Olá pessoal! O texto abaixo tem como objetivo informar e obter sugestões para a especificação da função "Substituir 1o... por 1º..." em português. Acredito que essa função será de interesse de todos os que possuem algum trabalho colaborativo voltado para o desenvolvimento das ferramentas de idioma do BrOffice.org. Logo, qualquer contribuição será muito bem-vinda.
Como o texto contém caracteres que podem vir a não ser corretamente exibidos nos leitores de e-mail, o mesmo texto está disponível em: http://www.openoffice.org/nonav/issues/showattachment.cgi/66176/Portuguese_Specification_(draft_in_portuguese)_GBP_12112009.odt Abraços, Gustavo Pacheco. 1) O problema Há alguns meses, registrei um problema relativo ao uso da função "Substituir 1o... por 1º...", disponível no menu Ferramentas > Opções de autocorreção > guia Opções. No BrOffice.org/OpenOffice.org, essa função não funciona para o português do Brasil. Ou seja, ao digitarmos 1o num texto, o Writer deveria, automaticamente, substituir essa digitação por 1º. O mesmo ocorreria se digitássemos 2a, por exemplo. O Writer deveria substituir por 2ª. Isso não acontece para o nosso idioma. A única implementação disponível para essa funcionalidade está na língua inglesa. Caso o usuário digite 1st, o trecho de texto será substituído por 1st . 2nd será substituído por 2nd, 3rd por 3rd e assim por diante. Notem que essa funcionalidade é diferente da substituição de palavras disponível no menu Ferramentas > Opções da autocorreção, guia Substituir. Existem as entradas a. e o. que são, substituídas, respectivamente por ª e º . Em resumo, a função "Substituir 1o por 1º", disponível no menu Ferramentas > Opções de autocorreção > da guia Opções não funciona para o idioma português. 2) O encaminhamento Na pesquisa para o registro do bug (103465), registrei a existência do seguinte documento: http://specs.openoffice.org/g11n/ordinal_numbers/ordinal_numbers.sxw que comprova o problema também em outros idiomas (espanhol, francês, italiano,...). Casualmente, o colega do projeto responsável pelo documento, Éric Savary, me contatou algumas semanas depois para confirmar o registro e solicitar a especificação da função para o português (do Brasil e de Portugal), visando a versão 3.3 do OpenOffice.org. 3) A pesquisa Considerando meu conhecimento leigo no assunto, reuni em pesquisa algumas informações relacionadas ao uso comum dos símbolos º e ª, na qual troquei, também, informações com o Olivier Hallot, responsável atual pela tradução da interface. Nesta primeira etapa, cheguei à seguinte redação da especificação: -- Início -- O uso da abreviatura no português é simples: para o sexo masculino: º (UNICODE 00BA) 1o --> 1º 2o --> 2º 3o --> 3º ... para o sexo feminino: ª (UNICODE 00AA) 1a --> 1ª 2a --> 2ª 3a --> 3ª ... Como informação adicional destas pesquisas e consultas, temos que: - essa forma é, também, a forma com a qual o Microsoft Word em português trabalha; - não foi encontrada nenhuma regra formal que defina o uso da abreviatura de numerais ordinais no plural. Por exemplo, quando falamos: "os primeiros colocados de cada campeonato." a forma usual é o uso por extenso e não abreviado. - a forma do tipo "1.º" não é usual no Brasil. Em geral só é usada em documentos formais jurídicos, no entanto, é genericamente substituída por "1º". -- Fim -- Esta consideração preliminar foi enviada para os colegas do projeto OpenOffice.org português, que procedeu uma avaliação mais qualificada do tema através do Instituto de Formação e Investigação da Língua Portuguesa. Recebi, então o seguinte e-mail abaixo, da colega Catarina Osório, que reproduzo integralmente: -- Início -- IFILP Instituto de Formação e Investigação da Língua Portuguesa IFILP-TEC - ÁREA TÉCNICA DO IFILP n. ref.: GGP000-20091023.01eml Mensagem para Gustavo Pacheco Prezado Gustavo Pacheco Na sequência da mensagem que dirigiu ao Dr. Flávio Moringa, da Caixa Mágica, apresentamos abaixo as nossas recomendações quanto ao modo como devem ser tratadas as abreviaturas de numerais ordinais em língua portuguesa no OpenOffice (quer na versão brasileira quer na portuguesa). A. «1º» ou «1.º»? 1. As regras da língua portuguesa determinam que as abreviaturas devem ser marcadas com um ponto colocado à frente das mesmas.[1], [2] Por exemplo, abreviamos «capítulo» com «cap.» e não com «cap». 2. Mais, havendo caracteres em expoente, o ponto é colocado antes dos mesmos - já que o ponto representa, nesses casos, aquilo que se omitiu.[2], [3] Por exemplo, quando abreviamos «Engenheira» com «Eng.ª», estamos a indicar que foram suprimidas as letras «enheir». Ora, não haverá grandes dúvidas de que «1º»/«1.º» é a abreviatura de «primeiro», pelo que a regra enunciada em 1. se lhe aplica; por outro lado, o «o» está em expoente, pelo que também o princípio mencionado em 2. incidirá sobre ela. Assim, torna-se claro que o mais correcto é escrever «1.º».[2], [4] Se a enunciação das regras não fosse suficiente, poderíamos sempre apelar para aspectos práticos: sem ponto, é fácil confundir «primeiro» com «1 grau» ou com «1 elevado a 0». NOTA 1: Se quanto à obrigatoriedade de se usar ponto numa abreviatura não há dúvidas, já quanto à colocação em expoente dos caracteres de terminação da palavra abreviada, os princípios não são tão claros. Pensa-se que, com o passar do tempo e com a utilização reiterada de uma abreviatura numa língua (e também pela frequente dificuldade de, informaticamente, colocar caracteres em expoente), estes caracteres tenham tendência para descer (e dessa forma, obrigatoriamente, passam para trás do ponto). Foi o que aconteceu, por exemplo, com «Senhor» e «Doutor», os quais, a meio do século passado se abreviavam com «S.r» e «D.r» e hoje em dia se abreviam com «Sr.» e «Dr.». [2], [5] Actualmente, parece que o mesmo está a acontecer com «Limitada», até aqui abreviado com «L.da» e agora, cada vez mais, com «Lda.». Seja como for, mesmo que tal venha a acontecer com os ordinais, será sempre obrigatório o uso do ponto; nessa eventualidade, a abreviatura será «1o.». NOTA 2: Salientamos que, embora o UNICODE preveja um caractere específico para o «o» em expoente (U+00BA), o respectivo glyph é, na maior parte das fonts, graficamente diferente do caractere «o» (U+006F) elevado na linha por intermédio de uma funcionalidade gráfica. Assim, para evitar que haja discrepância entre aquele e os restantes caracteres que eventualmente apareçam em expoente num texto (por exemplo, num mesmo texto aparecer «1.º» e «Ex.mº» não é tipograficamente aceitável), sugere-se que seja sempre usado o caractere «o» (U+006F) com a funcionalidade gráfica que o eleva na linha e o diminui (teríamos, portanto, «1.o» e «Ex.mo» . (O mesmo se aplica, naturalmente, a «ª».) B. «1.os»? Seguindo a lógica exposta em A., nomeadamente no ponto 2., resulta claro que é correcto escrever «1.os» (pois a terminação deixa de ser «o» e passa a ser «os»). Contudo, acompanhamos o Gustavo no entendimento de que os ordinais plurais se apresentam habitualmente por extenso. Com efeito, parece-nos que os ordinais abreviados são geralmente usados na enumeração de inteiros e em contagens, casos em que é incomum que se refiram a mais do que um objecto (e portanto careçam de plural). Seja como for, podemos exemplificar as seguintes situações como plausíveis: «às 3.as-feiras comemos sempre picanha»; «iniciaram-se hoje os "2.os Jogos da Lusofonia"». Enfim, por raros que sejam os casos, é nossa opinião que o OpenOffice deverá reconhecer a forma plural nos ordinais abreviados. Nota final: os usos A maioria dos brasileiros escreve «1º»? A maioria dos portugueses também. Porém, isso apenas significa que existe pouca sensibilidade para estes aspectos (aquilo que designamos de ortotipografia). Veja-se, por exemplo, a quantidade de pessoas que, no meio de uma frase, usa hífen em vez de travessão... Quer isso dizer que o mais correcto é o hífen substituir de vez o travessão? Claro que não. Curiosamente, relativamente ao travessão, o problema só não é maior porque, nos últimos anos, os processadores de texto introduziram justamente a respectiva correcção automática. Para confirmarmos estes princípios, deixemos aquilo que prescrevem as gramáticas e os linguistas e debrucemo-nos sobre o que estes efectivamente fazem. (A consulta de leis, dos textos de escritores consagrados, etc. é também plausível; em conjunto, estes representam o segmento da população erudita, aquele que deve ser tomado como modelo na utilização da língua. Ainda que o trabalho da Microsoft com as línguas seja habitualmente meritório, esta não faz parte do grupo...) Deste modo, constata-se que, na maior parte dos casos, a utilização de ponto na abreviatura de ordinais é a forma consagrada. Apenas para citar alguns exemplos, assim é feito: 1. em documentos de autoridades linguísticas (por exemplo, nos anais da Academia Brasileira de Letras, como em http://www.academia.org.br/abl/media/189.pdf); 2. em gramáticas brasileiras (por exemplo, na «Moderna Gramática Brasileira», de Celso Pedro Luft) e portuguesas (por exemplo, «Manual Prático de Ortografia», de José M. Castro Pinto). Embora existam algumas fontes credíveis que optam por não usar o ponto (como é o caso, no Brasil, do «Diário Oficial da União», ainda que nem sempre omita o ponto), estamos em crer que será porque nunca terão reflectido sobre o assunto, pois, tanto quanto sabemos, nenhuma delas defende qualquer posição sobre este assunto. Com efeito, o que se constata é que, todos aqueles que assumem posições sobre este assunto defendem o usa do ponto. [1] CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley - Nova Gramática do Português Contemporâneo. 7.ª ed. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1990. p. 647. [2] LEDUR, Paulo Flávio - Manual de Redação Oficial dos Municípios. Porto Alegre: Editora Age, 2007. p. 34; citando a Academia Brasileira de Letras e a Associação Brasileira de Normas Técnicas. [3] D'SILVAS FILHO - Prontuário - Erros Corrigidos de Português. Lisboa: Texto Editora, L.da, 2001. p. 184. [4] COSTA, José Mário - 2º não é a mesma coisa que 2.º [On-line]. [S. l.]: Ciberdúvidas, 2005. [Consult. Out. 2009]. Disponível na WWW em: <URL:http://ciberduvidas.sapo.pt/articles.php?rid=263>. [5] D'SILVAS FILHO - Ponto nas abreviaturas, de novo [On-line]. [S. l.]: Ciberdúvidas, 2005. [Consult. Out. 2009]. Disponível na WWW em: <URL:http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=15646>. Esperando ir ao encontro do que solicitaram, queiram contar com a nossa disponibilidade e empenho para aquilo em que pudermos ser úteis, agora e no futuro. Abraços amigos, Catarina Osório Responsável pela Área Técnica [email protected] PS - Gustavo, por favor, tenha em consideração que esta mensagem é uma reflexão do Instituto acerca deste tema; isto é, não se trata de um parecer institucional em resposta a uma consulta (que teria de ser mais documentado, mais aprofundado, etc., e que vincularia o IFILP, sendo portanto pago), mas de uma recomendação - em todo o caso, feita com muito gosto ;-) -- Fim -- Nota-se que a especificação das regras sugeridas pelo IFILP resultaria em: - para o sexo masculino: Singular: 1.o --> 1.o 2.o --> 2.o 3.o --> 3.o … Plural: 1.os --> 1.os 2.os --> 2.os 3.os --> 3.os ... - para o sexo feminino: Singular: 1.a --> 1.a 2.a --> 2.a 3.a --> 3.a ... Plural: 1.as --> 1.as 2.as --> 2.as 3.as --> 3.as … Sobre a qual adiciono os seguintes comentários: 1) a especificação do IFILP unifica a funcionalidade para usuários portugueses e brasileiros o que é sempre desejável sobre o aspecto linguístico estabelecendo, mais uma vez, o BrOffice.org/OpenOffice.org como um software coerente com a correção do idioma; 2) a funcionalidade deverá, neste caso, ser renomeada de "Substituir 1o... por 1º..." para "Substituir 1.o... por 1.º..."; 3) fica estabelecida uma diferença entre o uso da função no Writer e no Word, com as suas implicações naturais na utilização pelo usuário, visto que em geral, é usada a notação 1º/1ª; 4) o uso do caracter º (U+00BA) ainda é preferencial quando ao uso do caractere o (U+006F) elevado como sobrescrito, pelo menos, obviamente, para o singular. Como bem observou o Olivier, o uso do caractere o (U+006F) elevado como sobrescrito é prejudicado caso o usuário modifique sua configuração de estilo de parágrafo. Nesse caso, o usuário corre o risco de transformar 1.o em 1.o simplesmente com a aplicação de um estilo ou com a eliminação da formatação direta (sobrescrito) com o uso da função Formatar > Formatação padrão (Ctrl+M). Ou seja, ao aplicar uma ação de formatação, o usuário perde a funcionalidade da abreviatura automática. 5) A funcionalidade de abreviação existente através da substitução direta em Ferramentas > Opções de autocorreção > guia Substituir deverá ser reavaliada (substituições de a. e o. por ª e º ). 4) Os novos encaminhamentos Como pode ser visto, há uma série de considerações a fazer e contribuições para essa especificação são bem-vindas. Qualquer contribuição para chegarmos a uma especificação definitiva da função para o nosso idioma será considerada. Esperarei contribuições até a primeira semana de dezembro/09 para, então, repassarmos uma posição definitiva para o projeto internacional. --------------------------------------------------------------------- To unsubscribe, e-mail: [email protected] For additional commands, e-mail: [email protected]
