansaram de cultuar a produção simbólica da > classe média e seus artífices. Cansou de ver sua própria produção simbólica > retrabalhada em nova embalagem e seus artístas ascenderem e decaírem por > força de um mercado consumidor. Cansou de ver os seus objetos – música, > literatura, etc – serem considerados sub cultura... > > As periferias resolveram tomar atitude e cultivar seu próprio discurso, > comunicar-se com seu igual através de seus próprios códigos estéticos. Virar > as costas para uma sociedade que sistematicamente se recusa a encarar de > frente a situação. > > A criação desse novo discurso inclui novos agentes culturais, novo > vocabulário, novas mídias, novo mercado. Uma nova cadeia produtiva que não > faz questão de dialogar com o centro. Que vive independente da vontade ou > interferência dos veículos ou agentes da indústria cultural central. Isso é > possível agora, graças às novas tecnologias digitais. > > E as elites, através de sua juventude, que – questionando valores > geracionais, acabam batendo de frente com valores de classe – passam a > consumir essa nova produção cultural, a vestir, falar, andar como os jovens > das periferias. A cultuar esses novos valores. Integrando esteticamente, de > alguma forma, a periferia ao centro. > > Evidentemente, parte dessa elite, com uma intuitição ou consciência > coletiva, de classe, percebe o perigo que suas posições correm, quando os > pretos e pobres saem das páginas policiais e ocupam o caderno de cultura. > Sabe também o perigo que corre quando seus jovens começam a frequentar as > páginas policiais, atraídos pela mítica da periferia (“seja marginal, seja > herói”) e buscar aventura no lado B da cidade, que inclui também, como bônus > track, as drogas e seu discurso completo, sua nova sintaxe vernacular e > comportamental. Essa elite passa então a execrar a estética produzida na > periferia, suas expressões e produtos. > > Mas não tem jeito, a indústria cultural e a mídia abrem espaço para os > novos produtos extremamente vendáveis que, pelo seu apelo popular, já > construiram um mercado paralelo. É o que está acontecendo. A juventude se > veste, fala, se comporta como garotos de favela. As gírias vem do mundo das > drogas e as músicas, danças e meios de curtí-las são também modos vindos da > periferia. O exótico, o erótico, vêm com carga transgressora poderosa e > promessas de vivências culturais inéditas. > > É o que está acontecendo. O repertório é direto, tem novos códigos. A > qualidade não se mede por letras de músicas que podem sobreviver sozinhas > como poesia apaziguadora. A beleza é outra beleza. A desistência da > aspiração pelo eterno vem da consciência da finitude e fragilidade da vida, > que acaba com uma bala perdida, uma batida policial. Tudo é fugaz e > reciclável. Tudo é reposto com muita velocidade, como os grafittes. Os novos > ídolos que surgem como revelação e se extinguem como fogos de artifício, não > são ídolos, são objetos de desejo que, consumado, os devora. Não é preciso > sofisticação para o fast food, apenas uma boa campanha de marketing e um > sabor impactante. > > Quando as barreiras políticas e sociais são detonadas pela cultura. Quando > estética e repertório da periferia invadem o centro. Tanto faz onde vamos > enfiar o que está *todo enfiado*. Precisamos repensar valores. Incluir. > Porque é a exclusão que gera a violência. Os parametros estéticos, os > paradigmas formais, os conceitos dos contemporâneos antenados, a cultura e a > civilização, eles que se danem. Ou não. > > Viva o *Rebolation* e a alegria de mexer os quadris. > > > > > > Salvador, abril de 2010 > > marcio meirelles > --- Em *qui, 24/3/11, JL Vivas <[email protected]>* escreveu: > > > De: JL Vivas <[email protected]> > Assunto: [S-C] Samba da Bahia > Para: [email protected] > Data: Quinta-feira, 24 de Março de 2011, 10:20 > > Extraido de http://ojuobaproducaoturismo.blogspot.com/ > =========================== > > O samba está em alta? > > Essa é uma pergunta que exige uma reflexão. Em 2003, pouco se falava de > samba na Bahia, a idéia de se cantar samba era vista com preconceito e havia > pouquíssimos artistas (dentre eles Gal do Beco, Barlavento, Neto Bala, > Batifun , Clécia Queiroz) e casas onde se tocasse esse gênero musical. Hoje, > assistimos pipocarem grupos e muitos são os espaços criados especialmente ou > utilizados para abrigar o samba, que aliás ganhou espaço dentro do carnaval > e no Festival de Verão. Então voltamos para a pergunta: O samba da Bahia > está em alta? Qual é o samba produzido na Bahia nos dias atuais? O que é > mesmo esse samba da Bahia? > > Em 2004, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi reconhecido > como Obra-Prima do Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO e algumas > medidas foram tomadas para a sua salvaguarda, como oficina da viola machete > - viola característica do samba-chula do Recôncavo - e produção de CD, em > realidade um registro maravilhoso de sambas da região. No entanto, será > mesmo o samba de roda o que tem vigorado na produção dos artistas locais e > desfilado na avenida no carnaval? Sabemos que a Associação dos Sambadores > e Sambadeiras da Bahia - Asseba, criada em função do Plano de Salvaguarda > para o reconhecimento do samba de roda da Unesco, - reúne hoje mais de > noventa grupos e competentemente tem promovido encontros entre mestres, > pesquisadores, rodas de samba e shows no Recôncavo, cidades brasileiras e > até mesmo no exterior. No entanto, esses grupos visitam pouco Salvador e não > são eles que freqüentam as páginas dos jornais no final de semana. Quantos > são os grupos e artistas das mais novas gerações que se dedicam ao samba de > Roda na capital? É o samba de roda mesmo o que está se chamando de samba > da Bahia? Ele está nas escolas, nas rádios? O samba da Bahia tem uma outra > identidade? Ou será o modismo, oportunismo ou vislumbramento de retorno > financeiros de muitos grupos, que apenas repetem a fórmula do samba urbano > carioca (ou brasileiro), sem nem ao menos estudar um pouco mais sobre o > samba, o que tem pintado nas rodas da Bahia? Questões a serem > refletidas... > > -----Anexo incorporado----- > > _______________________________________________ > Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro > Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela > Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina > Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos > > ------------------------------ > > _______________________________________________ > Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro > Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela > Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina > Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos > > > _______________________________________________ > Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro > Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela > Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina > Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos > >
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