Concordo com o Marcos, o texto mereceria muita discussão, por isso não quis responder antes. Na minha opinião o texto generaliza o que não deixa de ser uma experiência musical muito limitada, que o autor acha abrangente. Quando alguém quer dizer que tem um gosto "inclusivo" costuma botar algum artista pop moderno, como Beatles ou Santana, e isso basta. Ora, o mundo inteiro está cheio de música, a música pop moderna é só um dos estilos, um de dez mil, e por sinal extremamente limitado.

Poesia e música se confundem no mundo todo. Em muitos países europeus, os que eu conheço, os melhores poetas eram músicas e constumavam musicar suas poesias, até hoje quase. A tradição musical popular de todos os países da América confunde poesia e música (trovas, juglares, payadores na Argentina etc), poderia dar mil exemplos. Toda a poesia provençal por exemplo. Não acabaria mais se fosse dar exemplos.

A arte raramente foi objeto de consumo e troca, especialmente a música, isso é coisa do século passado com os técnicas de reprodução. Muitas vezes a música teve um significado religioso, como a africana, outras vezes cumprindo outras funções na vida das sociedades, mas não como objeto de troca.

As periferias sempre cultivaram seu próprio discurso, é agora quando elas estão mais colonizadas culturalmente, especialmente com as "novas tecnologias" de que fala o autor. Ou seja, o contrario do que o Meirelles coloca. Ou ele quer dizer por exemplo que o samba foi uma criação da classe média? O centro sempre parasitou a periferia, e continua na fazê-lo. A industria cultural é muito pouco criativa, tem que vampirizar o que tem por aí, e cada vez tem menos já que essa mesma industria acaba com tudo. Pra mim, o que o Meirelles chama de "novo discurso" não é mais que isso, a colonização cultural da periferia, que Meirelles quer vender agora como produto cultural genuíno. Só em uns casos muito específicos acho que é.

JLV





El 05/04/2011 23:32, Marcos Virgílio escribió:
Esse texto é bem complicado e discutível, na verdade. Cheio de afirmações categóricas que mereceriam páginas e páginas de discussão, que o autor simplesmente atropela e afirma como se fosse um dado da realidade. "A indústria cultural possibilita a sustentabilidade da arte"? "A arte é objeto de consumo e produto de troca desde sempre"? Acho que estão misturando alhos com bugalhos: a emancipação poderá ocorrer, e se ocorrer será A DESPEITO DA indústria cultural, não por causa dela...

Marcos Virgílio da Silva


Em 28 de março de 2011 23:19, Marcelo Neder <[email protected] <mailto:[email protected]>> escreveu:

    Excelente texto JL, vou jogar um pouco de lenha na fogueira com um
    texto do ex-secretário de cultura que acabou de sair do cargo em
    2010, Márcio Meirelles, em que entre outra coisas ele alerta:
    "...é preciso diferenciar cultura, de produto cultural..."

    Abs

    Marcelo Neder

    Meu gosto pessoal é inclusivo: gosto tanto de ouvir
    /Rebolation/ quanto Bach ou Cage ou Beatles ou Lucas Santana.
    Assim como monto Goethe ou Brecht e leio histórias em quadrinhos e
    me comovo com novela das seis ou afoxés. Não tem que ser isso ou
    aquilo. Pode ser tudo. Porque tudo tem sua poética.

    Cada coisa é cada coisa. Por exemplo: letra de música não é poema,
    apesar de usarem ambos a mesma matéria prima: palavras. Nas letras
    de música, as palavras precisam ser associadas a rítmos, melodias
    e harmonias para criar imagens, reflexões, deleite, diversão...
    Nos poemas, as palavras sozinhas criam ritmos, harmonias, melodias
    e imagens, dependendo do talento do poeta. Isolar a letra da
    música, às vezes, é como tirar um peixe da água. Mas musicar um
    poema pode resultar numa superposição desastrosa. Mesmo que as
    duas experiências, eventualmente, possam resultar em sucesso.

    Para adentrar no debate, precisamos diferenciar cultura, produto
    cultural, arte e indústria cultural. São coisas distintas que se
    complementam. Não se desmerecem nem há hirarquia. Há, sim um
    “ecosistema” cultural. Redes produtivas que tornam tudo isso rico,
    diverso, viável e sustentável.

    A cultura – nossos comportamentos, saberes e fazeres – nos
    alimenta de modos e símbolos que nos identificam e permitem
    dialogar com o outro. E quanto mais consigamos tocar outros,
    melhor. Podemos ter duas sensações distintas: a de que podemos
    melhorar o mundo, partilhando valores comuns; ou a de que podemos
    dominar o mundo.

    E esse universo simbólico, vocábulos e repertórios identitários,
    traduz-se e se condensa em produtos culturais: objetos materiais
    ou imateriais, frutos dos relacionamentos do indivíduo com a
    natureza, do cidadão com a sociedade e da preservação dessas
    relações pela memória coletiva.

    A arte – ato de fazer com esmero – ressignificando os mesmos
    processos, muitas vezes com lógicas subvertidas, constroi objetos
    artísticos que viram referências, ícones, acervos, a patir de um
    consenso que envolve academia, mídia, mercado.

    A indústria cultural possibilita a sustentabilidade da arte e o
    acesso a ela, gerando, a partir da apropriação das linguagens e
    produções artísticas, novos ícones e produtos artístico-culturais.
    Produzidos ou reproduzidos em série e, cada vez mais, oferecidos
    ao público por engenhosos sistemas de marketing, são transformados
    em objetos de desejo e de consumo coletivo,
    democratizando/massificando o acesso ao que era exclusivo domínio
    de um grupo.

    Por mais que nos choquemos, a arte é objeto de consumo e produto
    de troca desde sempre. A renascença começou a descentralizar isso,
    deslocando o eixo de produção e patrocínio da esfera do público,
    determinados pelo Estado e pela Igreja, para a do privado, com o
    surgimento da burguesia e dos mecenas. E também deu início a
    popularização de alguns setores, como o da literatura e das artes
    visuais, com as tecnologias de reprodução em série. Hoje,
    ingressos no teatro ou cinema, livros, cds, dvds, quadros,
    gravuras e todos os conteúdos veiculados pelas indústrias da
    comunicação e da informação são comprados – ou seja, o acesso à
    produção artística se dá através de troca, ainda que essa troca
    possa ser subsidiada ou totalmente financiada pelo Estado ou por
    patrocinio da iniciativa privada. O que gera recursos e valores.

    Para uma elite manter sua posição não basta apenas o domínio e
    acúmulo de recursos econômicos. É preciso também um domínio e
    acúmulo de bens simbólicos. E, sendo a linguagem também poder,
    essa elite constroi códigos restritos para a comunicação entre
    alguns, seus pares. A intimidade com esses códigos cria um grupo
    “culto” ou seja cultivado que se pretende cultuado sempre. As
    elites excluem evidentemente de seu círculo aquilo que é popular.
    Ou seja com o qual todo o povo – de qualquer classe – se
    identifica, entende, gosta e tem acesso. Podemos só lembrar a
    reação da elite branca brasileira ao lundu, ao candomblé, ao
    samba, à capoeira: expressões simbólicas dos pretos, das “classes
    inferiores”. Poderia citar outros exemplos de rejeição. Mas
    fiquemos por aí.

    Isso acontece nas sociedades até um Picasso reconhecer e se
    apropriar dos valores estéticos das máscaras africanas, por
    exemplo. Até a indústria transformar o lamento do blues em discos,
    vendáveis. Até o cinema perceber o potêncial dramático e catártico
    das vidas nos guetos sociais. Aí a coisa muda.

    Acontece que as periferias cansaram de cultuar a produção
    simbólica da classe média e seus artífices. Cansou de ver sua
    própria produção simbólica retrabalhada em nova embalagem e seus
    artístas ascenderem e decaírem por força de um mercado consumidor.
    Cansou de ver os seus objetos – música, literatura, etc – serem
    considerados sub cultura...

    As periferias resolveram tomar atitude e cultivar seu próprio
    discurso, comunicar-se com seu igual através de seus próprios
    códigos estéticos. Virar as costas para uma sociedade que
    sistematicamente se recusa a encarar de frente a situação.

    A criação desse novo discurso inclui novos agentes culturais, novo
    vocabulário, novas mídias, novo mercado. Uma nova cadeia produtiva
    que não faz questão de dialogar com o centro. Que vive
    independente da vontade ou interferência dos veículos ou agentes
    da indústria cultural central. Isso é possível agora, graças às
    novas tecnologias digitais.

    E as elites, através de sua juventude, que – questionando valores
    geracionais, acabam batendo de frente com valores de classe –
    passam a consumir essa nova produção cultural, a vestir, falar,
    andar como os jovens das periferias. A cultuar esses novos
    valores. Integrando esteticamente, de alguma forma, a periferia ao
    centro.

    Evidentemente, parte dessa elite, com uma intuitição ou
    consciência coletiva, de classe, percebe o perigo que suas
    posições correm, quando os pretos e pobres saem das páginas
    policiais e ocupam o caderno de cultura. Sabe também o perigo que
    corre quando seus jovens começam a frequentar as páginas
    policiais, atraídos pela mítica da periferia (“seja marginal, seja
    herói”) e buscar aventura no lado B da cidade, que inclui também,
    como bônus track, as drogas e seu discurso completo, sua nova
    sintaxe vernacular e comportamental. Essa elite passa então a
    execrar a estética produzida na periferia, suas expressões e produtos.

    Mas não tem jeito, a indústria cultural e a mídia abrem espaço
    para os novos produtos extremamente vendáveis que, pelo seu apelo
    popular, já construiram um mercado paralelo. É o que está
    acontecendo. A juventude se veste, fala, se comporta como garotos
    de favela. As gírias vem do mundo das drogas e as músicas, danças
    e meios de curtí-las são também modos vindos da periferia. O
    exótico, o erótico, vêm com carga transgressora poderosa e
    promessas de vivências culturais inéditas.

    É o que está acontecendo. O repertório é direto, tem novos
    códigos. A qualidade não se mede por letras de músicas que podem
    sobreviver sozinhas como poesia apaziguadora. A beleza é outra
    beleza. A desistência da aspiração pelo eterno vem da consciência
    da finitude e fragilidade da vida, que acaba com uma bala perdida,
    uma batida policial. Tudo é fugaz e reciclável. Tudo é reposto com
    muita velocidade, como os grafittes. Os novos ídolos que surgem
    como revelação e se extinguem como fogos de artifício, não são
    ídolos, são objetos de desejo que, consumado, os devora. Não é
    preciso sofisticação para o fast food, apenas uma boa campanha de
    marketing e um sabor impactante.

    Quando as barreiras políticas e sociais são detonadas pela
    cultura. Quando estética e repertório da periferia invadem o
    centro. Tanto faz onde vamos enfiar o que está /todo enfiado/.
    Precisamos repensar valores. Incluir. Porque é a exclusão que gera
    a violência. Os parametros estéticos, os paradigmas formais, os
    conceitos dos contemporâneos antenados, a cultura e a civilização,
    eles que se danem. Ou não.

    Viva o /Rebolation/ e a alegria de mexer os quadris.

    Salvador, abril de 2010

    marcio meirelles

    --- Em *qui, 24/3/11, JL Vivas /<[email protected]
    <mailto:[email protected]>>/* escreveu:


        De: JL Vivas <[email protected] <mailto:[email protected]>>
        Assunto: [S-C] Samba da Bahia
        Para: [email protected]
        <mailto:[email protected]>
        Data: Quinta-feira, 24 de Março de 2011, 10:20


        Extraido de http://ojuobaproducaoturismo.blogspot.com/
        ===========================

        O samba está em alta?

        Essa é uma pergunta que exige uma reflexão. Em 2003,  pouco se
        falava de samba na Bahia, a idéia de se cantar samba era vista
        com preconceito e havia pouquíssimos artistas (dentre eles
         Gal do Beco, Barlavento, Neto Bala, Batifun , Clécia Queiroz)
        e casas onde se tocasse esse gênero musical. Hoje, assistimos
        pipocarem grupos e muitos são os espaços criados especialmente
        ou utilizados para abrigar o samba, que aliás ganhou espaço
        dentro do carnaval e no Festival de Verão. Então voltamos para
        a pergunta: O samba da Bahia está em alta?  Qual é o samba
        produzido na Bahia nos dias atuais? O que é mesmo esse samba
        da Bahia?

                 Em 2004, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi
        reconhecido como Obra-Prima do Patrimônio Imaterial da
        Humanidade pela UNESCO e algumas medidas foram tomadas para a
        sua salvaguarda, como oficina da viola machete - viola
        característica do samba-chula do Recôncavo - e produção de CD,
        em realidade um registro maravilhoso de sambas da região. No
        entanto, será mesmo o samba de roda o que tem vigorado na
        produção dos artistas locais e desfilado na avenida no
        carnaval? Sabemos que a Associação dos Sambadores e
        Sambadeiras da Bahia - Asseba, criada em função do Plano de
        Salvaguarda para o reconhecimento do samba de roda da Unesco,
        - reúne hoje mais de noventa grupos e competentemente tem
        promovido encontros entre mestres, pesquisadores, rodas de
        samba  e shows no Recôncavo, cidades brasileiras e até mesmo
        no exterior. No entanto, esses grupos visitam pouco Salvador e
        não são eles que freqüentam as páginas dos jornais no final de
        semana. Quantos são os grupos e artistas das mais novas
        gerações que se dedicam ao samba de Roda na capital?  É o
        samba de roda mesmo o que está se chamando  de samba da Bahia?
        Ele está nas escolas, nas rádios? O samba da Bahia tem uma
        outra identidade?  Ou será o modismo,  oportunismo ou
        vislumbramento de retorno financeiros de muitos grupos, que
        apenas repetem a fórmula do samba urbano carioca (ou
        brasileiro), sem nem ao menos estudar um pouco mais sobre o
        samba,   o que tem pintado nas rodas da Bahia? Questões a
        serem refletidas...

        -----Anexo incorporado-----

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